As medidas do referendo na Grécia

Sem Título

Olha, estes dois jovens desconhecidos [Paul Krugman e Joseph Stiglitz, vide infra o artigo do Público] são, tal como Tsipras e Varoufakis, uns extremistas inconsequentes, desconhecedores da verdadeira dimensão de tudo isto. Só um souvenir destes dias: Tsipras foi eleito para combater a “verdadeira dimensão de tudo isto”.

O programa de Governo do Syriza passa por derrubar o capitalismo selvagem, cego às pessoas; esse mesmo capitalismo que nos corroeu e destruiu o país, ao ponto de estarmos “bem de números” (estamos?) e mal de pessoas (as que sobraram, depois da sangria do mito urbano).

Portugal, o eterno bom aluno, não é a Grécia. Com isso concordo, mas acrescento um “infelizmente”. Agora vou ali banhar-me num cofre cheio de moeda fresca, que hoje esteve um dia gélido, com medidas de velocidade do vento inferiores a vinte e três quilos de sabores na escala lehman brothers. A frase que antecede, intrinsecamente desconexa, foi inspirada na lavagem que nos andam a dar a mamar há quatro anos. E que nós mamamos, de biberão e sorriso em riste. Antes que me esqueça, “lavagem” as in “lavagem cerebral” mas também “comida para porcos”.

Voltando à Grécia, neste momento o “sim” a mais do mesmo lidera as sondagens. Não é fácil votar “não” em pleno corralito hetero-induzido (ainda que o que ora se está a passar nada tenha a ver com o corralito argentino). Não sei até que ponto Tsipras carece de uma vitória do “não” para dizer não aos credores. O Syriza ganhou as eleições com 38%. Um valor semelhante, em referendo, levanta uma questão curiosa e não despicienda. A da legitimidade.

Com 38%, Tsipras tem ou não “legitimidade” para ir abanar o rabinho aos credores? Não que ele algum dia o faça, mas fica a questão a que Tsipras saberá responder. E, estou certo, responderá, com a mestria de sempre. Essa é, pois, a primeira fasquia – 38%. Tudo o que vá além disso é lucro e dará a Tsipras uma capacidade negocial extra. E uma vitória do “sim” não equivale a uma abertura cega aos desejos canibais dos credores, encabeçados pela não-eleita (pelo povo) Lagarde (que se encontra em campanha para renovação do mandato). Relembro que o acordo esteve quase a ser alcançado antes do fmi ter decidido botar palavra.

De resto, há que não esquecer o que os media ocidentais zelosamente esconderam. A Rússia convidou a Grécia para os BRICS. Para quem era um dos PIIGS, não está mal, não.

Há varias coisas deliciosamente certas. A Grécia pôs a Europa a dançar o Sirtaki. O dia D também ainda não é Domingo. E a procissão continua no adro. Estou seguro de que Tsipras continuará a exercer Democracia. A pergunta em referendo não é: “devemos ou não abrir as pernas aos credores?”. O resultado do referendo tem várias medidas, e Tsipras saberá lê-las. E cumpri-las. É o único eleito mandatado para isso. 
Aguardemos.

Os economistas Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ambos distinguidos com o prémio Nobel, defenderam nesta segunda-feira que os gregos devem votar “Não” no referendo, considerando que, sem mais medidas de austeridade, podem ter esperança no futuro.

No artigo de opinião de hoje no The New York Times, Paul Krugman escreve que “a Grécia deve votar ‘Não’ e o Governo grego deve estar preparado, se necessário, para sair do euro”, argumentando que é verdade que o executivo grego “estava a gastar acima das suas possibilidades no final dos anos 2000” mas que, “desde então, cortou repetidamente a despesa e aumentou impostos”.

“O emprego público caiu mais de 25% e as pensões (que eram de facto demasiado generosas) têm sido cortadas abruptamente. Se a isto se somarem todas as medidas de austeridade, fizeram mais do que o suficiente para eliminar o défice e passarem a ter um amplo excedente”, nota Krugman.

A explicação para que a correcção não se tenha verificado na Grécia é que “a economia grega colapsou, muito devido às muitas medidas de austeridade, que afundaram as receitas” do Estado, defende o economista norte-americano, acrescentando que este colapso “esteve muito ligado ao euro, que amarrou a Grécia num colete-de-forças económico”.

