GRAB US BY THE PUSSY, do trumpismo e de como temos de o levar a sério

deficiente

Após ver a primeira conferência de imprensa do “press secretary” (sean spicer) do trump, fico com uma certeza. O tipo é bem melhor do que qualquer jornalista ali presente. Vendeu uma aparência de normalidade que não podemos comprar (mas a que hoje, in loco, ninguém resistiu – só faltaram as vénias).

O cargo de correspondente na casa branca tem sido, ultimamente (já bem antes de Obama), entregue a jornalistas-relatadores. Porque não passava nada e todos riam. O trabalho sério (houve algum) fazia-se fora da casa branca. É urgente mudar. Ser correspondente na casa branca tem de passar a ser uma espécie de topo de carreira, onde se sentam os melhores. Para que o sean spicer tenha perguntas (e respostas) à altura. Há que afastar aqueles risos de reacção às piadas dele. Hoje foi uma estupidez de educação, de não vamos incomodar o gajo, como se estivessem a lidar com gente normal.

Há que entender a estratégia da pós-verdade trumpiana. Um exemplo. Correu que os jornalistas seriam afastados da casa branca. Ontem, o vp spence sem grandes ondas (apenas enfatizando as palavras) deu as boas-vindas aos jornalistas na casa branca [coloca a correr o boato, depois desmente-o, darás a ideia de uma cedência e terás aplausos]

Estamos em 2017 e esta roda já há muito foi inventada.

Urge lutar contra esta aparência de normalidade, como se se tratasse apenas de mais um presidente. A equipa mediática do trump não é o trump. E, lamento informar, é muito boa, no que toca a branquear… o que houver para branquear.

Os media têm, insisto, de começar por colocar naquela sala os Woodward e Bernstein possíveis. É que há aqui uma diferença, em relação a Watergate. Não basta o jornalismo de investigação. Os correspondentes na casa branca têm de ser, como dizer?… jornalistas. O sean spicer hoje não foi levado em ombros porque não calhou. Os homens do trump não são o trump. E vendem normalidade.

Há que ir preparado para estas conferências de imprensa. Estar preparado implica antever todas as perguntas e responder, perguntando à altura. Estar preparado para ser expulso. E essa será também a notícia (e não falo de fazer caretas). Tal como o ssob (doble-son-of-a-bitch; que ao contrário dá boss) decidirá, quando vir o spicer ser encurralado; trump será sempre trump. E esse é o nosso trunfo.

A administração trump não pode ser tratada como se nada fosse, como uma mera mudança de presidente.Temos de levar isto a sério, mesmo. Eles chegaram onde chegaram porque até ao “inauguration day” os levamos a brincar. Para quem não saiba, e por certo não recolherá tal informação nos jornais tuga, trump deu as boas-vindas ao staff presidencial falando em algo como “os próximos oito anos”. Este é o ponto fraco de trump. Grab us by the pussy.

Em suma, qualquer aparência de normalidade tem de ser rapidamente afastada. E todos sabemos que o ser humano tem essa insalubre tendência de se moldar à máquina.

O trump é um buraco negro, que ganhou as eleições a chupar “pecados”. Deu-se uma espécie de identificação. Este gajo é como eu, racista, xenófobo, misógino, um verdadeiro filho-da-puta. Como eu. Vou votar nele, que é tal como eu. E voto em mim. E assim me legitimo. E assim me confesso! Eu sou igual a vós, rednecks; disse trump. E rico, coisa que está ao vosso alcance.

“Grab ‘em by the pussy”. Mas não foram apenas os brancos sulistas conservadores a votar nele.

Foi essa mensagem. E é essa a realidade. Não chega uma manifestação no day-after. Terão de ser presentes. Constantes. Em todas as formas e feitios. Nos pormenores e nas abundâncias.

Sabemos o que é trump. O da imagem acima, que goza com o Serge Kovaleski, jornalista do New York Times. O que temos de saber é que quem o rodeia não grita que gosta de as apanhar pela vagina (confesso que nem conhecia o conceito). Não o irá dizer, por mais que o faça. E nem o spicer nem ninguem desta infame administração falará ou “imitará” de novo em Kovaleski.

trump não é normal, nada disto é normal, não podemos deixar que nada disto aparente ser normal. Ou atinamos ou isto senta-se no sofá de nossa casa. E explodimos juntos.

