Miguel, uma flor lembrada

Miguel Portas 2

Miguel,

Chegou o dia 24, mais uma vez. O tal que precede os cravos do calendário; e mais uma vez lá estarei, na arruada pela Liberdade, misturado com alguns que lá vão, apenas, porque o calendário assim o dita – é-me tão difícil, sabes?; porque bem ou mal, faço por um Abril diário. Atenta-me o Abril calendário.

Sem nunca ter falado contigo, foi também contigo que aprendi a não ter medo. O resto, a forma como o faço, é da minha exclusiva responsabilidade. Não tenho a tua paz, não tenho o teu sorriso, não tenho aquela “magia” simples que só tu tinhas.

É-me sempre difícil (cada vez mais difícil) suportar este solitário 24/4. Solitário porque morreste, embora sempre presente. Mas é cada vez mais complicado fazer aquelas contas de te ler sem se te ler. Lembro-me de ir ver de ti, sobre cada assunto do dia. De como às vezes (poucas) discordava. De como quase sempre pensava essa coisa do “ele” (tu) também pensa assim. E seguia adiante, fazendo o que acreditava ser justo, independentemente do que pensasses sobre o tema em causa. Da forma como lidavas com ele.

Contigo, caro Miguel, aprendi algo de muito importante (mas não te uso como desculpa).

Que se lixe o medo. Quem somos nós para nos dar ao luxo de não dizer, de não agir por medo? O mundo não se resume aos cinco segundos de vida que temos. E os farsolas continuam a ir ao pote (palavras tuas, a propósito de um avençado que acabou mesmo por ser o que acreditavas que nunca seria). E ai de quem os aponte a dedo. No que me toca, seria absurdo não o fazer. Depois há a cena da forma, que também interessa. Nessa parte tenho jeito nenhum.

O mundo está cada vez pior.

E tu alertaste. Estiveste em cada sítio onde este mundo, cada vez mais insano, ergue agora muros. Como hoje relembra o teu amigo Pureza, tu e o teu mediterrâneo. Esse mediterrâneo-porta agora transformado em cemitério-muro.

Quando morreste, depois do choque e da dor do momento (falo da dor do momento; que passaram cinco anos e ela continua), pensei “a porra é que morreu”. E repara, Miguel, morreste na parte racional daquela cena de estar vivo. No mais (esse enorme “tudo”) estás cada vez mais vivo.

Há uns meses, em conversa sã com alguém que crê em Deus, mandaram-me com essa. “Quem és tu para te dizer increu, se ergues o Miguel a uma condição de quase deus?” E pensei, olha que porra de cena. Não olho para o Miguel como um deus. Apenas falo de um Homem. E depois pensei, mas que porra de contradição. Aquilo do “Apenas”. A forma como o olho é precisamente por Ser Humano. Ser Ser Humano. Se te olhasse como deus faria questão de não acreditar em ti. Olho-te como um Homem que faz falta. Muita falta.

E nunca troquei palavra contigo. Ficava sempre para o dia seguinte. Há muito tempo. Havia sempre muito tempo. A verdade é que por natureza não temos muito tempo, podemos levar com essa maleita cobarde que te levou. Ou com um camião. Sei lá se acabo este texto. Sei lá se o publico. Quem sou eu para falar de tempos. Errei nisso.

Hoje, não dou o amanhã por adquirido. Tenho de viver este hoje. Sem raiva, sem ódio. Com dúvidas. E também sem pressas, apesar de hoje, este segundo, poder ser o último. Ou precisamente por isso. Mas não deixando nunca de dizer o que penso. Porque amanhã pode não ser tempo.

Agora mesmo chegou o Francisco (meu filho), expliquei-lhe o que estava a fazer. Depois pediu-me ajuda nos tpc, uma interpretação de umas palavras de Ondjaki (verdade, já temos Ondjaki na “quarta classe”; nem tudo vai mal).  Chama-se “A flor esquecida”.

“Certo dia, ao andar pela rua / Uma menina reparou / Numa flor muito bonita / Vendo-a tão paradinha / Também a menina parou./ A flor espalmada no chão / ao ser assim olhada /mais engraçada ficou. (…)”

A pergunta era algo como: “o que sentiu a flor?”. Falei-lhe mais um pouco do que estava a escrever. O resto foi com ele.

E é isto Miguel. Obrigado.

Até amanhã.