Krugman aponta três razões para que os gregos votem “Não” no referendo: “Após cinco anos [de duras medidas de austeridade], a Grécia está pior do que nunca”, “o tão temido caos gerado por um ‘Grexit’ [saída da Grécia da zona euro] já aconteceu”, ou seja, os bancos estão fechados e foram impostos controlos de capital e, finalmente, “ceder ao ultimato da troika iria representar o abandono final de qualquer pretensão de independência grega”.

O Nobel da Economia de 2008 deixa mesmo um apelo aos gregos: “Não se deixem levar pelos que dizem que os oficiais da troika são apenas tecnocratas a explicar aos gregos ignorantes o que tem de ser feito. Estes pretensos tecnocratas são, de facto, fantasistas, que desconsideraram tudo o que sabemos sobre macroeconomia e estiveram sempre errados. Isto não é sobre análise, é sobre poder — o poder dos credores para dispararem sobre a economia grega, que vai persistir enquanto a saída do euro for considerada impensável”.

Para Krugman, “é tempo de pôr fim” a esta visão de que sair do euro é impensável ou então “a Grécia vai confrontar-se com uma austeridade interminável e com uma depressão sem solução e sem fim”.

Também Joseph Stiglitz, que foi distinguido com o Prémio Nobel da Economia em 2001, assina hoje um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian, intitulado Como eu votaria no referendo grego.

Stiglitz reconhece que “nenhuma alternativa, aprovação ou rejeição dos termos da troika, vai ser fácil e ambas implicam riscos” e sublinha que, se ganhar o “Sim”, isso vai significar “uma depressão quase sem fim”.

“Talvez um país empobrecido — que vendeu todos os seus activos e cujos jovens brilhantes emigraram — possa finalmente conseguir um perdão da dívida. Talvez transformando-se numa economia de rendimentos médios, a Grécia possa finalmente aceder à assistência do Banco Mundial. Tudo isto pode acontecer, na próxima década ou talvez na década a seguir a essa”, resume o economista ao retratar o futuro da Grécia, caso os gregos aceitem as condições que os credores internacionais estão a pedir.

Já num cenário em que os gregos votam “Não” no referendo de 5 de Julho, Stiglitz considera que isso, “pelo menos, ia abrir a possibilidade de a Grécia, com a sua forte tradição democrática, ter a oportunidade de decidir o seu destino por si”.

“Os gregos podem ganhar a oportunidade de desenhar um futuro que, ainda que não seja tão próspero como no passado é, de longe, mais esperançoso do que a tortura sem consciência do presente”, reitera o economista.

A crise que opõe o Governo grego aos credores internacionais — Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu — assumiu um rumo inédito depois de o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ter anunciado, na sexta-feira à noite, a convocação de um referendo sobre o programa apresentado pelos credores para desbloquear a ajuda financeira ao país. No sábado, o Eurogrupo recusou-se a prolongar o programa de assistência financeira à Grécia, que termina nesta terça-feira, dia 30.

A Grécia, que enfrenta problemas de liquidez, arrisca-se a entrar em incumprimento, tendo de pagar até terça-feira à noite mais de 1,5 mil milhões de euros ao FMI.

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Russia Opens Door To Greece As Sixth Member Of New BRICS World Bank: Russian Oil Makes Athens Europe’s Energy Hub!

Abandonar os PIGS e ser o sexto dos BRICS? Parece-me uma saída bastante interessante, que os media ocidentais zelosamente esconderam.

Political Vel Craft

Alexis Tsipras and Vladimir Putin produce no major announcements or finance initiatives for Athens Alexis Tsipras Rime Minister Of Greece and Vladimir Putin President Of Federated Russia struck potential deals over investment in energy and other projects.

Greek Prime Minister Alexis Tsipras on Monday held a telephone conversation with Russian Deputy Finance Minister Sergei Storchak. During the conversation, Storchak invited Greece to become the sixth member of the New Development Bank of BRICS countries, Greece’s Syriza party reported on its website. Storchak is a representative of the BRICS Bank which is now being established.

The newly appointed chief of the bank is Kundapur Vaman Kamath, the former Non-Executive Chairman of ICIC Bank, India’s second largest bank.