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É A HISTÓRIA, ESTÚPIDO; trump, a extrema-direita e Fukuyama

donald-trump-melania-trump-lincoln-memorial-inaugural-concert-jan-19-2017-getty-420x315Estamos em Outubro de 90.

O muro de Berlim caiu há um ano e Fukuyama decretou “o fim da história”.

Esquecendo-se da História, de seus caminhos e atalhos e, acima de tudo de que o homem nunca cessará de ser o seu lobo, Fukuyama, num artigo não tão definitivo como alguns o interpretaram (sempre me soou a uma espécie de connundrum propositado), anuncia uma espécie de statu quo definitivo para a humanidade. Basicamente, a roda histórica tinha terminado de rolar. Havíamos chegado a uma espécie de ejaculação democrática sem orgasmo. Depois, lança um último parágrafo que aparece como um paradoxo, tendo em conta o resto do artigo. Li-o centenas de vezes. Depois cansei-me e acabei por o classificar (ao autor) como um mero idiota.

The end of history will be a very sad time. The struggle for recognition, the willingness to risk one’s life for a purely abstract goal, the worldwide ideological struggle that called forth daring, courage, imagination, and idealism, will be replaced by economic calculation, the endless solving of technical problems, environmental concerns, and the satisfaction of sophisticated consumer demands. In the post historical period there will be neither art nor philosophy, just the perpetual care taking of he museum of human history. I can feel in myself, and see in others around me, a powerful nostalgia for the time when history existed. Such nostalgia, in fact, will continue to fuel competition and conflict even in the post historical world for some time to come. Even though I recognize its inevitability, I have the most ambivalent feelings for the civilization that has been created in Europe since 1945, with its north Atlantic and Asian offshoots. Perhaps this very prospect of centuries of boredom at the end of history will serve to get history started once again.

Estamos em Outubro de 90, dizia arriba. Eu entrava para a Faculdade de Direito de Lisboa e daí em diante fui vivendo a minha história tal como a havia desenhado, em parte, e tal como ela me desenhou a mim, na parte de leão. A História tem estas manias. Não se acanha. Não termina.

Portugal já estava na CEE há uns anitos e era o tempo em que “chovia dinheiro”, que o então PM cavaco, não sei se para confirmar ou desmentir Fukuyama, insistia em transformar em betão. Tractores viravam jipes. Cultivava-se e destruía-se, a soldo dos fundos comunitários e consoante a musiquita. Era um fartar vilanagem, e o árbitro era de Boliqueime, nos arrabaldes de Berlim. E eis 1992 e Fukuyama a transformar o artigo num livro, a cujo título acrescentou “…e o último homem”. E Isto daria uma conversa farta, que não cabe aqui.

E eu lá ia construindo o futuro, sem grandes dilemas. Sem grandes dificuldades, também. Bastava-me trabalhar e não pedir favores. Cheguei à Advocacia e, mais tarde, já após o virar do século, à Universidade da Beira Interior. Sempre interrogando mais do que exclamando. Reconheço daqui que a minha acção política andava ali, ao virar do século, pelo menos que zero.

Um dia acordei e decretei o inicio da História. Tudo cheirava a podre, naquela história aparentemente estagnada. A factura tinha de chegar. Melhor, a factura já começava a chegar. Melhor ainda, a factura nunca havia cessado de chegar.

E o homem nunca havia vestido as vestes de mero conservador do seu próprio museu, ao contrário do mundo insosso que Fukuyama havia previsto. A Democracia mostrava cada vez mais as suas fracturas, por onde entravam bichos que já começavam a fazer peito. E nem de longe nem de perto o western way of life se havia globalizado. Adiante.

Hoje é “o futuro”. Amanhã, a antítese do ideal democrático (não o de Fukuyama) chega ao poder e trump será presidente do “país-norma”, entre suspeições de ser uma espécie de Manchurian Candidate alimentado por putin (é-me indiferente). O que é óbvio é que assim que o baby-man tiver poder efectivo, com todas as suas birras e complexos de inferioridade, o mundo muda em menos de um twitt.

Depois de amanhã, começa manifestação de poder da extrema-direita. Em Koblenz, na Alemanha, le pen (França), hofer (Áustria), salvini (Itália), petry (Alemanha), wilders (Holanda) encabeçarão uma cimeira de fascistas que contará com cerca de mil representantes, vindos de todo o mundo. Os ideais são os que se sabem: racismo, xenofobia, misoginia, nacionalismos extremados, apartheids de todo o género. Um mundo cheio de muros, portanto (tema por onde não me alongarei aqui).

