O homem-garnisé

O homem-garnisé é dono da verdade absoluta, aquela de que todos os outros foram despojados aquando de um infeliz episódio com uma serpente e uma maçã. Total nas convicções – feitas de infâmias, cobardia e despeito –, o homem-garnisé deita as cartas de forma imponente, vai sempre a jogo, ainda que não lhe conheça as regras. Paradoxalmente, só assim age (só assim é) fora do seu habitat natural. Neste, uma singular salinha com uma cadeirinha virada para um espelho, o homem-garnisé aceita-se como é.

Quando vai à procura de alimento e se afasta do espelho, o homem-garnisé transfigura-se. Não quer voltar ao assento redutor. Esquece-se da imagem pouca que o espelho lhe revela e confia no tamanho e na perpetuidade da sombra que o sol mentiroso lhe revela.

Fora da salinha, o homem-garnisé vende-se por menos de trinta moedas. Quando alguém não repara nele e se coloca entre si e aquele sol enganador, que o faz ver-se tão grande, sai-se com ameaços entredentes disto e daquilo. Nunca esquece. Morde pela calada, mas quer fazer de conta que tem tomates. Planta opinião como quem ateia as chamas dum auto de fé.

Sempre com fome, o homem-garnisé é todo um sistema judicial. Na toca onde guarda os alimentos, o homem-garnisé faz teatros de marionetes digitais em que os dedos do pirete são os juízes. Como é ventríloquo manhoso, o homem-garnisé lança as vozes que quer aos deditos que manipula. No fim, com voz bebida, põe na boca do juiz as palavras que quer: “culpados! sois todos culpados!”

O homem-garnisé faz músicas de uma nota só. E, tomando-nos por iguais, quer-nos pôr a dançar.

Quando encontra quem o alimente longe daquele maldito espelho que o minimiza, o homem-garnisé afeiçoa-se. Deixa-se haver. Aceita ser a voz do dono que lhe dá ração longe daquele retrato fiel. O dono do homem-garnisé, note-se, raras vezes não é também ele um homem-garnisé. E por aí adiante. Ou por aí atrás, se quisermos ser mais precisos.

O homem-garnisé tem de provar que é corajoso – só assim lhe dão que comer – e para isso faz-nos uma sopa da pedra, aceitando por bons os ingredientes podres que lhe dão. E depois diz: comam-comam, foi o meu dono que mandou e eu garanto que é de primeira qualidade.

E há quem coma e lamba os beiços, gulosos de putrefacção. E pede para repetir, que está muito boa. São outros homens-garnisés. E o homem-garnisé incha de flato. Fica quase do tamanho da sombra que o engana.

O homem-garnisé está agora enorme. Leva imensa gente à toca que arranjou longe da salinha com a cadeirinha virada para o espelho. E aplaude. E aplaudem-no. E aplaudem-se uns aos outros. Homens-garnisés, todos. Levam cromos para trocar. Mais ingredientes podres para as sopas, meias-histórias, coisas de vão de escada. Contam, como se lhes houvessem sido dirigidos, piropos ouvidos de passagem. Ali, na toca sem reflexos, decidem o que o homem-garnisé há-de opinar – entre irmãos de desgraça. E bichanam, para que ninguém os ouça. Têm esse cuidado. Tem esse cuidado. Escusa de tramar tão baixinho, o homem-garnisé, que já todos o conhecem. Já todos sabem o que dali vem – o que dali não vem. E ele sabe disso e é precisamente isso que não o deixa crescer (esta parte ele não sabe).

Quando acasala, o homem-garnisé fá-lo com os da sua igualha, para que dali não saia mula ou macho. E nisto tem facilidades, que um homem-garnisé reconhece outro ao primeiro olhar. Andam ao mesmo, por sombras, e encontram-se muitas vezes nas tais tocas sem espelhos. E amam-se e depois odeiam-se.

