Um dia rajoy terá uma estátua em Les Rambles. Por baixo, a inscrição: “Gràcies, gilipollas”.

rajoy transformou o processo de independência da Catalunha em algo que assume foros de irreversibilidade. A violência do dia 1 de Outubro, a prisão dos Jordis, a constante falta de diálogo revela-se completamente improfícua e contraproducente para os interesses de uma Espanha unida. Até ao dia de ontem, rajoy contribuiu, de forma decisiva, para o aumento do número de independentistas na Catalunha.

Hoje, aprimorou-se ainda mais, nessa sua senda. A forma como o artigo 155.º da Constituição Espanhola foi accionado e, após, “regulamentado” por rajoy, traduziu-se numa provocação ao povo da Catalunha. E muitos independentistas que não o eram passaram a sê-lo. Hoje são mais do que ontem, e ontem já eram bem mais do que antes de 1 de Outubro.

Tivesse o referendo sido aceite e realizado com normalidade (e não me refiro, obviamente ao referendo tal como ocorreu) e os defensores do “não” podido defender as suas razões (que, aliás, sobejavam — a começar pela simples enunciação de repercussões económicas) e outro galo teria cantado.

E só assim, validando um referendo (insisto que não me refiro aos resultados do que veio a ocorrer) poderia Espanha-Madrid, com plena legitimidade, invocar a Constituição.

Porém, rajoy decidiu-se pelo uso da força e, agora, pela insistência no óbvio (porém, inócuo): a inconstitucionalidade de uma declaração de independência. Obviamente, a declaração de independência não respeita a Constituição espanhola. Tal como, mal comparado, o 25 de Abril não respeitou a Constituição de 1933.

rajoy criou um problema que dificilmente terá solução. Contribuiu sobremaneira para o sentir independentista catalão. É preciso uma total ausência de tacto e excesso de senilidade política (que talvez tenha explicação na vontade de mostrar serviço a uma Espanha em que só conta Madrid) para ter chegado a este resultado.

Dificilmente, a acção de rajoy poderia ter sido mais favorável ao resultado final em construção. Como creio que não foi premeditado, e que rajoy não é um feroz independentista catalão infiltrado no Governo central (embora pareça), e para além do que atrás disse, só posso concluir que rajoy colocou o seu umbigo e o do seu partido à frente dos interesses de Espanha.

E, nisto, conseguiu o impensável. Erguer Puigdemont a herói na luta pela independência. Não é fácil, convenhamos, dar carisma a Puigdemont, um personagem sombrio (até agora) que não passava (aos olhos da maioria dos catalães) de um Quixote sem Sancho, em busca de uma Dulcineia que todos sabiam ausente.

Puigdemont não tinha, sequer, moinhos de vento contra os quais lutar. rajoy presenteou-o com um exército de ocupação. Se a Justiça espanhola o prender, o que é uma inevitabilidade, multiplique-se por dez.

Em suma, rajoy conseguiu o impossível. Dar palco a Puigdemont, sendo que para tudo contribuiu, para além da sagacidade de uma ameba, um total desconhecimento da História e da Ciência Política. Catalunha não tem moeda? Há sempre uma moeda possível, o dólar. A fuga de empresas? Logo regressam, a Catalunha não é propriamente algo de que o capitalismo vigente possa prescindir. A União Europeia jamais reconhecerá a República da Catalunha? Veremos, assim comece a fazer contas ao prejuízo.

Bastava rajoy ter lido Tocqueville: “Os acontecimentos podem passar do impossível ao inevitável sem pararem  no provável”. Ou então leu, e quis ser a ignição.

Um dia rajoy terá uma estátua em Les Rambles. Por baixo, a inscrição: “Gràcies, gilipollas”.

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