Amanhã será o inicio meramente simbólico de algo que já é real. E o “ideal” prognosticado por Fukuyama (já distópico que baste) leva com uma injecção de todos os romances distópicos e mais um; hoje e agora. A História nunca acabará, ainda que o mundo esteja reduzido a dois seres humanos sempre haverá motivos; por baixo da gravata cultural somos animais e aquela banana é minha.

Amanhã é o fim oficial de 1789 e 1989. Sempre provisório, este fim, que entre a tomada da Bastilha e a queda do muro do Berlim mediaram exactamente dois séculos. E tanta historia rolou. E tanta história “acabou”. E tanta História se fará – assim haja quem lute por ela (os fachos estão a fazer a parte deles).

A história, insisto, não acabou e não acabará nunca. A morte das ideologias foi obviamente uma declaração exagerada, um pouco como a de Mark Twain. Um obituário prematuro, basta atentar neste hoje, com trumps no poder. Não que trump seja um ideólogo, o homem apenas grunhe o grunhir de metade dos eua, como uma espécie de buraco negro. Mas enquanto a Democracia descansava, a extrema direita europeia cavalgava uma ideologia.

E onde quero eu chegar? Na verdade, nem eu sei. Não ouso prever o futuro, limito-me a lutar contra este futuro-presente a que, por indolência, nos entregámos. E não sou inocente, que também eu me entreguei durante demasiados anos ao sofá. Na verdade, ninguém o é.

Podia continuar e continuar. Dizer que vem aí mais do mesmo. A cimeira dos fachos, de que falei acima, não será relatada senão por fachos (o Spiegel, por exemplo, não terá lá lugar). trump já acabou com os jornalistas na Casa Branca. Bias, they say. E habituem-se a um nome. Breitbart (será o jornal oficial do trumpismo e começa a ganhar raízes pela Europa). Há aqui uma suprema ironia, no que toca aos media – instrumento predilecto da sua negação –, que também o jornalismo “acabou” – com valorosas excepções, houve fake news para todo o lado (mas isso fica para um texto “dedicado”). E amanhã haverá mais, basta comprar qualquer jornal.

Antes de terminar este texto, que não farei por estruturar, faço uma espécie de “e se?”. Se o Joe Biden se tivesse candidatado, se a Hillary não tivesse manipulado as primárias democratas e o Sanders tivesse vencido? Se o partido republicano não se tivesse entregue ao tea party? Diz que trump entra com 60% de desaprovação, Obama sai com 60% de aprovação. Que momento lindo, que vale a ponta de um corno. E se o meu carro tivesse duas rodas era uma bicicleta. Se as sondagens fossem sondagens seriam sondagens. Se o jornalismo fosse jornalismo seria jornalismo.

Sim, há culpados. Há que os apontar a dedo. E eu começo para virar o indicador para mim. Fiz pouco ou nada (enquanto persistirmos na ideia de que não mudamos o mundo, o mundo não muda). Mas há culpados bem maiores, que fizeram tudo. Adiante, por ora.

Aqueles fachos que acima nomeei ganharão eleições, assim como o inefável trump as ganhou. Eles ganharam e ganharão “pela via dos procedimentos democráticos”. E acabarão com a Democracia logo de seguida. Já vimos isto antes. Mas não vou descrer da única forma de sermos todos iguais, nem vou lutar por uma Democracia autoritária, sob pena de um paradoxo. Sob pena de entrar em negação.

A nossa Constituição, assim como a alemã são as mais rígidas, no que respeita a estes atropelos (não por mero acaso, basta atentar na história). A Democracia não deve nem tem de se exercer como uma utopia. Somos todos iguais dentro dela, mas nem por isso temos de permitir que entre nela quem se assume contra ela. E não acho que tenha entrado em negação.

Mas como pode um regime democrático lutar com a estupidificação dos povos que mamam reality shows e se intoxicam com a desinformação dos correios da manha dessa europa e desse mundo afora? Não sei dar uma resposta global. Sei que começa no berço (não o de ouro) e continua em casa. Censurar é caminho sem saída. E, mais uma vez, não acho que tenha entrado em negação.