Entre a salinha reveladora e o sol enganador, o homem-garnisé já escolheu. Escolheu ser pequenino. Não o pisem.

Voto Elina Fraga​, obviamente!

elina-fraga

Por tudo o que fez pela Advocacia e pelo Estado de Direito Democrático; porque é urgente que o trabalho continue, que não é algo que se complete num mandato. Contra uma Advocacia de caciques (o amigo do amigo que pede ao amigo para votar no amigo). Contra o voto cego e empurrado pelo medo. Contra o “statu quo” de antanho que tenta fazer de nós soldadinhos de chumbo.

Sou Advogado, não sou marioneta de ninguém. Apesar de ter referido motivos “contra uma espécie de advocacia”, o meu voto é a favor… A favor da Bastonária Elina Fraga. O seu trabalho está à vista. Imagino que não seja (ainda) tão visível para quem não é Advogado, mas é por demais notório, para os Advogados, o que esta Bastonária fez pela Advocacia. Quem não vê (ou não quer ver) tem saudades do infame antigamente, onde os compadrios eram regra.

E “fazer pela Advocacia” é fazer pela Cidadania. Estas eleições não pretendem eleger o representante das “grandes” sociedades de advogados (com caves e porões de “advogados” a mudar nomes em minutas) e seus interesses

Voto numa Advogada, minha Colega. Uma Bastonária todo-o-terreno e que vai mesmo ao terreno.

Voto contra o anedotário que assevera que “os Advogados são todos iguais”. Não somos. Creiam, não somos. Mas não creiam apenas na minha palavra, só porque é a minha certeza. Procurem saber. Procurem destrinçar. Na verdade, e corrijo-me (ou não, apenas digo de outra forma), os Advogados são todos iguais. Urge é extirpar da função quem dela abusa.

E, já que voto, desta forma convicta, vai daqui também a minha esperança. Em forma de “exigência”.

Há que acabar de uma vez com a Advocacia “call center”. Há que “apertar a malha” e impedir e repudiar os advogados que não o são. E a cada dia que um advogado não o é, a Advocacia, injustamente, leva por tabela. Cada dia que um Advogado deixa de o ser, “eu” entro juntamente com ele naquele anedotário nacional. Cada dia em que um advogado ousa deixar de se exercer, todos os Advogados são golpeados. E a Advocacia. E a Justiça. E o Estado de Direito. E a Democracia. E os Cidadãos.

Após muita ponderação, votarei também em todos os demais candidatos (aos diversos órgãos) que acompanham a Bastonária Elina. Não o faço de forma cega e desembestada. E não o faço por fé, como quem crê no que não vê. Foram demasiados anos “daquilo”, e eu não concedo em deixar de ser Advogado. A actual Bastonária fez mais num mandato do que os três (quatro, cinco?) anteriores todos juntos, com todos os mandatos somados.

Ser Bastonário é, hoje por hoje, ser Elina Fraga.

Não é uma forma de auto-promoção. Não é um caminho aberto para o horário nobre nas televisões a comentar o caso do dia. E aqui, basta olhar o que foi. Se votei errado? Demasiadas vezes. Tantas que cobrei à actual Bastonária o meu voto… demasiadas vezes. E rocei mesmo a indelicadeza.

A verdade é que vinha demasiado queimado. Mas isso não calha aqui (mesmo porque já maldisse que chegue os meus passos errados; coisa que imagino arredia aos seres perfeitos).

O (meu) voto que contribuiu para o actual mandato não foi errado. Assim como este não o será. E se porventura vier a ser, no que não creio, aqui estarei. Como ora aqui estou.

Asinha termino. A Advocacia, mais do que a uma profissão, é um exercício de Cidadania.

Por isto e isso tudo, acima dito, voto Elina Fraga.

Em nome da Liberdade, pela UBI

A Universidade da Beira Interior vai a votos.

