SOARES E BAUMAN, o meu discurso nos Jerónimos

Por mais irracional que seja, há uma espécie de esperança que surge num ano que nasce. Como se a natureza se adestrasse aos relógios dos homens. Como se o novo ano encerrasse o Inverno e fizesse despontar a Primavera.

2016 foi um ano demasiado dorido, de muitas perdas, a maior parte delas explicáveis pela natureza-necessária da mortalidade de dar lugar-espaço a outros. Mas algumas mortes foram cedo no relógio de 2016. Para além das “nascenças” (no sentido de tumor) que se estabeleceram para provar que a história do homem no Planeta insiste em se renovar, ao invés de ser lembrada para poder ser evitada.

Esta parte é em grande medida “graças” aos media e à estupidificação a que se avençam e a que votam e devotam quem os “olha”. Se desde cedo te habituares a comer merda é normal que a merda te saiba bem. Há aqui algo de contra-natura, que se a comida cheira bem é para a comermos, se a merda cheira mal é para a evitarmos. A natureza errou em nada. O homem insiste em enganar e enganar-se.

O “segredo” para que comamos merda com prazer é pôr-lhe um embrulho que caia bem aos sentidos. E aqui a culpa maior precede a dos media. Cabe às famílias que desde cedo depositam os seus pequenos príncipes em frente às televisões, sem curar do que comem. “Ali, ele cala-se”. E é nesse silêncio que ele come e “cresce”. Cala e come. Come e cala.

E chegou 2017 e com ele aquele destempero da crença de que talvez possa ser melhor. Como se bastasse mudar de ano para ser melhor. Quando na verdade, tudo se traduz em ser-se melhor. E se todos realmente nos deixássemos de ser lobos dos nossos iguais poderia ser assim, sim. Melhor. Mas o jogo vai demasiado adiantado. Mas ainda há tempo para não desistir.

Com os sentidos obliterados, a perdição daninha a que nos entregámos obriga-nos a colocar em campo aqueles que prometem muros que lutem uma luta da qual há muito desistimos. Interessa é que não nos aborreçam e nada como um muro erguido à volta de cada um para atingir esse objectivo. Com uma tv amuralhada, lá dentro, connosco. E um sofá.

“Pelo menos que aquela ceifeira pare por instantes, que todos os homens-bons são poucos para mudar, começar a revolver o que aí vem”. Pensei assim, ciente da morte iminente de um eminente, a de Mário Soares. Não me passou pela cabeça que Bauman também se fosse aos primeiros dias desta nova primavera, que já é inverno glaciar ao décimo dia.

E faltam dez para começar o verdadeiro fartar-vilanagem que todos merecemos. Porque mesmo quem fez tudo para evitar isto fez pouco. Aquele que começou lá atrás, no reino do capital, em que tudo se compra e em que tudo se vende. E nós de código de barras na testa. Preto, branco, amarelo, vermelho; cada cor com seu preço. Ascendência, sexo, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, situação económica, condição social, orientação sexual.  E a maquineta que somos passa pela testa dos outros. E no fim sai o preço. E em função do preço aparece a realidade, com mais muros e sem memória. Afasta-te, próximo!

Esta a minha singela homenagem a dois Homens, Mário Soares e Zygmunt Bauman. Morreram, diz a natureza. Estão vivos, que só a carne feneceu. Digo eu.

Sobre Mário Soares já tudo foi dito. O Miguel Esteves Cardoso escreveu a súmula que faço minha, com todo o respeito. Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo. Acrescento umas palavras.

Não é possível imaginar um singular ano dos últimos quarenta do século passado sem passar por Mário Soares. E mesmo já neste século, bulia e trabalhava por aquilo que poucos ousam. Porque parece mal apontar o dedo. “Não se aponta que é feio”. Eu aponto, que é bonito e útil. Lembro-me de como encheu a Aula Magna para dizer que não àquele bicho feio e entroikado que nos atormentava. E eu – porra, somos mesmo poucos e não aprendemos nada com ele; tem de ser ele a levantar-se mais uma vez. Claro que foi um sentir simplista. Claro que Mário Soares arrasta gente. E claro que Mário Soares é Mário Soares. O nome virou adjectivo.