Lamentavelmente vamos ter oportunidade de sentir na pele todo o avesso da liberdade. De voltar a experimentar toda essa “segurança”, que se resume a muros erguidos em redor de cada um.

Ou a velocidade dos tempos ditará uma espécie de distopia real e permanente, como a que se inaugura amanhã. E nunca mais saímos dela. Ou então, e isso depende de nós, ditará um querer-poder falar em Liberdade rápido-rápido. Porque, não se iludam, os próximos dois anos serão de obscurantismo. Ou os próximos duzentos.

Sou pessimista ou realista ou o optimista ou o copo tem apenas água, sem que interesse filosofar sobre se está meio-cheio ou meio vazio.

E cedo ou tarde a História dará a volta. Empurrada pelos homens e mulheres de bem. Contribuirei para que a velocidade de XXI dê para que as trevas que amanhã se inauguram depressa se entrevem. No entretanto, liberdades serão decapitadas. E um tostão é um tostão e diz’que cada homem tem o seu preço. Em breve, em meses, quem se entregou ao tacho perceberá.

A censura deixará de ser regrada, como era no “neo-liberalismo” que antecedeu e permitiu este amanhã que não canta (a aparência de liberdade dava jeito, funcionava tipo panela de pressão). Será sem peias, sem ponta de vergonha; e basta atentar na pós-verdade que trump personifica. Todos os avençados (quem assim se devote) serão incluídos nesta nova era, qual kapos. Em que se pode, no mesmo dia, defender “isto” e o seu contrário. E não passa nada.

Termino asinha. Imaginavam um trump eleito? Um presidente que comunica via twitter? Pois aí o temos. E, por vontade dele e dos fachos acima ditos, a Liberdade acaba amanhã. A História dos homens no Planeta garante-me que não exagero. Se com hitler tudo começou numa cervejaria, passe o exagero, com trump y sus muchachos tudo começou num quiosque de fast-food.

Estamos em Janeiro de 2017.

PS: voltarei ao facebook, por um misto de curiosidade e porque devo.

SOARES E BAUMAN, o meu discurso nos Jerónimos

Por mais irracional que seja, há uma espécie de esperança que surge num ano que nasce. Como se a natureza se adestrasse aos relógios dos homens. Como se o novo ano encerrasse o Inverno e fizesse despontar a Primavera.

2016 foi um ano demasiado dorido, de muitas perdas, a maior parte delas explicáveis pela natureza-necessária da mortalidade de dar lugar-espaço a outros. Mas algumas mortes foram cedo no relógio de 2016. Para além das “nascenças” (no sentido de tumor) que se estabeleceram para provar que a história do homem no Planeta insiste em se renovar, ao invés de ser lembrada para poder ser evitada.

Esta parte é em grande medida “graças” aos media e à estupidificação a que se avençam e a que votam e devotam quem os “olha”. Se desde cedo te habituares a comer merda é normal que a merda te saiba bem. Há aqui algo de contra-natura, que se a comida cheira bem é para a comermos, se a merda cheira mal é para a evitarmos. A natureza errou em nada. O homem insiste em enganar e enganar-se.

O “segredo” para que comamos merda com prazer é pôr-lhe um embrulho que caia bem aos sentidos. E aqui a culpa maior precede a dos media. Cabe às famílias que desde cedo depositam os seus pequenos príncipes em frente às televisões, sem curar do que comem. “Ali, ele cala-se”. E é nesse silêncio que ele come e “cresce”. Cala e come. Come e cala.

E chegou 2017 e com ele aquele destempero da crença de que talvez possa ser melhor. Como se bastasse mudar de ano para ser melhor. Quando na verdade, tudo se traduz em ser-se melhor. E se todos realmente nos deixássemos de ser lobos dos nossos iguais poderia ser assim, sim. Melhor. Mas o jogo vai demasiado adiantado. Mas ainda há tempo para não desistir.

Com os sentidos obliterados, a perdição daninha a que nos entregámos obriga-nos a colocar em campo aqueles que prometem muros que lutem uma luta da qual há muito desistimos. Interessa é que não nos aborreçam e nada como um muro erguido à volta de cada um para atingir esse objectivo. Com uma tv amuralhada, lá dentro, connosco. E um sofá.