E, porque duma Universidade se trata, porque da “minha” Universidade se trata, tenho, mais do que o Direito, o Dever de me pronunciar.

Afinal, ali dou aulas há catorze anos. E ali voltei a ser aluno (de doutoramento) há um ano. Não vou gastar palavras com quem entende que isto é prosa de pseudo-intelectual – não o fiz para me “armar ao pingarelho”, mas para aprender e, eventualmente, para contribuir para esta minha casa. A minha alma mater é, naturalmente, a Faculdade de Direito de Lisboa – se um dia concluir o doutoramento, com prazer terei duas.

Na FDL, a meio do primeiro semestre do primeiro ano, um professor encostou-me um dia à parede. “Aqui e agora há que decidir, você quer ser o quê? Pode ser tudo ou, então, um mero Advogado de província”.

Desde que me lembro de ser gente que quis ser Advogado. E desde que me lembro de ser gente nunca pensei em sê-lo que não onde o sou. A resposta foi óbvia. E apego-me à metáfora. “Só quero mesmo que me largue”. Detesto que me limitem os movimentos. Aquele indivíduo conseguiu, numa conversa de menos de cinco minutos, obrigar-me a optar. No momento. E passei a ter as notas por cadastro.

A magia que era ter aulas com o Marcelo, com o Freitas do Amaral, com toda aquela gente (de direita – kidding, não resisti), toda a magia acabou ali. Tirei as medidas ao curso e optei. Não me fui queixar, nem de tal me lembrei. “Faço esta coisa com uma perna às costas e agora acabou-se esta magia”. Vou viver outra. E fui viver Lisboa, por cinco anos. Vivi-a intensamente. E em boa hora o fiz. Encontrei essoutra magia e comecei a dar os primeiros passos nisso de ser Homem.

Tinha dezoito anos. Não virei homem no dia seguinte. Mas a minha média (eu que vinha do liceu com médias do tamanho da minha idade) desceu a pique.

O que raio tem isto a ver com a UBI? Tudo e nada. Depende de onde se olhe. A ligação é que não quero mais ver a UBI, a minha Faculdade e, acima de tudo, os meus Alunos com medo.

Vamos lá então à UBI. Aquele patético professor limitou-me a acção. Mudou-me o caminho. Se em boa hora o fez? Claramente que não. O que aqui releva é que não tinha o Direito. E eu podia ter dado exactamente no mesmo, mas sem ser encostado à parede. Se me dizem “ordeno-te que me escolhas”, eu escolho o caminho inverso.

Não é o caso, mas achei por bem começar assim este meu depoimento. Quero alunos que ousem, quero alunos que lutam. Não quero alunos que não se exercem, ou que quando se exercem o fazem com e por medo.

Universidade e Liberdade são sinónimos. Já dei aulas “durante” três reitores. Santos Silva, João Queiroz e o actual António Fidalgo. Os dois primeiros tiveram a importância notória que tiveram. O primeiro inventou a UBI moderna, o segundo deu-lhe o impulso então necessário, e foi importante por ter eliminado alguns métodos arcaicos d’antanho. Durante este tempo, em que dei aulas em três faculdades, nunca vi medo. Vejo-o agora, para meu lamento. E vejo a minha Faculdade de Ciências Sociais e Humanas empurrada para canto.

Pertenço ao Departamento de Gestão e Economia, embora a maior parte das minhas aulas sejam dadas ao curso de Ciência Politica e Relações Internacionais, que cabe noutro Departamento. Respeito imenso o Presidente do meu Departamento, Alcino Couto, tal como todos os outros anteriores directores de Departamento (terei que dar aqui um destaque à Susana Garrido – se me mantenho na UBI, a ela o devo, que colocou o mérito à frente do resto). E em igual medida respeito o Presidente da minha Faculdade, Pedro Guedes de Carvalho, que se mais não pôde fazer foi porque esta Reitoria lhe limitou o caminho.

