trump, o placebo redentor

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Foi um dia a pensar em muros e suas variantes (por motivos que aqui não calha explicar). E inevitavelmente dou por mim a pensar como raio se debate com um… em 90 minutos. O muro da mentira, da xenofobia, do racismo, da intolerância, da misoginia, da inimputabilidade… Não conseguiria debater com o trump, pelo nojo que lhe tenho. Hillary, e não nutro simpatia por ela, terá de se preparar para defrontar um muro que representa tudo o que atrás disse, num tempo (como em nenhum outro) em que o povo vive de circo e se alimenta de promessas de muros que dão pão.

trump (e isto não é metáfora) mente uma em cada três vezes que abre a boca, as duas outras vezes estão reservadas para insultar e para se glorificar.

trump é um buraco negro que atrai iguais. E não nos enganemos. Muitos dos eleitores de trump olham aquele ser e vêem-se ao espelho. E a coisa funciona como uma espécie de placebo. “Se este tipo diz isto, se este tipo está na corrida presidencial, então eu não sou a besta que dizem”. trump é uma espécie de redenção para quem nele vota. Uma espécie de juiz que elogia o arguido que bate na mulher… e o absolve. Uma espécie de juiz que elogia o arguido que violou uma adolescente de mini-saia… e a vitima é presa.

trump é aquele “diabinho” no ombro que redime os pecados de quem é trump todos os dias. Como o próprio referiu, ainda nas primárias, “I could “shoot somebody and I wouldn’t lose voters”.

trump é a idade média que os eua não tiveram. trump representa o pior do ser humano. E estando o mundo como está, começo a temer. Dos eua espero nada. Se não for desta vez, doutra será. Está aberto o precedente. E, nos eua, até o Homer Simpson se arrisca a ser eleito. E isto não é uma metáfora.

2016, Setembro. A culpa morre solteira.

SENTIR no PIPAPAPIGRAFO e o sorriso do meu FILHO

Um dia encostei-me a uma parede e ali fiquei durante cerca de um minuto. Depois desencostei-me e nunca mais lá voltei. Já me havia encostado a outras paredes, mas aquela marcou-me particularmente. Assim que me desencostei, o prédio que assentava na parede caiu. E esta a razão de nunca mais me encostar a paredes. Esta história, tão verdadeira quanto a palavra cão morder, já terá umas décadas. Depois da experiência de um prédio a falecer, deixei de me encostar a paredes.

Na verdade, era um hábito estranho, esse. De me encostar a paredes. Cheguei a andar nos paredes anónimos (pa). Antes do prédio cair, entenda-se. Que quando o prédio caiu, dei os doze passos rapidinho. E nunca mais fui a reuniões dos pa, pá.

Na verdade, dei treze passos, não doze. Enquanto fugia da derrocada, entenda-se. Esse o meu erro (os treze passos). Ao décimo terceiro passo algo aconteceu. Na altura senti nada. E agora um aparte, se eu “não tivesse sentido nada”, entraria num irreversível paradoxo. Teria sentido algo; o tal “não-nada”. Eu senti efectivamente nada. E segui o meu caminho.

Lembro-me de me ter sentado, enquanto nada sentia. Doze passos de sentir aflito “ai que esta merda me cai em cima” e um passo de sentir “nada”. Vi o prédio cair e nem sequer me preocupei em saber se era habitado. Senti nada. No dia seguinte li no jornal sobre o sucedido. Era um prédio novo há dez anos. Sem habitantes, que tinha entrado em falência, muito antes do meu desencosto. E eu com isso. Voltei a sentir nada. Até lá vinha uma foto do prédio caído. E vi-me sentado num banco fronteiro a olhar, sem realizar. Senti… exacto. Nada.

Hoje, graças às agências de hiper-mega-super-vigilância e suas câmaras, sei [agora] o que se passou no resto da noite. O prédio que eu amparei e depois desamparei. E o que sucedeu.