“Pelo menos que aquela ceifeira pare por instantes, que todos os homens-bons são poucos para mudar, começar a revolver o que aí vem”. Pensei assim, ciente da morte iminente de um eminente, a de Mário Soares. Não me passou pela cabeça que Bauman também se fosse aos primeiros dias desta nova primavera, que já é inverno glaciar ao décimo dia.

E faltam dez para começar o verdadeiro fartar-vilanagem que todos merecemos. Porque mesmo quem fez tudo para evitar isto fez pouco. Aquele que começou lá atrás, no reino do capital, em que tudo se compra e em que tudo se vende. E nós de código de barras na testa. Preto, branco, amarelo, vermelho; cada cor com seu preço. Ascendência, sexo, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, situação económica, condição social, orientação sexual.  E a maquineta que somos passa pela testa dos outros. E no fim sai o preço. E em função do preço aparece a realidade, com mais muros e sem memória. Afasta-te, próximo!

Esta a minha singela homenagem a dois Homens, Mário Soares e Zygmunt Bauman. Morreram, diz a natureza. Estão vivos, que só a carne feneceu. Digo eu.

Sobre Mário Soares já tudo foi dito. O Miguel Esteves Cardoso escreveu a súmula que faço minha, com todo o respeito. Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo. Acrescento umas palavras.

Não é possível imaginar um singular ano dos últimos quarenta do século passado sem passar por Mário Soares. E mesmo já neste século, bulia e trabalhava por aquilo que poucos ousam. Porque parece mal apontar o dedo. “Não se aponta que é feio”. Eu aponto, que é bonito e útil. Lembro-me de como encheu a Aula Magna para dizer que não àquele bicho feio e entroikado que nos atormentava. E eu – porra, somos mesmo poucos e não aprendemos nada com ele; tem de ser ele a levantar-se mais uma vez. Claro que foi um sentir simplista. Claro que Mário Soares arrasta gente. E claro que Mário Soares é Mário Soares. O nome virou adjectivo.

Mário Soares percorreu todos aqueles caminhos e até na hora da morte consegue ser o que sempre foi. Entre a Marinha Grande e o Comboio da Liberdade.

Mário Soares esteve em cada dia antes de Abril e depois de Abril. Há tempos, ainda em 2016, li alguém que considerava que a passagem de ano seria mais completa se acompanhada pela morte de Mário Soares. Imaginei, na altura, o que diria Mário Soares daquilo. De alguma forma, Mário Soares é isto (leva com isto). Esteve em todas. “Errou na descolonização”. Sério? Errou exactamente como? Coloquem-se no tempo e imaginem que poderiam fazer melhor. Tenho imensa curiosidade em saber como fariam.  Escravizámos por cinco séculos aqueles povos e viemos com uma mão à frente e outra atrás? Queríamos o quê? Honras de Estados (os de lá e o de cá?). Pensão vitalícia? Perdemos tudo? Ou ainda fomos a tempo de trazer dois ou três escravos negros para fazer cá o trabalho que faziam lá? E até os pusemos mais tarde a descontar para a segurança social. Somos tão bons. E até os baptizámos, não fosse o demónio acolhê-los, quando a espinha vergasse de tantos trabalhos forçados a criar meninos.

Uma reforma para os pretos que escravizámos por séculos. A culpa desta ignomínia é, oiço dizer, de Mário Soares. Uma descolonização bem negociada logo após uma guerra, pois então. Isso é que era, com certidões do registo predial e comercial passadas em letra de lei. Que não passe pela cabeça de alguém que considero justo o processo de descolonização. Aquele “Queriam o quê?” lá acima não é de despeito. “É a História, estúpido”.

Tudo correu mal, menos a libertação dos Povos. Roça, sem desculpa à vista, a injustiça daquele rótulo de “retornado” com que foram “acolhidos” os que regressaram. E essa injustiça cabe aos brancos de cor, essa gente imaculada.

Nunca votei Soares. Mas com ele aprendi o que é a política, o que é ser político. Não aquele politiqueiro de corredor. Ser Político, fazer Política é a mais nobre das actividades. Ver além de um mandato em que se começa de imediato a trabalhar para ser reeleito no seguinte. Mário Soares é Política, porque Política é pensar além dos aplausos do mês seguinte. O Homem errou? Ui. Errou imenso. Visto daqui é fácil dizer como seria mais profícuo ter feito diferente. Acontece que foi ele que esteve lá – em todos aqueles momentos DATADOS – e foi ele que ousou.