Tenho esta mania de ser o que sou – Advogado –, e apesar de a Susana Garrido nunca me ter dito nada, estou certo de que se não fosse ela, e os meus resultados, eu já teria marchado há muito. Adiante.

O actual reitor resolveu transformar a UBI numa espécie de empresa que procura investidores (o que, no início, insciente da transformação que se queria), até achei interessante e saudavelmente ousado. Esqueceu-se, o actual reitor, entre tantas demandas, do que move a UBI. Do que move qualquer Universidade. O Ser. A Razão. O Motivo. A Origem.

Os Alunos. O meus Alunos. Os Alunos da minha Faculdade, os Alunos da minha Universidade.

Este texto terá de ser longo, e não faltará quem o ligue aos meus orientadores de doutoramento (Donizete Rodrigues e Liliana Reis). Recomendo injecções de memória a quem assim pense. E acima de tudo, recomendo juízo. Muito.

E, atentem, o doutoramento é algo de que não desisto. Nem que o vá terminar a Coimbra ou ao Minho. Não prescindirei, nunca, de ser Advogado. E de, quer no exercício da função, quer na Academia “ousar” Liberdade. Demorou demasiado sangue a conquistar.

Como devem imaginar todo este texto “desrespeitou” quem me disse “olha a tua vida”. E eu olho, e por isso testemunho.

Estou há catorze anos na UBI. E não tenho de olhar “a minha vida”. Seria patético que colocasse o meu sofá à frente dos interesses da Universidade onde dou aulas.

Não me encostam à parede ­(como aos 18 anos me fizeram) – e é justo dizer que este reitor não mo fez, talvez porque olhe alunos e professores de cima. Talvez porque nem saiba da minha existência. Na verdade, e penso que isto diz tudo, não o conheço. Comi uns salgadinhos com ele, num evento qualquer que não recordo. O que recordo é aquele olhar altaneiro; coisa habitual em quem padece de um enorme complexo de inferioridade. E infra exemplificarei o que digo.

O que diz realmente tudo e o que me fez avançar para este depoimento foi uma espécie de gota de água. Um email que ontem professores e funcionários receberam do actual reitor, a propósito da morte de João Lobo Antunes. Tive de o ler várias vezes, até acreditar que aquilo havia sido mesmo escrito. Por Um Reitor de uma Universidade, em pleno século XXI.

Não, “magnífico”, não vale tudo. Há limites.

No dia da morte de João Lobo Antunes, o reitor achou por bem aproveitar-se desta triste perda para se auto-promover; e à sua recandidatura. Não exagero, creiam. O email, já público, transcrevo-o de seguida, para vossa apreciação. Diz muito de quem o escreveu, acrescenta nada a quem fez de conta que pretendeu homenagear.

“Caros professores e funcionários da UBI

Por ocasião da morte do Prof. João Lobo Antunes, quero deixar-lhe uma homenagem muito sentida pelo que fez pelo Curso de Medicina da UBI.

            O último email que dele recebi foi há pouco mais de ano e meio, a 19 de Março de 2015, já a doença o consumia. Respondia ao envio da proposta que a UBI apresentara antes ao Ministério da Saúde para uma melhor articulação da oferta de saúde na região e com isso reforçar o ensino de Medicina na UBI. Cito textualmente e na íntegra:

Caro Sr. Reitor:

Li com muito interesse o vosso relatório que considero modelar no realismo e coragem da análise, e na clareza das propostas que, a serem postas em prática, tiram consequências do maior alcance. Assim triunfaria a racionalidade e o sentido do real interesse das populações.

Cumprimentos de admiração e amizade.