Mário Soares percorreu todos aqueles caminhos e até na hora da morte consegue ser o que sempre foi. Entre a Marinha Grande e o Comboio da Liberdade.

Mário Soares esteve em cada dia antes de Abril e depois de Abril. Há tempos, ainda em 2016, li alguém que considerava que a passagem de ano seria mais completa se acompanhada pela morte de Mário Soares. Imaginei, na altura, o que diria Mário Soares daquilo. De alguma forma, Mário Soares é isto (leva com isto). Esteve em todas. “Errou na descolonização”. Sério? Errou exactamente como? Coloquem-se no tempo e imaginem que poderiam fazer melhor. Tenho imensa curiosidade em saber como fariam.  Escravizámos por cinco séculos aqueles povos e viemos com uma mão à frente e outra atrás? Queríamos o quê? Honras de Estados (os de lá e o de cá?). Pensão vitalícia? Perdemos tudo? Ou ainda fomos a tempo de trazer dois ou três escravos negros para fazer cá o trabalho que faziam lá? E até os pusemos mais tarde a descontar para a segurança social. Somos tão bons. E até os baptizámos, não fosse o demónio acolhê-los, quando a espinha vergasse de tantos trabalhos forçados a criar meninos.

Uma reforma para os pretos que escravizámos por séculos. A culpa desta ignomínia é, oiço dizer, de Mário Soares. Uma descolonização bem negociada logo após uma guerra, pois então. Isso é que era, com certidões do registo predial e comercial passadas em letra de lei. Que não passe pela cabeça de alguém que considero justo o processo de descolonização. Aquele “Queriam o quê?” lá acima não é de despeito. “É a História, estúpido”.

Tudo correu mal, menos a libertação dos Povos. Roça, sem desculpa à vista, a injustiça daquele rótulo de “retornado” com que foram “acolhidos” os que regressaram. E essa injustiça cabe aos brancos de cor, essa gente imaculada.

Nunca votei Soares. Mas com ele aprendi o que é a política, o que é ser político. Não aquele politiqueiro de corredor. Ser Político, fazer Política é a mais nobre das actividades. Ver além de um mandato em que se começa de imediato a trabalhar para ser reeleito no seguinte. Mário Soares é Política, porque Política é pensar além dos aplausos do mês seguinte. O Homem errou? Ui. Errou imenso. Visto daqui é fácil dizer como seria mais profícuo ter feito diferente. Acontece que foi ele que esteve lá – em todos aqueles momentos DATADOS – e foi ele que ousou.

E poderia falar de tanto mais, mas francamente falta-me a paciência. Quem apenas levanta o cu do sofá para se exercer em dias de unanimismos pseudo-revolucionários merece todo o meu nojo. Criticar é fácil, SER é que é do caralho. Uma palavrinha para o atentado social que representa o esquerdismo: bardamerda. Dói devermos-lhe não termos trocado um totalitarismo por outro? Cresçam, caramba. Estamos em 2017 e o muro caído em 1989 ergue-se agora em mil. Olhem daqui, com olhos de gente. E lembrem-se duma cena. Houvesse uma máquina do tempo e estivessem vocês lá (idos de agora para lá). Borravam-se todos. Não decidiam. É fácil falar. Estiveram lá? Lutaram e vénia. Sofá e nem por isso.

Mário Soares esteve em todos os cantos e recantos na nossa história recente. Acertou mais do que errou. Acima de tudo, acertou em estar lá. Em cada instante. E decidir, em cada momento. Fora a prisão, em que decidiram por ele, fora o exílio, em que decidiram por ele. Mas nunca vergou. Bem-haja, Mário Soares. Pela lição de vida que farei por perpetuar e levar adiante. És o Maior de nós.