E poderia falar de tanto mais, mas francamente falta-me a paciência. Quem apenas levanta o cu do sofá para se exercer em dias de unanimismos pseudo-revolucionários merece todo o meu nojo. Criticar é fácil, SER é que é do caralho. Uma palavrinha para o atentado social que representa o esquerdismo: bardamerda. Dói devermos-lhe não termos trocado um totalitarismo por outro? Cresçam, caramba. Estamos em 2017 e o muro caído em 1989 ergue-se agora em mil. Olhem daqui, com olhos de gente. E lembrem-se duma cena. Houvesse uma máquina do tempo e estivessem vocês lá (idos de agora para lá). Borravam-se todos. Não decidiam. É fácil falar. Estiveram lá? Lutaram e vénia. Sofá e nem por isso.

Mário Soares esteve em todos os cantos e recantos na nossa história recente. Acertou mais do que errou. Acima de tudo, acertou em estar lá. Em cada instante. E decidir, em cada momento. Fora a prisão, em que decidiram por ele, fora o exílio, em que decidiram por ele. Mas nunca vergou. Bem-haja, Mário Soares. Pela lição de vida que farei por perpetuar e levar adiante. És o Maior de nós.

Zygmunt Bauman morreu ontem, aos 91 anos. Conheci-o há um ano atrás. Apenas.

Ou tanto, que me obriguei a ler (quase) tudo dele em pouco tempo. Li, ouvi e se tenho um projecto de PhD a ele o devo. Releiam a frase traseira. Foi de propósito. Na verdade, se comecei a escrever sobre sociologia, em forma de quem quer saber mais e de quem quer ajudar mais (a ideia é esta), foi ele que me alavancou. Trouxe-me a sociologia, Bauman. Trouxe-me um olhar diferente sobre a modernidade. Não acho que tenha exagerado nada ao explicar a sua (agora nossa) modernidade líquida em todas as vertentes. Com ele passei a olhar diferente. E lia-o religiosamente na Social Europe (como se não me bastasse a bibliografia imensa, que ele insistia em alargar).

O último artigo de Bauman é de 16 Novembro de 2016 e guardei-o como uma pérola para olhar mais tarde (entretanto já o li). How Neoliberalism Prepared The Way For Donald Trump.

Sociologia alguma, ciência social alguma (e incluo o meu Direito) pode ignorar Bauman. Leio-o ciente de que nada que não se queira pano de chão pode ignorar Bauman.

Sei de uma pessoa (que muito considero) que ao ler isto pensará que eu tenho de ser mais objectivo neste meu encontro com a Sociologia. Que “esgotei” Bauman e que adiante. Tem razão na parte académica. Mas não renego nem escondo os meus vícios. Padeço de uma forma estranha de ser pele. E isso vai reflectir-se onde quer que escreva, para quem quer que escreva.

Quero sair diferente de cada texto que leio e de cada texto que escrevo. Arranjaremos (não é plural majestático) forma de encontrar um plural singular que absorva tudo isso. Tento e tentarei fotografar o mundo visto daqui. E dizer dele. Devo a Bauman parte “disto tudo”. Foi ele que me obrigou a voltar a Marx, e a relê-lo com outros olhos. Aos diversos Marx. E se sou marxista (não leninista), não digo qual deles sou. Não aqui nem agora, certo de que este “ser” tem mais a ver com a ciência de olhar o mundo do que com aqueloutra que Mário Soares praticava.

Dediquei estes últimos meses a ler tudo o que há sobre formas de totalitarismo. Sei que cada tempo deve ser olhado do tempo em que se olha, sem nunca esquecer o passado em que foi.

Soares e Bauman são, metaforicamente e não só, a minha síntese-alvo, à qual me acrescento eu. Não me peçam para ser igual ao que parece bem. Para ser delicodoce. Eu sou eu. Aprendi com ambos (e mais uma centena, mas estes com especial ênfase) a ser um individuo – e não falo aqui dos poucos amigos que mantenho, da família que me educou.

Bem-hajam, Soares e Bauman. Farei a minha parte, no que toca a que os vossos ensinamentos perdurem e, mais do que isso, a que sejam úteis.

2017 anuncia-se como o início datado da perda. Já foi assim demasiadas vezes e sempre demos a volta. Há que continuar, nestas trevas que se anunciam. Assim o Planeta nos dê tempo para que o possamos salvar. Nós somos o menos.