João Lobo Antunes

O “nosso relatório” vinha no seguimento da avaliação que, a meu pedido, o Prof. João Lobo Antunes fez do curso de Medicina da UBI em 2014, coadjuvado pelos Profs Jorge Soares da UNL e Rui Costa da Fundação Champalimaud. Essa avaliação compreendeu uma vinda de 3 dias (7, 8 e 9 de Outubro de 2014) dos professores à UBI e uma visita aos Hospitais da Cova da Beira, da Guarda e de Castelo Branco. Em email de 24 de Novembro de 2014 o Prof. Lobo Antunes enviava-me o Relatório de Avaliação.

Senhor Reitor e querido amigo

Aqui vai o resultado do nosso labor. Dê-lhe o uso que entender.

Fizemo-lo com boa vontade e desejo de justiça e rigor. Foi para o grupo uma experiência de que guardamos a melhor recordação.

Cumprimentos muito amigos

João Lobo Antunes

O relatório que fizeram, apontando pontos fortes e pontos fracos e deixando recomendações, foi de extrema importância na afirmação do Mestrado Integrado de Medicina e na preparação da recente avaliação oficial do curso pela A3Es.

            Em público, em auditórios da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Calouste Gulbenkian, e em privado, nomeadamente com responsáveis da saúde e do ensino, o Prof. João Lobo Antunes louvou bastas vezes a formação médica que se fazia na UBI.

Morreu um grande médico, um homem de cultura e um grande senhor. A UBI muito lhe deve no reconhecimento do seu curso de Medicina. Paz à sua alma.

António Fidalgo”

Eu, eu, eu…

Morreu sim, um grande Homem. Mas o propósito do reitoral email não é enaltecê-lo, como decorre óbvio dos emails abusivamente transcritos dirigidos ao “Senhor Reitor e querido amigo” com “cumprimentos muito amigos”, com “Cumprimentos de admiração e amizade.”. Como raio pode um Reitor ousar tamanha indignidade?

Vivemos tempos complicados, mas a laicidade é conceito imperativo. Na República e, naturalmente, na Universidade. “Paz à sua alma!?” João Lobo Antunes não terá morrido em guerra com a dita alma. O reitor nem terá dado pelo paradoxo. A fome de cavalgar o momento era tamanha que se esqueceu da essência de Ser Universidade. E o laicismo é um dos princípios basilares. Um reitor, numa Universidade, poderá elogiar o homem, poderá falar de um homem insubstituível. Mas este “Paz à sua alma” é a negação de uma Universidade. E o diabo está nos detalhes e o email vem pejado deles.

As eleições são já a 9 de Novembro. Tudo tem pernas e anda, e este email tem o propósito notório que tem. A UBI deverá muito a João Lobo Antunes, sim. Revelar-lhe os cordiais emails, escritos de forma cordial, por um homem que dedicou a vida ao humanismo é, no mínimo, um desrespeito.  Em boa verdade é uma infâmia.

A Universidade da Beira Interior não pode passar por aqui. A Universidade é, acima de tudo, para os alunos. E vejo a minha Faculdade de Ciências Sociais e Humanas votada pela reitoria a um ostracismo que não imaginava possível. E que só posso imaginar de má-fé. Porque insistente.

A actual reitoria elegeu uma Faculdade como sua inimiga. Como alvo a abater. Uma espécie de antropofagia académica, impossível de justificar.

Universidade é sinónimo de Liberdade. Esta é a minha singela opinião. Não tenho, tendo em conta o meu estatuto de Assistente (convidado), Direito de Voto. Mas tenho o Direito à Opinião. Assim como quem de mim discorda tem o Direito de… mim discordar. Ou então repristinar essa essência das ditaduras, e acusar-me de delito de opinião.

Apelo a todos os meus Colegas que podem votar, que o façam em liberdade e consciência e sobretudo sem medo. Considerem que a lista “Inovar com Experiência” [facebook; site], apresenta professores de enorme valor e dedicação, como Liliana Reis, que carrega a licenciatura de CPRI e o Mestrado de RI às costas. Donizete Rodrigues, um homem que passou o verão entre as Américas a dar conferências. Lançou livros. A UBI nem piou. Faz de conta que não existe. Pedro Silva, Tiago Sequeira, Susana Garrido, Zélia Serrasqueiro, Pedro Guedes de Carvalho e tantos tantos outros. Que dão a pele pela UBI. Todos os dias. E se o segundo reitor voltar (Professor Santos Silva), que em boa hora o faça.