“The Prime Minister thanked Storchak and said he was pleasantly surprised by the invitation for Greece to be the sixth member of the BRICS Development Bank. Tsipras said Greece is interested in the offer, and promised to thoroughly examine it. He will have a chance to discuss the invitation with…

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Roxane Gay’s Bad Feminist Is a “Manual on How to Be a Human”

TIME

Roxane Gay is the gift that keeps on giving. The author released her riveting first novel, An Untamed State, back in May, and she already has a new book out: an entertaining and thought-provoking essay collection called Bad Feminist. In it, she covers of range topics from pop culture to politics, from Fifty Shades of Grey and Sweet Valley High to Wendy Davis’ filibuster and the deaths of Trayvon Martin and Oscar Grant.

Bad Feminist, she explains, is about reconciling contradictions — how to ask tough questions about the world and feminism while still “admitting to our humanity and enjoying sometimes inappropriate things.” Gay talked to TIME about Beyoncé, how to define feminism and writing about trauma on the Internet.

TIME: You wrote these essays between 2010 and 2013, but some of them feel especially of the moment — I was reading your essay about privilege while…

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Hoje, vi-me grego, graças a Zeus: ad perpetuam rei memoriam

Hoje, vi-me grego, graças a Zeus. Aqui fica o resultado, para os efeitos do título. Dez posts no facebook (rcp, ouvir & falar, pegada). Dez pontos aqui.

1. Acabou este meu embargo de anos ao Pacheco Pereira. Brilhante artigo, no Público. Com a cereja no topo do bolo que é responder, de forma genial e lúcida, ao artigo de ontem do vasquito. Além de relembrar que, para permitir a entrada no euro, as contas gregas foram marteladas por mais do que mãos gregas. A LER. A Europa que nos envergonha.

2. An End to the Blackmail | O discurso completo de Tsipras, de convocação do referendo

“(…) Fellow Greeks, to the blackmailing of the ultimatum that asks us to accept a severe and degrading austerity without end and without any prospect for a social and economic recovery, I ask you to respond in a sovereign and proud way, as the history of the Greek people commands.
To authoritarianism and harsh austerity, we will respond with democracy, calmly and decisively.
Greece, the birthplace of democracy will send a resounding democratic response to Europe and the world.
I am personally committed to respect the outcome of your democratic choice, whatever that is. And I’m absolutely confident that your choice will honor the history of our country and send a message of dignity to the world. (…)”

A propósito, o ministro da economia espanhol chamou ao referendo, à devolução da palavra ao Povo, “rutura unilateral das negociações” que deixa a zona euro mais perto do “plano b”.” Trastes; já se tinham esquecido o que era a Democracia, ao ponto de já não conseguirem lidar com ela.

 3. Se o “sim” ganhar, temo que os neo-nazis vençam as eleições que se seguirão ainda no mês de Julho Por paradoxal que pareça. Aliás, o Varoufakis alertou para isso na última entrevista que deu. E este referendo tem tudo para correr mal. Os media vão atacar em força. E por mais que os gregos queiram resistir, não sei se aguentarão as milhares de notícias com ameaças deste inferno e do outro. Ou o Tsipras tira um enorme e suculento coelho da cartola (imagino que lhe passe pela cabeça um Putin em Atenas; o que não acho profícuo), ou está tudo… pardon my french. Mas não havia saída que não passasse pelo referendo. Os europorras é que julgaram mal o Tsipras. Julgavam-no um “democrata” como eles. Enganaram-se. O Homem leva a Democracia à letra. E tem uns tomates maiores que a distância entre o Atlântico e os Urais.

4. Referendum is not the right decision. It’s the left decison. Oh yeah!

5. O KKE (PC grego) apela à abstenção no referendo de 5 de Julho. Puta que os pariu. Como é possível? Nem nisto, pá? Nem agora? Não são gregos, resumem-se a comunistas. Ainda há dias malhavam no syriza, a que chamam /partido de “esquerda”/, por ceder aos credores. A Democracia também os apanhou de surpresa. Mas o que realmente me espanta é eu ainda esperar alguma coisa desta canalha umbiguista e autofágica. Mea culpa!

6. Hoje li cerca de um milhão e doze comentários, espalhados pelas redes sociais e pelas caixas de lixo dos jornais online, que acusam o Syriza do 13.º trabalho de Hércules. Parece que foi o Governo eleito em Janeiro que conduziu a Grécia ao estado de sitio em que a colocaram. É obra. E vai ser assim, preparem-se. Uma semana de violenta intoxicação. No que me toca, cá continuarei a inventar dias com 36 horas. Semana durinha em perspectiva.