Mas começo pelo… depois de me levantar. Do banco, caramba. Vocês têm de se manter atentos ou assim não há conversa. Depois de me levantar do banco, dizia, fui a um multibanco. E sentei-me em todos os bancos do multibanco. Há quem lhe chame jardim. Mas não senti o jardim. Se havia flores não as cheirei. Sentei-me naquela multitude de bancos. Fiz várias transferências de banco de jardim para banco de jardim e assim adiante. Sentei-me aqui e ali. Fiz um depósito no terceiro banco. Espirrei e deixei lá o lenço. Ainda hoje pago comissões desta minha aventura, que sai caro sentar e espirrar num banco.

Havia para aí uns treze bancos. Ou menos. Ou mais. Alguns tinham escrito “pintado de fresco”, outros falavam e ordenavam. “Dirija-se ao próximo banco”. Cheguei a sentar-me num banco no Panamá. Mas asinha me levantei, que aquilo tinha o tamanho de uma caixa de correio e chovia. Embora nada sentisse. Vejo pelas imagens que apenas me levantei porque estranhei os dizeres: “offshore”. E, sempre sentindo nada, levantei-me.

Fui a um bar. Pedi uma meia de leite e dois pacotes de não sei quê. Acima me esqueci: as imagens vinham com som, mas aqui/ali (talvez por falta de rede) só percebi a cena que pedi e depois bebi. “E dois pacotes de…”. Julgo que nunca saberei. Mas o certo é que verifico que o bar se esvaziou num instante.

E veio a polícia e mostrei-lhes a carta de peão (estava com a mão direita assente na chapa das tostas mistas). Fizeram-me continência e levaram-me ao hospital.

Episódio de urgência: «Cabeça feita num oito; queimaduras de vários graus em vários sítios, pele rasgada da cabeça aos pés. O paciente não sente.»

O paciente não sente. Agora, já de prédio reerguido [levou uma injecção de capital, daquelas a fundo perdido e sem imposto; tipo classe média pàf], penso nisto.  O paciente não sente. Mas qual paciente? E que isso do não sente? Se não sente, gritei para dentro, não sou paciente. Esta a modos que confuso e confundido.

Sucede que, tenho um amigo que analisa imagens e outro que sente muito. Agendei uma reunião.

Relatório do primeiro amigo: «Ao décimo terceiro passo caiu-te um tijolo na cabeça.  As pessoas fugiram do bar porque sangravas do cocuruto aos pés. E ainda por cima falaste com a polícia de mão na chapa quente. Foste hospitalizado por anos intercalados e não lambeste as feridas. Não reconheceste nenhuma das quatro visitas. Houve uma quinta, cuja presença te causou efeitos. Apareceste nos pasquins como “o homem que nada sente”. Tiveste sessenta e oito visitas de estudo de escolas de todo o país. Tu olhavas vazio, dizias nada. Eles picavam-te com agulhas. Marcavam-te com ferros. Tu nada dizias, e o hospital cobrava bilhetes. Chegaram a mostrar-te imagens dos infames reaccionários. E tu nada.»

Para que conste, segui este conselho e comecei a nadar. Mas, diz quem viu, chegava à parede da piscina e continuava a nadar. E há registos de ter começado a nadar em Castelo Branco (era uma prova de cem metros bruços) e ter acabado – na mesma corrida – a subir ao pódio nos últimos Jogos Olímpicos. Medalha de bronze; os sacanas não tiveram em consideração (e eu também não dei conta) de que atravessei a nado o Atlântico.

Relatório do segundo amigo: «sinto muito».

Fui a um especialista português que exerce em Cuba. Começou por me dizer que eu estava sem dor, que nada sentia. Eu disse: “és parvo”. Ele retorquiu: “parvo és tu”. Depois da tempestade recíproca de insultos ele explicou-me. “Aquele tijolo do décimo terceiro passo acertou-te no pipapapigrafo”.