Zygmunt Bauman morreu ontem, aos 91 anos. Conheci-o há um ano atrás. Apenas.

Ou tanto, que me obriguei a ler (quase) tudo dele em pouco tempo. Li, ouvi e se tenho um projecto de PhD a ele o devo. Releiam a frase traseira. Foi de propósito. Na verdade, se comecei a escrever sobre sociologia, em forma de quem quer saber mais e de quem quer ajudar mais (a ideia é esta), foi ele que me alavancou. Trouxe-me a sociologia, Bauman. Trouxe-me um olhar diferente sobre a modernidade. Não acho que tenha exagerado nada ao explicar a sua (agora nossa) modernidade líquida em todas as vertentes. Com ele passei a olhar diferente. E lia-o religiosamente na Social Europe (como se não me bastasse a bibliografia imensa, que ele insistia em alargar).

O último artigo de Bauman é de 16 Novembro de 2016 e guardei-o como uma pérola para olhar mais tarde (entretanto já o li). How Neoliberalism Prepared The Way For Donald Trump.

Sociologia alguma, ciência social alguma (e incluo o meu Direito) pode ignorar Bauman. Leio-o ciente de que nada que não se queira pano de chão pode ignorar Bauman.

Sei de uma pessoa (que muito considero) que ao ler isto pensará que eu tenho de ser mais objectivo neste meu encontro com a Sociologia. Que “esgotei” Bauman e que adiante. Tem razão na parte académica. Mas não renego nem escondo os meus vícios. Padeço de uma forma estranha de ser pele. E isso vai reflectir-se onde quer que escreva, para quem quer que escreva.

Quero sair diferente de cada texto que leio e de cada texto que escrevo. Arranjaremos (não é plural majestático) forma de encontrar um plural singular que absorva tudo isso. Tento e tentarei fotografar o mundo visto daqui. E dizer dele. Devo a Bauman parte “disto tudo”. Foi ele que me obrigou a voltar a Marx, e a relê-lo com outros olhos. Aos diversos Marx. E se sou marxista (não leninista), não digo qual deles sou. Não aqui nem agora, certo de que este “ser” tem mais a ver com a ciência de olhar o mundo do que com aqueloutra que Mário Soares praticava.

Dediquei estes últimos meses a ler tudo o que há sobre formas de totalitarismo. Sei que cada tempo deve ser olhado do tempo em que se olha, sem nunca esquecer o passado em que foi.

Soares e Bauman são, metaforicamente e não só, a minha síntese-alvo, à qual me acrescento eu. Não me peçam para ser igual ao que parece bem. Para ser delicodoce. Eu sou eu. Aprendi com ambos (e mais uma centena, mas estes com especial ênfase) a ser um individuo – e não falo aqui dos poucos amigos que mantenho, da família que me educou.

Bem-hajam, Soares e Bauman. Farei a minha parte, no que toca a que os vossos ensinamentos perdurem e, mais do que isso, a que sejam úteis.

2017 anuncia-se como o início datado da perda. Já foi assim demasiadas vezes e sempre demos a volta. Há que continuar, nestas trevas que se anunciam. Assim o Planeta nos dê tempo para que o possamos salvar. Nós somos o menos.

Marcelo, uns umbigos em forma de Cornucópia – e uns pozinhos de interioridade

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A ida do Presidente da República à Cornucópia, tal como foi (em que forçou um Ministro a alterar a agenda, para poder criar uma não-notícia, com uma reunião aberta aos media que obviamente daria em nada), recordou-me a pior das facetas do Marcelo-comentador.

O Ministro da Cultura esteve bem, ao ouvir e calar (chama-se sentido de Estado), o Cintra fez o que tinha de fazer (Está cansado? Também eu!). O que o PR fez não se faz. Não foi uma tentativa de mediação, longe disso.

