Fidel

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Escrever sobre Fidel não é tarefa fácil, só o será para quem, por convicção ou desconhecimento, alinha no simplismo a-histórico made in usa. Explicar Cuba e Fidel implica conhecer a América Latina, que começou bem antes da colonização europeia (antes de ser América e de ser Latina, portanto). Hoje não me apetece escrever, talvez porque me falta a paciência, talvez porque 2016 está a ganhar contornos de mercenário, talvez porque estou triste.

E, claro, assim tudo é fácil, limpo e claro; como que em um mundo a preto e branco onde o dedo indicador é movido por fios de marioneta, aos quais garanto também não ser imune. São invisíveis, difíceis de dar conta. E aponta, aponta e aponta. Demasiado fácil, limpo e claro. Ao contrário da realidade.

Sem Fidel, Cuba seria mais uma colónia estado-unidense. Imagino que uma espécie de Las Vegas, onde trump teria grandes-grandes-grandes casinos. Tenho a certeza de que poucos dos que ora gritam “morreu um criminoso” saberão da Cuba de fulgêncio, ‘Granma’ ser-lhes-á uma avó fofinha num filme de Hollywood, a CIA uma ONG humanista.

Como disse, não me apetece escrever e irromper pela História, pelo que deixo abaixo uns excertos (sigam depois o link para o texto) que recolhi em minutos. Antes dos textos, deixo um petit fours: “One, recounted in the New Yorker this week, tells of him being given a present of a Galapagos turtle. Castro declines it after he learns that it is likely to live only 100 years. “That’s the problem with pets,” he says. “You get attached to them and then they die on you”.

Leiam tudo ao som de Espinosa, “Los hombres se equivocan si se creen libres; su opinión está hecha de la consciencia de sus propias acciones y de la ignorancia de las causas que las determinan”, e de Ortega y Gasset: “Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo”.

Bem-hajas, Fidel. Não careces que a Justiça te faça História (podem trocar a ordem das parcelas). Tu és parte da História. E um capítulo negro na estória da infame cia (esse símbolo democrático que se passeia pelo mundo em acções clandestinas, matando quem acha por bem matar) que por mais de 600 vezes te tentou derrubar. E tu é que és o torcionário.

Galeano (saudades): “E seus inimigos não dizem que apesar de todos os pesares, das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta” . E já que estamos em Galeano, aproveitem e (re)leiam “Las venas abiertas de América Latina”.

Noam Chomsky

Belen Fernandez: Despite sensational braying over the decades about the Cuban menace, Castro never posed a physical threat to the US. Rather, the danger always lay in the example he set, which exposed the possibility of challenging the pernicious self-declared US monopoly over human existence – and for which he merits remembrance as a hero”.

Francisco Louçã: “Com a morte de Fidel Castro, desaparece uma das últimas grandes figuras que marcaram o século XX. Dirigente da única revolução socialista vitoriosa no Ocidente, enfrentou o maior poder da nossa era, o de Washington, e resistiu a invasões e agressões militares, a inúmeras tentativas de assassinato, ao bloqueio permanente e a todas as pressões. Fidel sai da vida como um vencedor. À frente de um pequeno exército guerrilheiro, de apenas cinco mil homens e mulheres (só tinha sobrevivido uma dúzia quando desembarcaram do Gramna para iniciar a luta), conquistou Havana porque o povo não tolerava mais aquela combinação de ditadura e máfia dos casinos, a subserviência e a miséria que alimentava a corte de Fulgêncio Batista. A revolução cubana tinha essas raízes na esperança de uma vida digna e é por isso que, ao contrário de outros regimes, manteve uma base popular tão expressiva e se tornou um exemplo continental”.

Termino com a mensagem do Papa Francisco: “Ao receber a triste notícia do falecimento do seu querido irmão, o excelentíssimo senhor Fidel Alejandro Castro Ruz, ex-presidente do conselho de Estado e do governo da República de Cuba, expresso os meus sentimentos de pesar a vossa excelência e aos familiares do falecido dignitário, assim como ao governo e ao povo da sua amada nação.”

Não, Fidel, não foste/és unânime, felizmente. Nunca o quiseste ser. Mas o ‘Granma’ atracou e cumpriu-se. 

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