E eu disse “ah?”. E ele disse “Aquele tijolo do décimo terceiro passo acertou-te no pipapapigrafo”. E depois de nova vaga de insultos, ele explicou-me. “Deixaste de sentir dor. Quando te encostas a uma parede e depois de desencostas e o prédio cai e tu dás mais de treze passos para fugir da derrocada e te cai um tijolo na cabeça é inevitável que a cena aconteça”.

Que me acerte no pipapapigrafo?

– Sim.

– Mas isso é comum?

– Acontece muito.

– Mais do que penso?

– Mais do que pensas!

– parvo!

– parvo és tu!

– Então, deixei de sentir?

– Sim, o tijolo bateu-te no pipapapigrafo.

– E isso fica onde?

– Uns centímetros acima do esternocleidomastóideo.

– o do filme?

– o do fime!

Depois, já de Cohiba nos beiços, Ernesto, o médico, disse-me que muita gente leva com tijolos no pipapapigrafo e nem dá por isso. E que não sente nada. E leva assim a vida, sem sentir nada.

– E faz mal sem sentir? Sem saber?

– Não exactamente. Eles sentem e sabem e insistem. E gostam.

– Mas a eles ou aos outros?

– É uma impossibilidade material fazer mal aos outros sem que o mal não acabe por te fazer mal a ti. Muitas vezes usas os outros para te magoares, ou a quem pares.

– Pares?

– Pares, de parir. Ter filhos.

– Filhos, filho. Tenho um.

– Exacto. E por isso estás curado.

– Não percebo. Estou curado porque tenho um filho?

– Não, estás curado porque sentes. Nunca estiveste verdadeiramente doente.

– Perdi-me

– E um dia o teu filho sorriu-te e encontraste-te.

– Era a quinta visita?

– Disso nada sei, lamento.

– Perdi-me no teu raciocínio, dizia. Mas já percebi. Então já não padeço do pipapapigrafo?

– Padecemos todos. Mesmo sem tijolo.

– E as pessoas perdem o sentir, é isso?

– Uns por instantes, outros o resto da vida.

– Mas eu estou curado? Já não faço mal aos outros nem a mim?

Não percebi o que o Ernesto me respondeu. Mas tinha algo a ver com todos nascermos com pipapapigrafo e com o facto de o pipapapigrafo ser algo muito sensível. A maior parte tem filhos, disse ele. E nem todos se curam. Os filhos não são a cura e ai de quem os tenha para se curar.

Lembro-me vagamente de ter tentado saber a razão, mas depois olhei para o lado. Vi o meu filho e sorri. Ele sorriu-me de volta. Deu-me um beijo no pipapapigrafo. Não sei se estou curado, mas estou bem.

Hoje recebi uma carta do Ernesto. Era a conta.

NOTA: Este texto partiu de um desafio que me lancei, no facebook. Dizia assim: cinco palavras, cinco prosas. Não, não é uma daquelas cenas passa-ao-próximo-e-não-ao-mesmo. Apeteceu-me. Os meus próximos cinco posts terão como título e conteúdo as primeiras cinco palavras que me deixarem em comentário. Não prometo um post por dia, mas garanto o que acima digo. Um exercício, uma brincadeira. Não é um concurso. Apenas algo. Não algo umbiguista, não algo com prémio. Apenas algo. Cada comentador (os primeiros cinco) deixa apenas uma palavra. E escreverei sobre ela. Nada mais. Não é para publicar na Gradiva, prometo. E insisto na regra. Apenas uma palavra. Em português. E começa agora. [esta merda parece um concurso, blargh…; mas não é] Adenda: aceito TODAS as palavras. Mesmo as que ainda não foram paridas.