Mediações profícuas não se fazem de surpresa e muito menos à porta aberta, com o PR a servir de moderador entre partes que quis mostrar desavindas (e a desavença não é imputável a este Governo, nem tampouco à relação deste Governo com a Cornucópia). Péssimo. O que vi foi demasiado mau. Teve demasiado daquele Marcelo em quem não votei. Fica o alerta. Para mim (que vi o que vi) e, espero, para o PR.

E já nem falo da forma como a separação de poderes foi pontapeada (falei). Caramba, não se obriga (obriga!) um Ministro a ir a uma reunião onde havia nada para discutir — à porta aberta nada se discute. Se Marcelo quisesse realmente a Cornucópia aberta (e não duvido disso; mas aqui o umbigo falou mais alto), teve muito tempo para marcar e mediar reuniões.

Não é à última da hora, no último dos dias que se faz este espectáculo de comadre casamenteira. É a primeira vez que aponto o dedo ao PR, tal como me prometi — e publicamente o fiz, em debate pós-eleitoral na UBI –, que só faria se o caso fosse realmente grave. Foi realmente grave. Ao olhar o que foi, antecipo o que será, esperando que não seja.

E não haja dúvidas, MRS quis um “happening” em seu proveito. Teve-o. Ele sabe que o que fez não impediria o fim da Cornucópia.

E asinha termino. O problema da Cornucópia resolvia-se de forma simples. Sem estatuto de excepção, mas com um estatuto substantivo que lhe desse essa excepção (coisa arredia ao neoliberalismo e, pela pressa de fechar, ao Luís Miguel Cintra).

Os bancos insolventes resolvem-se à custa do erário público. E nós pagamos. Obrigados e a contragosto. Pudesse eu, tivesse eu a oportunidade de ajudar a manter a Cornucópia. E eu pagava. A gosto.

Só mais uma cena, Luís Miguel Cintra. Está cansado? Também eu! Vivo na província, sem direito a excepção, nem a presidentes de última hora. Mas concedo em a Cornucópia ser a Cornucópia. Pena que não haja mais. Pena que a Cornucópia acabe. Lamentável o espectáculo proporcionado pelo Marcelo.

Pena que para a interioridade não se discutam excepções. Mas, ainda assim, não peço a ninguém que meta a Cornucópia no cu. Apesar de o interior viver num sítio muito apertadinho.

Se fosse Aleppo Futebol Clube…

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E chega aquele momento onde precisas de Paz. Porque só em Paz podes desafiar e ousar lutar contra este estertor em que deixamos (deixámos?) o Planeta que, já agora, não nos pertence. 

Não estou em Aleppo. E é fácil botar faladura não estando em Aleppo. Para falar de Aleppo preciso de não o sentir como agulhas espetadas no coração (por mais que o sejam). Preciso de me distanciar para poder ver além das imagens e das palavras. E ser útil. A ideia de ser útil persiste, seja qual for a luta.

No momento em que achar que não posso mudar o mundo, desisto de mim. Todos podemos mudar o mundo. A prova é Aleppo. Remedeio já o aparente paradoxo. Esses filhos da puta (todos esses filhos da puta) mudaram Aleppo. Nenhum deles se sentou no sofá, a ver bola. Imaginem que todos nós (existe esse “nós”, tão certo como esse “eles”) tivéssemos o mesmo tempo.

Esse tempo que se nos apresenta como indisponível. Porque joga o Benfica. Porque não joga o Benfica. Porque chove. Porque está sol. Porque chove e está sol. Os culpados de Aleppo não são “eles” (“eles” cumprem-se), somos “nós”. Aleppo é real. E ao mesmo tempo uma “metáfora” vivida e dorida no Planeta. Um aviso.

