O filho da República e o afilhado do padrinho

Marcelo Rebelo de Sousa discursa na Universidade de Verãoo do PSD

Um professor da Universidade de Lisboa dizer a um ex-Reitor que “não anda aqui há três anos”, insinuando que este anda, ao mesmo tempo que o apelida de “virgem” político e o “acusa” de ter trazido seis assessores, mais do que desonestidade intelectual é ruindade pura. Sinal de que vale tudo. E Marcelo é ruim. E para Marcelo vale tudo. Sempre assim foi. E sempre assim será. Talvez se “aprimore”, até. Mas este primor nunca será benigno.

Fui aluno do Marcelo há 25 anos. Desde essa altura, fui aprendendo a conhecer o maquiavel de pacotilha que nos calhou. Ontem, ele mostrou-se em todo o esplendor. Reduziu, porque lhe calha, a política ao comentário televisivo e ao desfilar intriga nos corredores partidários. Por acaso, o sujeito foi meu professor de Ciência Política. Parece-me que na altura o conceito era outro. Estava ele acabadinho de se banhar no Tejo. Mesmo a água suja de então deve ter limpo algo que entretanto se voltou a acumular em forma de camadas de merda ressequida e sebenta.

Fazer política não se reduz a ser o grilo falante do sistema. Fazer política é um exercício constante de cidadania, uma luta permanente pela coisa pública. Fazer política é gerar consensos onde ninguém os sonha. Colocar a polis acima do umbigo. Ser político é ser tudo aquilo que Sampaio da Nóvoa foi enquanto reitor. É ser o que Sampaio de Nóvoa é como Homem. Somar partes e conseguir que o resultado resulte maior do que a mera junção aritmética. Ser político é, por exemplo, juntar as Universidade Clássica e Técnica e criar assim uma das maiores e melhores universidades da península ibérica. Isto, tamanha a exigência e grandeza, ultrapassa tudo o que Marcelo fez a vida toda, se não contarmos com a intriga política, a invenção compulsiva de factos, o calculismo que só ao próprio aproveita.

Sampaio da Nóvoa é político, sim. Marcelo é outra coisa. Uma espécie de maleita com cheiro a outros tempos. Afilhado do Padrinho é um bom qualificativo. Ser político, fazer política é outra coisa. Marcelo ontem mostrou-se. Melhor, Sampaio da Nóvoa obrigou-a a mostrar-se. Se Marcelo ganhar não arriscamos “apenas” mais dez anos de República sem Presidente. Muito mais grave e importante; perdemos a oportunidade de ter como chefe de Estado aquele que é seguramente a imagem substantiva e primeira do Cidadão Republicano, com todo o peso destas palavras. Separadas e em conjunto.

Portugal deu-se e dá-se a demasiados luxos. Começando pelo “luxo” de não ousar. Não nos podemos entregar ao luxo de não ter Sampaio da Nóvoa como Presidente da República. Sampaio da Nóvoa é filho da República,  Marcelo é filho de si próprio, afilhado de outros tempos. De outros Marcelos.