E cinco viraram sete. Hoje “despachei” três. Calhou e não era minha intenção. “Sentir” (Carina Parente), “Pipapapigrafo” (Fátima Penas) e “Filho” (Alexandre Santos). Foi bom de escrever. Não li, ainda. Corrigi umas gralhas. Vai mesmo assim.

dr. Carlos & juiz Alexandre

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Vamos então começar pelo princípio. E para isso urge uma declaração de interesses e de desinteresses. Vamos por pontos. Depois o sumo.

  • A justiça não se pratica na comunicação social (há excepções, sim, mas que não acolhem o caso a que me refiro).
  • Um Juiz não dá entrevistas nem se pronuncia, ao de leve que seja, sobre casos que tem em mãos, tentando fazer prova da sua dignidade e aptidão.
  • Por igual razão (não maior, mas igual), o Juiz que tem em mãos a Operação Marquês não dá entrevistas. Ainda que não fale do caso, fala do caso, ao dizer do quão isento é. Do quão digno é. Quando assevera que as pessoas não o devem temer. Temo um Juiz que publicamente garante que não o devemos temer.
  • Nas últimas eleições em que Sócrates foi eleito, não só votei nele como fiz campanha por ele.
  • Hoje, e nada do que digo tem a ver com a actual situação do ex-PM, mais facilmente aceitaria uma injecção na testa do que votaria nele (é fácil apontar um erro, mais difícil é reconhecê-lo). Mas a minha questão é política, nada mais.
  • Apesar de o Sócrates ter sido melhor do que o que veio a seguir (seria uma impossibilidade material não o conseguir), não votei Sócrates nas eleições em que ele pôs o umbigo a votos.
  • E escuso-me de dizer das minhas razões para ter, então, votado diferente (certamente não no coelho). Não vem a propósito, e já gastei demasiados pontos com Sócrates (e apenas o fiz porque sei do que a casa gasta – este artigo é sobre um juiz, não sobre Sócrates).
  • É de Justiça que pretendo falar. Nada tem a ver com Sócrates. Tem tudo a ver com outro homem-umbigo. Por acaso, não fosse o acaso, têm jeitos de best friends forever.
  • Há aqui um pormenor curioso, e que me une ao Juiz Alexandre. Nem eu nem ele julgaremos a operação marquês. Eu porque sou Advogado. Ele porque escolheu ser o que é.
  • A latere, o juiz em título está a fazer um belíssimo trabalho, ele e o Procurador Teixeira, para que o Sócrates acabe absolvido. Tamanha a pesporrência processual. E isso também me aborrece.

Feito o sumário, vamos lá à matéria. À minha matéria, à minha opinião. A opinião de quem se subscreve, apenas. Não falo em nome de partidos. Não milito em nenhum, embora ultimamente tenha votado no Bloco. Não pertenço à Opus Dei nem à Maçonaria. Tendo em conta a forma como o juiz hoje se apresentou, é-me legítimo questionar se ele pode dizer o mesmo, é-me até legítimo apostar que ele não é maçon (posso, obviamente, saber mais do que pareço saber, ou até saber nada).

A partir do momento em que um Juiz – os media chamam-lhe super-juiz e não faço ideia se a questão lhe foi colocada, e se ele a refutou; que não sou adepto de pornografia judicial nos media (já me chega a “ao vivo”) – se expõe assim, eu ganho uma legitimidade que não tinha.

O meritíssimo passa a ser um homem que falou em público. Mais um. E desceu do estrado. Estamos agora à mesma altura (terá vexa minguado ou eu crescido). Bem-vindo à realidade. vexa colocou de lado a magistratura e resolveu guiar-se pelo enorme umbigo que ostenta. Não falando – e quero crer que não o fez – no caso que ora o faz rei, questiono. Tenho curiosidade, não sei se vexa esclareceu tal facto na entrevista, em saber se acaso recebeu autorização do Conselho Superior de Magistratura para esta novela em que hoje aceitou entrar. Às tantas, não é preciso. Mas coloco a questão por um motivo simples, não sei se enderece a queixa que amanhã mesmo farei ao Provedor de Justiça ou ao CSM ou a ambos. Por certo questionarei a Ordem dos Advogados (e valerá apenas como conselho) sobre o que hoje se passou.