Como se muda esta merda? Mudando. Aleppo jogou ontem e anteontem. Jogou hoje e jogará amanhã. E perde. Nós perdemos. Ai, caralho, fosse Aleppo Futebol Clube. Jogasse lá a equipa completa do Football Leaks. E Aleppo existiria. Falava de Paz, portanto. E saio deste texto chocado porque disse filho da puta e caralho. Isso é que vai ficar. Olha o malcriadão.

Falo de Paz, insisto.

Da pós-verdade

«A palavra do ano 2016 é… “pós-verdade”. E faz muito sentido! Depois de tantos anos a ouvir mentiras, as vantagens da verdade, foram ultrapassadas na nossa consciência, por uma simples aparência de credibilidade.», José Manuel Diogo, JN
 
Segundo os editores dos dicionários Oxford, pós-verdade (‘post-truth’ em inglês) é um adjetivo que faz referência a “circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”.
 
Qual a razão de estar a falar disto hoje? Epá, apeteceu-me. Digamos que tive necessidade de, neste fim de dia, dar nota de que a pós-verdade chegou às berças. E funciona, ó se funciona. Cai que nem sopa no mel.
 
A propósito, a segunda volta das eleições que hoje decorrem na OA foi marcada na madrugada de 19 de Novembro. Verdade? Eu quase que jurava, até fui confirmar e tudo. Nops. Pós-verdade: fiquei hoje a saber que foi, necessariamente, antes de 4 de Novembro. Mentira? Não. Pós-verdade.
 
E lembrei-me agora de uma frase Woody Allen: “Parecia que o mundo estava dividido em boas pessoas e más pessoas. Os bons dormiam melhor, enquanto os maus pareciam aproveitar muito melhor as horas acordados”.
 
E nisto, apareceu a pós-verdade.
Eu lá continuarei a modos que muito apegado à realidade, mas apenas porque me move a gula. “A realidade é dura, mas é o único lugar onde se pode comer um bom bife”. [e hoje deu-me mesmo para o Allen]
 
Toodles! Mais uma moedinha, mais uma voltinha. E sejam felizes, que cada um sabe da forma como se exerce gente.

Em nome da República, um Aplauso para Filipe VI

Dois Factos:

1 – Sou intransigentemente republicano e é também nessa condição que escrevo as linhas que se seguem.

2 – Hoje, os deputados do Bloco de Esquerda (partido em que votei) resolveram ficar sentados, após o discurso de Filipe VI, Rei de Espanha. Ao contrário, os deputados do PCP souberam erguer-se, ainda que não batendo palmas.

Adiante.

Fora quando actuo de cabeça quente, faço sempre por reflectir no bem ou mal que advém de cada uma das minhas acções públicas (não para mim, a verdade é que nunca para mim; não tacho, não tacharei e não me limitam o dizer).

Que pretenderam os deputados do Bloco demonstrar? Que bem adveio para a causa republicana espanhola o facto de terem faltado meia-dúzia de palmas, num parlamento republicano?

Espanha e Portugal são dois Estados de Direito Democráticos. Filipe VI é o Chefe de Estado de Espanha e envergonha-me ver o que vi hoje. E, “lamento” informar, mas Filipe VI é a escolha do povo espanhol. Nunca foi a votos, é certo. E não me venham com a Guerra Civil, com o rojo que eu seria. Quantas fronteiras atravessaria pela República. Imagino de andaria a salto entre Portugal, Espanha e França. Ou talvez não; a verdade é que não sei; não sei o que raio seria, nessas alturas de então. Que coragem teria. Se me impediria o medo de morrer. Seria pastor, seria letrado, seria pastor letrado, seria eu como sou agora? Sei que hoje sou franco e livre que chegue para dizer o que penso. Com a facilidade que o 25 de Abril me permite dizer de mim – nunca saberei se, nesses tempos, não seria um cordeirinho sob as patas da ditadura, enquanto mamava nela.