7. THE CONSTITUTION OF GREECE [Sýntagma, Σύνταγμα]

Article 1
1. The form of government of Greece is that of a parliamentary republic.
2. Popular sovereignty is the foundation of government.
3. All powers derive from the People and exist for the People and the Nation; they shall be exercised as specified by the Constitution.

8. Uma das questões do dia, que a direita grega se apressou a levantar, foi a da inconstitucionalidade do referendo. E lá me pus a ler a Constituição Grega. A invocação de inconstitucionalidade assenta no princípio de não ser possível referendar questões financeiras.
Não foi necessário ir muito fundo na análise, uma vez que me deparei com um Princípio maior que invalida os patéticos obstáculos neo-liberais.
O n.º 2 do artigo 44.º da Constituição é claro que chegue: “The President of the Republic shall by decree proclaim a referendum on crucial national matters following a resolution voted by an absolute majority of the total number of Members of Parliament, taken upon proposal of the Cabinet”.
Em suma, seguidos estes passos, que são pim-pam-pum, tenho por evidente que não há inconstitucionalidade alguma. A questão a referendar é obviamente crucial para a Grécia e pode e deve ser sujeita a referendo. Se por acaso roça questões financeiras é completamente indiferente.
Aliás, não há, hoje por hoje, questão que seja crucial para a Grécia e que, por extensão, não assente em matéria financeiras.
Os avençados gregos, tal como os eurogrupoides, estão em pleno orgasmo interrompido. Diz que dói.

9. No fim desta semana, se não me considerarem cidadão grego honorário, mudo-me para o eurobruto.

10. E por hoje chega. A despropósito, que nem aparecem na imagem, já reparam no ar draculiano dos caninos do vlad Tsipras?

tsipras vlad

Não fui escrito por Cervantes

mafalda

Hoje, as manchetes vomitavam. Vivemos num país onde aquela figurinha é o braço direito daqueloutra figurinha. E dou por mim a dar por mim. A dar por mim no meio disto. E a pensar que já não me aborrece peva aqueles tipos que dizem “eu sempre votei isto” ou “eu sou disto”.

Especialistas em bola, assim cultivados; é natural que pontapeiem a urna; que olhem os partidos como clubes de baliza aberta. Que votem naquele canalha porque aquele canalha vos oferece emprego ao cão e ao periquito. Afinal, há é que encher a barriguinha do dia, mesmo que isso implique dar o cu e cinco tostões. E a seguir muda-se de cartão. Concedo que, aí, a bola leva melhor.

Mas já não me aborrece. Já não ligo. Não há ligação possível. Eu estou errado. Vós, cinza-dor, sois a razão. O passado, o presente e o futuro. E o velho do restelo ganhou a contenda. As caravelas não partirão. Partir-se-ão. No cais.

E tu cais, e levas contigo o país.

Aborrece-me um pouco – só um pouco — que façam da urna de voto o nosso caixão. Não me incomoda este vosso suicídio colectivo. Incomoda-me é que me matem. Chateia-me, pá. Ser morto, a cada eleição, pela vossa ausência, ou não presença, ou simples presença do vosso umbigo…

Chateia-me, porra! Chateia-me de morte. Não gosto de morrer.

Quando morrer que seja de morte matada, sim. Na luta, de olhos meus nos olhos do meu matador. Mas não me sujeito mais a esse vosso cianeto sufragista. Não serei um dano colateral da vossa ignomínia.

Honrarei Abril até ao fim, mas cravarei na flor os espinhos que lhe faltaram.

Povinho de merda. Quem sou eu para lutar contra as vossas barrigas encostadas ao balcão? Quem me manda perder tempo com tão triste gente? Mesquinhos, medíocres, egoístas, chupistas, tachistas.

Aqui me demito.

Preocupam-me bem mais aqueles que se preocupam, aqueles que não se agacham. Não me demito de mim nem dos meus. Fosse eu Noé e levava-os todos para a Grécia.

E a vós, tristeza, para as desertas. Tirava é de lá as Cagarras, que não têm culpa desse vosso cavaco.

Não há emenda para este erro de casting feito país. Ide ler Eça, Ramalho, Antero. Ide ler Unamuno. Ide, cambada de dâmasos. Estais lá todos. Mil anos mais velhos. Mas iguais. Mil anos mais novos, mas iguais.