Relembro, igualmente, a todos os Alunos que é também vosso Dever e Direito Votar. Há duas listas, perdão, três listas, à vossa escolha.

Votem. É o vosso dever, o vosso direito. Mas antes pensem, reflictam, contestem. Nunca se deixem tolher pelo medo. Se o medo me aconselhasse, este texto nunca veria a luz do dia.

Tragam o cepo, eu não farei dele almofada.

Aquele que recorda o passado perde um olho! Aquele que o esquece perde os dois!” Provérbio russo citado por Soljenitsine no “Arquipélago de Gulag”.

Je suis ______ e o placebo do Ocidente

Mossul vai cair nas próximas semanas.

Vão livrá-la do daesh. Assim como “livraram” o Iraque do saddam hussein. Porém, como a Rússia e os USA acharam que era boa altura para marrar um com o outro (eleições nos USA oblige), e como a ONU deve ter sabido disto pelos telejornais, hoje mesmo se inaugura uma nova onda de refugiados. Refugiados, gente; crianças, mulheres e homens.

É importante resgatar Mossul, sim; pena que a questão “para quem?” não tenha sido para aqui chamada. E o “como” é naturalmente à bomba. Vêm aí tempos duros, mais duros que estes. E novos daesh se erguerão.

E quero mandar daqui um enorme “ide beber merda” (bardamerda) à notícia que começa a ser notícia. Que nunca o mundo teve tanta paz como hoje. E, psicopatas, comparam este hoje com há 50, 500, 5000 anos. Placebos avençados de merda. Nenhum de nós tem de se erguer contra essas realidades arrevesadas. Querem estatística? Querem números? Querem amenizar a dor de quem olha a televisão? Sim, porque o que interessa é mesmo a propaganda. Não interessa a dor de quem foge. Não interessa. Nada interessa. Interessa parecer que emendamos um erro. O daesh foi parido pelos USA aquando da última invasão.

Claro que o daesh tem de morrer. O que realmente me preocupa é a forma como o matam. Os danos colaterais, em forma de milhares de refugiados que não têm onde se refugiar. O que realmente me preocupa são as bombas cegas, que matam onde caem.

Insistimos nos erros. Insistimos na falta de estratégia. Insistimos num calendário suicida e homicida.  Mossul será resgatado, não duvido. E até imagino que o daesh acabe aniquilado. Porém, outros daesh se erguerão, para alimentar a indústria da guerra. E continuamos nisto. Erro após o erro. Sem ter em conta a realidade.

Depois, quando uma das capitais do mundo ocidental for atacada. Depois, nessa altura, choramos os mortos. Os mortos do ocidente, entenda-se. Que quem foge ao resgate de Mossul (e já li e vi que chegue sobre a falta de coordenação e estratégia) é só mais um cadáver de criança que dá à praia.

É só mais um cadáver de criança que dá à praia. Algures no Verão. Para vertermos uma lágrima de redenção, entre mergulhos.

Lágrima Chorada. Dever cumprido. E depois todos seremos, as vezes que forem necessárias, o que quer que seja necessário ser. Enquanto escrevi estas palavras milhares de civis terão morrido, em Mossul, em Aleppo.

E, então, Je Suis o que for preciso. Interessa é “jessuíre”.

O Ocidente não vive em Mossul.

Asinha termino. A tomada de Mossul está a ser feita ao pontapé, sem a menor noção da realidade no terreno, que não seja acabar com o daesh, para as televisões verem. Uma licença para o terror.