Tenho a certeza possível de quem sou hoje. Nascido em ’72.  Sou arrogante e, ou humilde ao ponto de não saber de mim noutros tempos e desventuras. Já me basta lutar o que luto, perder o que ganho.

Adiante.

Estamos em 2016. Nenhum deputado se representa a si, embora o exercício do cargo seja indissociável da pessoa que o exerce. Mas um colectivo representa não só quem nele votou, mas toda a República, e não pode cuspir na cara de um Chefe de Estado de um país amigo. Da mesma forma que aqui há dias falei de Fidel e relembrei Ortega Y Gasset, faço o mesmo agora.

Em nome da Republica e do que ela representa, daqui aplaudo Filipe VI; e não esqueço a forma como se vem exercendo. É precisamente em nome da Republica que este Chefe de Estado devia ter merecido o respeito que não teve. Quiseram marcar um ponto, que são republicanos; que preferiam uma República no país vizinho.

Também eu. Também eu sou Republicano de XXI. E também eu, em condições que não estas (porque conheço a realidade espanhola), preferiria aplaudir um Presidente.

Vamos a um exercício de estilo. E se fosse o Papa Francisco? Também veria os deputados do Bloco sentados, porque, tal como eu, não são católicos? Há que olhar as pessoas além dos cargos que exercem. Urge distinguir o bem do mal. E avançar a partir daí. Apenas da conclusão que tiremos, em face deste fim de mundo que o século XXI se prepara para ser.

Vamos a exemplos próximos. Jamais estenderia a mão ao ex-Presidente da República. E fá-lo-ia em nome da Democracia. Jamais estenderia a mão ao “Presidente” brasileiro. E fá-lo-ia em nome da Democracia. Jamais estenderia a mão ao Maduro da Venezuela. E fá-lo-ia em nome da Democracia. Nunca, em circunstância alguma, deixaria de, havendo oportunidade, cuspir na cara de trump e dos fascistas que ele vai juntando em seu redor. E fá-lo-ia em nome da Democracia.

O Bloco padece de uma enorme confusão. Perde-se em lutas patéticas, e esquece-se da realidade do momento. No momento, Portugal e Espanha carecem de estar unidos como nunca estiveram (e não me estou a esquecer do Rajoy, assim como não me esqueço que o povo Espanhol o escolheu por duas vezes; relembro-me disso porque sou Republicano e Democrata).

Neste momento vivemos tempos em que se faz História todos os dias. É imperativo não esquecer o passado (e nesse passado lá estaria eu a saltar a fronteira e a lutar pela República), mas ainda mais imperativo é entender o presente.

Sempre que critico o Bloco, e já foram algumas vezes, faco questão de dizer que apesar de tudo manteria o meu voto. Hoje não escrevo tal. E atentem na ironia. Só porque não se levantaram quando um Chefe de Estado discursou no nosso Parlamento? Acho que a resposta a essa pergunta não me deve ser endereçada, mas ao Bloco. A birra foi deles, eu apenas tiro as consequências. Espero que este episódio lhes amaine as dores de crescimento. Terei facilidade em esquecer esta birrinha improfícua que se manteve sentada, pasme-se, contra os valores da Republica.

Quando um convidado entra na nossa Casa Maior, a República inteira o convidou (é a Democracia, estúpidos!). E na Assembleia da República não entra qualquer um. Não tinham de aplaudir, bastava levantarem o cu. E daqui vai a minha vénia ao PCP.

E agora vou jantar, que daqui a uma hora vou sair e “espantar espanhóis”. Vou apenas alinhar numa arruada que marca um momento da nossa História. Mas vou ciente de que me limito a honrar uma memória, que no passado em boa hora se construiu. Vou ciente de que vivo em 2016 e de que a Democracia tem inimigos muitos.

Filipe VI não é um deles.