Ide ler… Paródia. Já era bom que lessem.

O meu país não é a terra onde nasci. Serei Grego, serei Basco, serei Catalão; Castelhano, até. Irlandês me confesso. Sou onde estão os meus iguais. Sou tudo menos isto.

E, acima de tudo, sou Pai. Assim me rejo. Assim agirei. Não sou é isto. Não posso ser isto. Por uma questão de dignidade e de coerência. Porque o caminho não se faz de joelhos.

Sois um vómito. E mereceis cada ignomínia que vos calha na sorte. Mas eu não pagarei mais a vossa rifa.

Não fui escrito por Cervantes.

A noite não caiu

Este artigo, publicado no Público, levanta uma série de questões. E, reich após reich, patada após patada, dou por certo o quão errada foi a mudança de orientação das potências aliadas. A cada crime cabe a pena justa. Nem sempre. Os alemães foram tratados como meninos traquinas. Tão só. E ainda tiveram direito ao rabinho lavado com água de rosas. Nuremberga foi um largar de bodes expiatórios. E “Ich bin ein Berliner” a porra. Não está o povo Grego a sofrer pelos erros de quem os comandou?; o que inclui as piratarias dos microfones alemães implantados em plena Ágora? Já com os boches, como sempre, no pasa nada.

Não subscrevo todo o artigo; desde logo não foi Hanna Arendt a primeira (nem de longe) a ter compreendido que “a aparentemente mais banal pessoa pode cometer as maiores barbaridades”. Mas adiante. Pois poderá, sim. A mais banal das pessoas. Sucede que o iii reich ultrapassou tudo isso. Não haveria hitler sem aquele povo. Aquele povo. Aquele mesmo povo que trinta anos antes tinha ousado algo semelhante (mutatis mutandis). Não haveria II Grande Guerra sem I Grande Guerra. E não haveria isto a que, medindo as palavras, chamo de iv reich, se houvesse mais memória, menos perdão, menos saliva. O artigo a que me refiro segue de seguida. Foi escrito por Fernando d’Oliveira Neves e chama-se “A noite caiu”. No que nos toca, a noite não caiu sobre quem devia.

Vi há dias A Noite Cairá, um documentário que recupera imagens de um filme feito, logo a seguir à guerra, por Sidney Bernstein e editado por Alfred Hitchcock, com as primeiras imagens obtidas pelos operadores do Exército inglês quando da libertação dos primeiros campos de concentração nazis. O filme visava confrontar os alemães com o insuportável horror dessas desumanas imagens. Entretanto, as potências aliadas mudaram de orientação. Preferiram recuperar um clima de confiança para reconstrução do pós-guerra, pelo que o filme nunca foi mostrado e aquelas imagens foram relegadas aos arquivos, só agora sendo reveladas ao público. Ultrapassam tudo o que tinha visto sobre a crueldade humana.

Não há modo de descrever o horror das imagens que o filme mostra. Nem é possível adjectivar o choque e repugnância que causam. Os próprios sobreviventes da libertação dos campos que são entrevistados no documentário não conseguem conter a emoção que ainda hoje, justificadamente, lhes causa a desgraça com que se depararam.

Vi o filme num silêncio mudo e gélido. A capacidade de impiedade humana vai muito além do que queria pensar, além de tudo o que pudesse imaginar. Holocausto é realmente a palavra adequada para descrever aquela repugnante chacina.

Diversas vezes ouvi, ou li, o comentário de que os campos nazis desumanizavam as vítimas. Quem sai desumanizado das imagens d’ A Noite Cairá são os algozes e as populações vizinhas aos campos, pela indiferença, se não conivência, com que aceitavam aquele hediondo crime e dele se aproveitavam, como ali se ilustra. As vítimas, pelo contrário, saem sacralizadas, como canonizados automaticamente, para usar uma imagem católica.

Que isto tinha sucedido pela mão de um dos povos que deu à civilização ocidental algumas das mais sublimes obras do pensamento, da arte e da cultura é difícil de compreender e dá que pensar. Desde logo que o lobo não está nos outros, está em nós. Que, como Hanna Arendt compreendeu, a aparentemente mais banal pessoa pode cometer as maiores barbaridades.

O único modo de resgatar o intolerável sacrifício das vítimas é o de fazer prevalecer o humanismo sem discriminações étnicas ou religiosas que, sobretudo depois da Segunda Guerra, queremos como apanágio dos valores ocidentais.