Qual queixa? Não tens mesmo vergonha nenhuma, pá!  Até o juiz motoqueiro do processo casa pia conseguiu ser melhor. O que não faz de nenhum de vocês um juiz. Um Juiz, insisto, não aparece em horário nobre na televisão.  Os juízes não têm partido, não têm religião, não têm sexo, não têm cor, não pertencem à opus dei ou à maçonaria, não têm preferências sexuais. O homem por trás do juiz poderá ser e ter tudo isso. Será cristão, branco, macho, facho, usará cilício, será homofóbico (não isto, espero). Não são contas do meu rosário. A merda é quando eu sei de uma entrevista dada pelo Carlos Alexandre e sei (recebi um briefing, entretanto) que esteve ali um tipo que é juiz. E que felizmente julga a um nível intermédio. O que, lamentavelmente, chega para findar vidas.

Vamos lá então falar, de Advogado para isso que hoje vexa foi. Contar histórias. Não posso. Vês a diferença? Não devo. E nem quero. Acho que já passei a mensagem que queria passar. O que nos distingue, Carlos-homem, é que eu creio e luto pelo artigo segundo da nossa Constituição. A única ordem que me obriga, para além do fazer por ser um homem justo, é a Constituição.

Não sei se o Dr. Carlos ou o Juiz Alexandre podem dizer o mesmo. E a merda é essa, pá. Quem raio deu a entrevista? Foi o Juiz, o Dótor, o tipo da opus dei? Corre nos mentideros que és da opus. És? É que a partir de hoje, eu posso questionar isso. Ouvi dizer e não quero crer. O que se segue? O correio da manha? Uma entrevista à nova gente (nem sei se essa merda ainda existe).

Vexa abriu o flanco. E eu vou aproveitar. Sou Advogado, não só dos meus clientes. Mas também da res publica. E que pena não ter vexa levado o procurador Teixeira. Vexa lava, ele amacia.

Era só. E lembre-se, vexa. Um Juiz não dá entrevistas. Não pode. Um dia pode ter de julgar o entrevistador, percebe? Mas não é apenas por isso. E não, não vi a entrevista. Nem verei. Mas sei que a deu. Sei como foi anunciado. E sei quem vexa é.

Li agora que asseverou: “Não sou pessoa de quem ninguém deva ter medo. Tenho 1,69 metros no bilhete de identidade, agora estou um pouco mais magro.” Sério? Tem vexa noção da enormidade que as v/ palavras encerram? Estás mesmo a gozar o prato. Comigo e com a República. Vexa é um péssimo exemplo, sabe? E ainda ontem recebi um despacho que é a sua cara (e sim, segue mais uma queixa). E isso me dói.

Porque a Democracia e a República merecem Juízes. E o que vexa hoje fez é grave. Demasiado grave. E insisto. Não vi, nem verei a entrevista. Tamanha a gravidade. E ainda me custa a crer que a dita não seja produto da minha imaginação. Sabe como foi lida a coisa? O Juiz do Sócrates deu cabo do gajo. Acha vexa esta merda normal?

“Não tenho dinheiro ou contas bancárias em nome de amigos”? Li agora no DN que vexa vomitou tais palavras. Isso é coisa que um juiz diga num processo que está a julgar, ainda que em fase instrutória? Ou achas mesmo que o formalismo impede as gentes de perceberem de quem falas? O homem – e insisto nos pontos acima elencados; ou ainda me arranjam lugar no marquês – de quem falas é o homem que tens nas mãos (e essa acusação a duas mãos, sai ou não sai?). E isso não é bonito. E crê, umbigo, diria o mesmo se fosses tu o arguido.