Fidel

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Escrever sobre Fidel não é tarefa fácil, só o será para quem, por convicção ou desconhecimento, alinha no simplismo a-histórico made in usa. Explicar Cuba e Fidel implica conhecer a América Latina, que começou bem antes da colonização europeia (antes de ser América e de ser Latina, portanto). Hoje não me apetece escrever, talvez porque me falta a paciência, talvez porque 2016 está a ganhar contornos de mercenário, talvez porque estou triste.

E, claro, assim tudo é fácil, limpo e claro; como que em um mundo a preto e branco onde o dedo indicador é movido por fios de marioneta, aos quais garanto também não ser imune. São invisíveis, difíceis de dar conta. E aponta, aponta e aponta. Demasiado fácil, limpo e claro. Ao contrário da realidade.

Sem Fidel, Cuba seria mais uma colónia estado-unidense. Imagino que uma espécie de Las Vegas, onde trump teria grandes-grandes-grandes casinos. Tenho a certeza de que poucos dos que ora gritam “morreu um criminoso” saberão da Cuba de fulgêncio, ‘Granma’ ser-lhes-á uma avó fofinha num filme de Hollywood, a CIA uma ONG humanista.

Como disse, não me apetece escrever e irromper pela História, pelo que deixo abaixo uns excertos (sigam depois o link para o texto) que recolhi em minutos. Antes dos textos, deixo um petit fours: “One, recounted in the New Yorker this week, tells of him being given a present of a Galapagos turtle. Castro declines it after he learns that it is likely to live only 100 years. “That’s the problem with pets,” he says. “You get attached to them and then they die on you”.

Leiam tudo ao som de Espinosa, “Los hombres se equivocan si se creen libres; su opinión está hecha de la consciencia de sus propias acciones y de la ignorancia de las causas que las determinan”, e de Ortega y Gasset: “Yo soy yo y mi circunstancia, y si no la salvo a ella no me salvo yo”.

Bem-hajas, Fidel. Não careces que a Justiça te faça História (podem trocar a ordem das parcelas). Tu és parte da História. E um capítulo negro na estória da infame cia (esse símbolo democrático que se passeia pelo mundo em acções clandestinas, matando quem acha por bem matar) que por mais de 600 vezes te tentou derrubar. E tu é que és o torcionário.

Galeano (saudades): “E seus inimigos não dizem que apesar de todos os pesares, das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta” . E já que estamos em Galeano, aproveitem e (re)leiam “Las venas abiertas de América Latina”.

Noam Chomsky

Belen Fernandez: Despite sensational braying over the decades about the Cuban menace, Castro never posed a physical threat to the US. Rather, the danger always lay in the example he set, which exposed the possibility of challenging the pernicious self-declared US monopoly over human existence – and for which he merits remembrance as a hero”.

Francisco Louçã: “Com a morte de Fidel Castro, desaparece uma das últimas grandes figuras que marcaram o século XX. Dirigente da única revolução socialista vitoriosa no Ocidente, enfrentou o maior poder da nossa era, o de Washington, e resistiu a invasões e agressões militares, a inúmeras tentativas de assassinato, ao bloqueio permanente e a todas as pressões. Fidel sai da vida como um vencedor. À frente de um pequeno exército guerrilheiro, de apenas cinco mil homens e mulheres (só tinha sobrevivido uma dúzia quando desembarcaram do Gramna para iniciar a luta), conquistou Havana porque o povo não tolerava mais aquela combinação de ditadura e máfia dos casinos, a subserviência e a miséria que alimentava a corte de Fulgêncio Batista. A revolução cubana tinha essas raízes na esperança de uma vida digna e é por isso que, ao contrário de outros regimes, manteve uma base popular tão expressiva e se tornou um exemplo continental”.

Termino com a mensagem do Papa Francisco: “Ao receber a triste notícia do falecimento do seu querido irmão, o excelentíssimo senhor Fidel Alejandro Castro Ruz, ex-presidente do conselho de Estado e do governo da República de Cuba, expresso os meus sentimentos de pesar a vossa excelência e aos familiares do falecido dignitário, assim como ao governo e ao povo da sua amada nação.”