As nossas certezas inventaram o daesh. E nada aprendemos com o passado. As nossas certezas inventam, hoje mesmo, outras formas de terror. Nada que um “Je Suis” não resolva. Nada que a extrema-direita não cavalgue.

Este “Je Suis…” não passa de uma nova forma de dizer L’État, c’est moi.

E, como se atropelam, no que dizem, ensaios e livros e crónicas, nunca o mundo viveu em tanta paz.

Je suis _________  (preencha o espaço e chore pela criança).

Bob Dylan, a forma de a Academia dizer “desisto” e um recorde mundial

Ao meio-dia foi batido um recorde mundial. Nunca tanta gente tinha dito, ao mesmo tempo, “what the fuck?!” Entrada certa no guinness.

Começo por dizer que gosto das letras do músico Bob Dylan, quase tanto como gosto das letras do Chico Burque e do Cohen. A cena é que não estamos perante Literatura, são palavras cujo mote é a música, não o Livro. Sem perder de vista, como é óbvio, que pouco do que é escrito em livro é literatura.

O conceito de Literatura é mutável, dou de barato. Não se reduz aos dicionários. Mas adiante. Sendo certo que conservador tenho pouco, não gostei desta caixa de pandora que hoje se abriu. Um discurso político pode ser literatura? Imaginem o “I have a dream”, do Martin Luther King”. E a bula de uma vacina? Pode ou não virar prémio Nobel da Paz? E, porque escrita, da literatura? Se me tiver apaixonado por uma mulher ao som do “tambourine man, que tal o prémio Nobel da química?

Literatura, no meu planeta é trabalhar as palavras, reinventar línguas, inventar caminhos por caminhar. Construir e destruir mundos. Entrar num, peço desculpa, LIVRO, seja de poesia ou de prosa, e sair de lá diferente. Isso é Literatura. E aquele sentir de malhar e moldar a pedra.

Não me vou alongar muito, que entre o meio-dia e esta hora, já é literariamente correcto dizer “mas que belíssima escolha; parabéns ao Dylan cujas letras para musicas, mudaram a minha forma de estar na vida”.

Já agora, se apenas tivesse ouvido que Dylan ganhou o Nobel, pensaria em Dylan Thomas (morreu em 1953). E estranharia, mas pensaria num prémio póstumo. Por causa de “coisas” como o “Do not go gentle into that good night”. Invocaria outros ESCRITORES mortos, que o mereceriam mais do que ele. Daqui até Pessoa tudo valeria.

Vamos falar mesmo a sério. Este prémio pode ser justificado. Obviamente que sim. Da forma como tantos já o fizeram, depois do wtf do meio-dia. E não repito aqui argumentos pujantes com que não concordo. Não são bem argumentos. São desculpas em forma de justificação.

Bob Dylan é um excelente letrista, sim. Um poeta que se perdeu sem se perder completamente, concedo (mas há quarenta anos atrás); um músico que se ganhou.

Este Nobel é absolutamente ridículo. Uma provocação barata em forma de incapacidade de decidir. Não terá sido à toa que a atribuição foi adiada uma semana. Este Nobel da Literatura atribuído a um não escritor não foi uma ousadia. Foi, estou seguro, o resultado da incapacidade da Academia em chegar a um consenso. E muitos lobbies pelo meio.

E asinha termino. Este ano veremos cd’s com a faixa “prémio Nobel da Literatura”. As editoras (de livros) irão apostar nas biografias, nas colectâneas de letras (e vão traduzi-las, credo). Sairão livros com cd’s na contracapa. O Natal está à porta. E urge vender.

A Academia perdeu-se. Não é coisa de hoje, como se viu nos últimos anos com os prémios Nobel da Paz (UE e Obama) e da Literatura (com excepção do Vargas Llosa em 2010). A ideia era mesmo escolher o melhor dos melhores a cada tempo. Pensava eu. Nos tempos que correm o Nobel da Literatura, hoje encharcado de falsa rebeldia, olha a tudo menos à Literatura. Roça a infâmia deixar de fora Escritores e optar pelo Bob Dylan (que tal inventar um novo Nobel?)