Era só. Ganha vergonha. Que eu estou cheio dela, pelo que hoje fizeste. [este “tu” com que entremeei o meu texto? Não o confunda vexa, pois assim trato os meus amigos. É de nojo, mesmo, este “tu” de teclado].

Obviamente, amanhã farei tudo o que acima disse. Para que conste. E só mais uma coisa, vexa; a forma como aparece na imagem faz-me sorrir. E quiçá? Quiçá um dia o feitiço se vira contra o feiticeiro. E sou um crente no Estado de Direito Democrático. Apesar de vexa. Ou precisamente por causa de vexa.

Formas alternativas de mudar o mundo

logo_vogais_lemaPlantar um filho, parir uma árvore, rasgar um “livro”. Um dia dei uma cabeçada num “livro”. Tinha custado para cima de quinhentos paus. Ficaram dois. O livro era tão mau que o vendi por volumes. Quatro. É que entretanto dei outra cabeçada em cima da primeira. E ganhei dinheiro. Rego o meu filho todos os dias. E ele cresce. Em todas as direcções. Eu lá vou dizendo do que penso. E ele apara-se daqui, estende-se para acolá. Não a meu comando, que o sacana tem um feitio daninho; e um dos melhores sentidos de humor a que já assisti. E babo-me. Claro que me babo. E às vezes à frente dele. Quando tiro a dentadura. A cena de parir uma árvore é grossa. Já ajudei um girassol a ver a luz, feito de semente enjeitada pelo meu papagaio e que empurrei pela varanda acima. E o tipo lá girou. Ao sol. Pena não haver giraluas. Agora já há, se não havia. Mentira, que a palavra cão não morde. E também já fiz outras coisas. E olhem, não levem tudo assim tão à letra. Atentem primeiro nas vogais. O segredo está nas vogais. Vogais de prazer ou de dor. Vogais democráticas. Quem grita uma consoante? Pisam-te o pé. E tu? A. ou É (esta tem de levar acento). Ou I. Ou O. Ou U. Às vezes juntamo-las. AI. UI. OI. IA. IÉ. E por ai fora. Experimenta mostrar dor ou prazer com uma só consoante. Ou com duas T? Z? TZ? Já alguém gritou de dor ou de amor com um Ç? E era só. Apeteceu-me. UI.

“Uma só língua – que roça, agride ou seduz” e o Acordo Ortográfico

«Língua é o que roça, agride ou seduz. Idioma é como se expressa uma pessoa ou uma nação. Definem identidades, podem gerar amor ou repulsa. Sérgio Rodrigues, escritor brasileiro vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura em 2014, ama a língua portuguesa, derrete-se com ela. Lançou segunda-feira no Rio de Janeiro um livro que nos ajuda a entender como a utilizamos e defende uma atitude de correcção sem subserviência às regras (“se uma regrinha qualquer é sancionada pelos sábios mas não bate bem no ouvido, na alma, então não serve”). E, em entrevista ao Expresso Diário, conta como a utilização lusitana do Português é vista do lado de lá»

É assim, desta forma mimimi (fofinha, mas que acrescenta nada), que começa a entrevista a Sérgio Rodrigues, hoje publicada no Expresso Diário e cuja íntegra penso estar disponível só para assinantes (não perdem nada, creiam). Sérgio distingue língua de idioma. E fá-lo duma das mil formas possíveis, e até que me seduz (acabei de misturar língua e idioma). Sucede que, depois se preocupa em demasia (preocupa-se em demasia) com o facto de “Se nada fizermos, Brasil e Portugal vão deixar de falar a mesma língua”.

E então, qual é mesmo o problema? Aí está a beleza. E cinjo-me (me cinjo) à definição que o autor dá de Língua – “o que roça, agride ou seduz”. Parece o subtítulo de um filme porno. E de Idioma – “é como se expressa uma pessoa ou uma nação”. Visto por este prisma, vemos que o problema não existe.