Quando na própria Europa renascem os nacionalismos, a xenofobia, o racismo, o anti-semitismo e surgem discursos de alto para baixo para os “outros”, com a arrogância de se deter conjunturalmente a força e o poder, quando se manipula aquela inqualificável carnificina para promover políticas opostas a esses valores, seria oportuno que a visão daquelas imagens fosse mais difundida, desde logo junto dos responsáveis políticos.

Alguém disse que o problema do Holocausto é ter acontecido. Está aí. Como o Gulag, a Revolução Cultural, o Pol Pot, o Rwanda. Nada pode apagá-los. Não os podemos esquecer. De igual modo, devemos reconhecer a crueldade gratuita do Estado Islâmico, não como um resquício da Idade Média, antes como uma contemporaneidade gritante e inquietante.  

Vi há dias A Noite Cairá, um documentário que recupera imagens de um filme feito, logo a seguir à guerra, por Sidney Bernstein e editado por Alfred Hitchcock, com as primeiras imagens obtidas pelos operadores do Exército inglês quando da libertação dos primeiros campos de concentração nazis. O filme visava confrontar os alemães com o insuportável horror dessas desumanas imagens. Entretanto, as potências aliadas mudaram de orientação. Preferiram recuperar um clima de confiança para reconstrução do pós-guerra, pelo que o filme nunca foi mostrado e aquelas imagens foram relegadas aos arquivos, só agora sendo reveladas ao público. Ultrapassam tudo o que tinha visto sobre a crueldade humana.

Não há modo de descrever o horror das imagens que o filme mostra. Nem é possível adjectivar o choque e repugnância que causam. Os próprios sobreviventes da libertação dos campos que são entrevistados no documentário não conseguem conter a emoção que ainda hoje, justificadamente, lhes causa a desgraça com que se depararam.

Vi o filme num silêncio mudo e gélido. A capacidade de impiedade humana vai muito além do que queria pensar, além de tudo o que pudesse imaginar. Holocausto é realmente a palavra adequada para descrever aquela repugnante chacina.

Diversas vezes ouvi, ou li, o comentário de que os campos nazis desumanizavam as vítimas. Quem sai desumanizado das imagens d’ A Noite Cairá são os algozes e as populações vizinhas aos campos, pela indiferença, se não conivência, com que aceitavam aquele hediondo crime e dele se aproveitavam, como ali se ilustra. As vítimas, pelo contrário, saem sacralizadas, como canonizados automaticamente, para usar uma imagem católica.

Que isto tinha sucedido pela mão de um dos povos que deu à civilização ocidental algumas das mais sublimes obras do pensamento, da arte e da cultura é difícil de compreender e dá que pensar. Desde logo que o lobo não está nos outros, está em nós. Que, como Hanna Arendt compreendeu, a aparentemente mais banal pessoa pode cometer as maiores barbaridades.

O único modo de resgatar o intolerável sacrifício das vítimas é o de fazer prevalecer o humanismo sem discriminações étnicas ou religiosas que, sobretudo depois da Segunda Guerra, queremos como apanágio dos valores ocidentais.

Quando na própria Europa renascem os nacionalismos, a xenofobia, o racismo, o anti-semitismo e surgem discursos de alto para baixo para os “outros”, com a arrogância de se deter conjunturalmente a força e o poder, quando se manipula aquela inqualificável carnificina para promover políticas opostas a esses valores, seria oportuno que a visão daquelas imagens fosse mais difundida, desde logo junto dos responsáveis políticos.

Alguém disse que o problema do Holocausto é ter acontecido. Está aí. Como o Gulag, a Revolução Cultural, o Pol Pot, o Rwanda. Nada pode apagá-los. Não os podemos esquecer. De igual modo, devemos reconhecer a crueldade gratuita do Estado Islâmico, não como um resquício da Idade Média, antes como uma contemporaneidade gritante e inquietante.  

Greece’s Proposals to End the Crisis: My intervention at today’s Eurogroup

Yanis Varoufakis

The only antidote to propaganda and malicious ‘leaks’ is transparency. After so much disinformation on my presentation at the Eurogroup of the Greek government’s position, the only response is to post the precise words uttered within. Read them and judge for yourselves whether the Greek government’s proposals constitute a basis for agreement.

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