Hoje não vou ler o Prémio Nobel da Literatura. É uma impossibilidade material.

Vou jantar. E continuar a ler o Livro (de uma senhora que escreve) que tenho em mãos. Talvez amanhã oiça o Bob. Na verdade, já algum tempo que não o faço.

Bem-haja à Academia. Por se assumir o espelho vivo e líquido do mundo em que vivemos. O bem-haja é por terem revelado, de forma ostensiva, que são apenas mais um prémio. O menor e menos sério de todos. A escolha de Bob Dylan foi a forma de a Academia dizer “desisto”.

Taxismo não é ideologia…

Espero que as autoridades (que hoje andaram mansas que nem cordeiros) peguem nestas imagens e as enviem para o MP.
Melhor, espero que a PGR não ignore estas imagens e identifique cada um dos corajosos cobardes que, de costas aquecidas uns pelos outros, assim actuaram. E trata-se, obviamente de um crime público. De vários (é só escolher e escolher o que melhor absorve os demais).
Também aguardo, sem serenidade alguma, que o Governo e todos os partidos (entre os que o apoiam e os que fazem de conta que exercem aposição) se manifestem.
Não há nisto um pingo de ideologia. Vivemos num Estado de Direito Democrático que tem de se cumprir. Cada um destes estupores tem de ser identificado e responder pelos seus actos. E não me refiro apenas aos do vídeo. Mas a tudo o que hoje se disse e viu e que não pode passar impune.
Demorámos muito a chegar aqui. E estes estupores não estão acima da lei (nem os sindicatos nem o partido que lhes aquece as costas). Dando de barato, sem em tal conceder, que a Uber actua ao arrepio da lei… o caminho não passa seguramente por este “espectáculo”. Nem tampouco pelo silêncio.
Excluo obviamente das minhas considerações quem pegou no seu táxi e se manifestou nos limites da legalidade. Excluo obviamente das minhas considerações os motoristas da uber que andaram na rua, a pé, apenas para provocar. Nada tenho contra o táxi, nada tenho a favor da Uber. Não em termos de Princípios. Mesmo porque há lugar para todos. Ou havia, antes de hoje.
Esta coisa do “taxismo”, assim exercida, não é ideologia… é crime público.

taxismo & trumpismo

trump-taxiDeu-me uma súbita vontade de ir até Lisboa, só para poder não andar de táxi e chamar um carro da Uber. Que vergonha. Cambada de energúmenos, que nem para eles são. Acabaram de explicar quais as mais-valias de uma plataforma como a Uber (excelente publicidade).
Vivi seis anos em Lisboa, com fim há vinte anos. O modo de estar e de agir não mudou em nada. Depois de hoje, não faltam ao Governo argumentos para regulamentar a Uber e outras plataformas similares. Regulamentar, legitimar e proteger; atribuir direitos e deveres (e, depois de hoje, as faixas bus abertas).
E são tão grandes, os do taxismo, na estupidez e arrogância que reclamam aumento de bandeirada para € 6,00, em épocas festivas. No lugar do Costa punha a coisa a € 60,00.
Aproveitem e elejam o trump como vosso representante, que tendes muito em comum. O taxismo pouco difere do trumpismo, na forma e na substância. Nenhum deixa espaço para o diálogo, como — ó suprema ironia — se viu no mesmo dia. Ambos oferecem porrada aos concorrentes. E imagino que aos clientes dos concorrentes. 
O taxismo (que hoje ouvi oferecer porrada a quem se lhes atravesse no caminho) e o trumpismo padecem, na essência, do mesmo mal. Falta de higiene. A todos os níveis, a começar pelo mental.
Metáforas à parte, quem raio se julgam estes gajos? Se tinha dúvidas, hoje fiquei esclarecido.