De todo. Somos e vivemos realidades diferentes (idioma) e é natural que daí saiam línguas diferentes. Não aceito é uma solução por Decreto – o Sérgio, apesar de lhe apontar falhas, concorda com o novo acordo ortográfico. Um mal menor que serviria – as palavras são minhas partindo da interpretação das dele – para que não deixássemos de falar a mesma língua. Mas qual a razão?

Brasileiro algum (nenhum brasileiro) que preze a língua que fala deixará de ler Pessoa ou Eça. E se deixar de ler, que se lixe (foda). Assim como eu não deixarei de ler Drummond ou Guimarães Rosa. E se deixar de ler, que se foda (lixe). Agora virou. Todo o brasileiro (todos os brasileiros) que use a língua que fala deixará de ler Pessoa ou Eça. E se não deixar de ler, que se lixe (foda). Assim como eu não deixarei não de ler Drummond ou Guimarães Rosa. E se deixar de ler, que não se foda (lixe), não.

Se citasse mais exemplos teria de referir autores brasileiros que cá se publicam e autores portugueses que lá não se lêem. Este lá e cá é-me desde logo meio irritante (irrita-me um pouco). Mas é-me tão indiferente. Que quem quer ler em português de Portugal, ao contrário do que insinuas (do que você insinua), lê. E mutatis mutandis (latim, língua que ninguém matou).

Acordo nenhum mudará a realidade. E as línguas evoluirão ao sabor dos tempos. Nessa evolução está a riqueza da língua. Se acaso virarem duas ou dez, sorte ou azar, questão de interpretação. Para mim? Maravilha. Viro poliglota. Se assim não fosse, ainda estaríamos todos a falar em latim. Nada contra, mas foi precisamente por não haver acordos ortográficos que hoje temos línguas a dar com pau (não resisti – vai googlar). Qual a pobreza que daí vêm? Hum?

E o Sérgio esquece que português não é só Brasil e Portugal. Aconselho-lhe (te) vivamente a leitura de Mia Couto, Pepetela, Ondjaki, Agualusa. E de et cætera, um autor que nunca cai em desuso.

Deixem as línguas e os idiomas em paz. O medo do Sérgio (de quem nunca li nada – o que farei por emendar) é a minha esperança. E se o Sérgio acha mesmo (pelo menos dá a entender isso) que a literatura zuca está à frente da tuga, é um sério candidato a publicar na bulhosa, ou na chita da tina. Nos tempos que correm, meu chapa (meu caro), terás razão. Ou então não. Depende do que leias. E foi e é e será sempre assim.

E não me choca ouvir e ler brasileiro. Adoro ler autores brasileiros. E sei que o que leio é doutra nação. Ouvir e ler qualquer língua. Ou idioma. Não será por Decreto, Sérgio. As editoras? E esta acho que se perceberá daqui a um milénio. Que se fodam as editoras. E se não perceberem, podemos sempre recorrer ao inglês.

Dás-te mal com os tempos? Eu adoro as nossas formas diferentes de falar. Se um dia virarem línguas diferentes? Óptimo. As gentes assim o ordenaram. Não uma lei. E nunca tu.

Não o decreto puta-que-pariu, que nos ordena iguais. Tu, que dizes odiar regras, aconselhas uma lei inteira cheia delas. Serás um belíssimo escritor, e farei por te ler (mentira, sou muito sanguíneo e entretanto mudei de ideias), mas não pescas nada de tudo o resto em que te intrometes. A língua, o idioma, o raio que nos parta a ambos é parido pela gente que os usa. Quando mudar, muda. E não sejamos fascistas, ao ponto de impor uma só língua. “Uma só língua”, a propósito, é mesmo um excelente nome para um filme pornográfico co-realizado pela CPLP.

Se por acaso tiveres de usar um dicionário para me entender, problema teu. Ou sorte das editoras, quiçá. Dicionário também vende, Sérgio.

“Uma só língua – que roça, agride ou seduz”. E eis o que sai disto tudo. Um título foda (mau, em tuga; bom em zuca). ‘Tás a ver riqueza da nossa língua, pá?  Por mais que seja diferente, será sempre igual ou diferente ou o que queiras… Será sempre! Mesmo que passe a ser (com vossa licença) dez línguas diferentes.

Tu vês pobreza, eu vejo fartura. E assim nos entendemos.

Da Alemanha-üA e dos putos do sul

NOVA ORDEMOuviram, leram, viram a entrevista do Stiglitz à Antena 1? Ignorem. Como ousa o Nobel dizer que austeridade não é remédio? Olhem os países do sul da Europa. Olhem como sorrimos, antes das primeiras chuvas.

Vamos curtir esta diversidade austeritária. Os nossos filhos depois resolvem. Agora é mazé curtir a fome e andar de braço dado com a vontade de comer. E se a fome se vender à vontade de comer, seremos ainda mais felizes.

Creiam, ainda não vimos nada. Mas eles, os putos, depois resolvem. Ontem li uma entrevista ao Spiegel de um idiota da CSU (quasi-ex-mano da CDU), depois de a CDU ter sido varrida pela extrema-direita da AfD, num Estado do nordeste da Alemanha. A ideia do bicharoco (Markus Söder) era mesmo a de que eles trabalham, nós (os do sul) gozamos. Até dou de barato a ideia de gozar a vida, tal como dou de barato que trastes como este funcionam bem com ou sem bigode. Assim como relembro duas guerras mundiais, provocadas… pelos países dos sul. Duas Europas destruídas, e esta terceira que nos encanta.

Este post não pretende ser uma defesa da Merkel (de todo – ainda não perdi a memória), mas não deixo de sublinhar que até ao famigerado tratado tampão UE-Turquia, a Alemanha foi o único país da UE que realmente acolheu refugiados. A Alemanha pós-Merkel (ainda que com-Merkel) será a AfD (neo-nazis não declarados que remeteram os neo-nazis do NPD a menos de 5%) e gajos como Markus Söder, que começam a aparecer que nem cogumelos. E, claro, não faltarão os Sigmar Gabriel (SPD), a cavalgar a onda anti-refugiados. Urge uma grande coligação, onde não faltará também a CDU. E eventualmente a própria Merkel, que quer muito fazer de Führer e está muito arrependida de ter trocado muros por pontes. Nada que a própria CDU/CSU não esteja já a tentar remediar. A palavra “expatriação” é de ordem, na nova Germânia. E encherá cartazes.

Proponho um novo nome, para essa coligação. DüA. E daqui peço à DüA que perdoem a Merkel. Ela, pobre diabo, acreditou mesmo que a França partilharia esforços para reabilitar o nome da Germânia. Enganou-se. E a vingança será terrível. Ela e o “prince” Söder (não se esqueçam deste nome), o Schäuble e os fachos do Afd e do NPD unirão esforços. A esquerda alemã é um não-facto. “Die Linke” em breve deixará de ser nome de partido.

E… DüA. Deutschland Über Alles. Exagero?, não creio. Tudo palavras do Söder, um príncipe germânico.

Mas não percam muito tempo a stressar. Deixemos essa herança para nossos filhos. Para já, bute mas é surfar esta onda austeritária. Em último caso, temos sempre os tremoços. E deixemos herança aos nossos filhos. Um oven dodger para cada um… mas assim mais abertos, onde o porteiro não seja tão exigente.

Em 2045, passados cem anos, deixarei de escrever posts destes. Seria bom sinal; bom sinal que o louco fosse eu. Isso faria do futuro do meu filho algo mais saudável. Tipo; e chega de distopias, que a Alemanha é o futuro. E morte é vida. Alemanha é a Europa E pluribus unum.

 E a Ironia é uma mera figura de estilo.