Não, Fidel, não foste/és unânime, felizmente. Nunca o quiseste ser. Mas o ‘Granma’ atracou e cumpriu-se. 

USA e Democracia: moral da história

Hoje, mais do que nunca, é dia de defender a Democracia. Certamente, não lhe cabe a culpa do que aconteceu. Aliás, e não há paradoxo nisto, o MEC tem toda a razão quando diz “A eleição de Donald Trump foi um triunfo da democracia e uma derrota profunda dos meios de comunicação social”. Foi um triunfo porque ela se cumpriu, no que ontem lhe foi pedido. Que respeitasse o voto popular.

Já a imbecilização do Povo, que conduziu a este inditoso dia, não é certamente culpa do sistema democrático. À imbecilização e marginalização a que foi votado, o povo respondeu da única forma possível, da única forma que foi “ensinado”, de forma imbecil e votando num marginal (digo marginal, no sentido pejorativo do termo). Ora, a Democracia é o “Governo do Povo, Pelo Povo, para o Povo”. Esta verdade de Lincoln não passou ontem a mentira. Aliás, mostrou-se em toda a sua pujança. Do, pelo, para. O sistema esqueceu-se, por demasiados anos, das três parcelas. O povo respondeu. O sistema não gosta, eu também não. Hoje contenho-me, porque apara além de estar meio em slow motion, quis acima de tudo ter a certeza daquilo a que já antes havia dito, mas agora com os resultados contados e a apontar noutro sentido. Esperava ter mais quatro anos para que os “líderes” percebessem que estas eleições iriam mudar tudo, ainda que Clinton ganhasse.

Do Povo, Pelo Povo, para o Povo. A culpa não morre solteira e este sistema tem caras muitas. A principal cara, os principais culpados foram os media. Não só “não cobriram esta história [sigam o link, que não se arrependerão], como vêm mascarando outras, anos após anos, décadas após décadas. Não só não “cobriram” a sistémica estupidificação do povo, como contribuíram, a par de dinastias e dinastias de elites, para ela. E, com tudo isso, fragilizando o Povo, fragilizaram a Democracia.

Tamanha foi a ganância do capital (e a ironia é mesmo ser um ultra-capitalista a liderar esta revolta), que ousou mandar para canto Bernie Sanders (o único que poderia evitar este dia). Diz’que é um perigoso esquerdista.

Do Povo, Pelo Povo, para o Povo. Esqueceram-se de que o Povo pode mudar. Que o Povo muda. Esqueceram-se de que o mudaram, mas nem lhes passou pela cabeça de que essa mudança lhes ia rebentar nas mãos. E não deram conta de que trump disse tudo o que “este” Povo queria ouvir (agora, que já tem os votos vai, claro, ignorar olimpicamente quem acreditou nas barbaridades que foi vomitando).

A Democracia começa em casa, continua nas escolas (em todos os níveis desde o primeiro), continua nos media (lá está). Não podemos educar os nossos filhos na inveja da galinha da vizinha. O que passa nas tv’s é lixo. Desliga-se. E o lixo acaba por acabar. E a Democracia continua por aqui e por ali e não há local onde não possa e deva ser exercida. Se o medo se intrometer, há que lhe fazer peito. E ele recua e acaba por sair. Porque em Democracia não pode haver medos.

Não podemos fazer reset e começar do zero. Primeiro porque não nos podemos esquecer da moral desta história, depois porque estamos muito abaixo de zero. E vai custar muito voltar lá acima, ao andar térreo. Mas não há impossíveis. Por mais difícil que possa parecer. O que separa o impossível do inevitável é a nossa vontade, a vontade de todos. E lá voltamos ao mesmo. Foi possível trump ganhar, temo que seja catapulta para a le pen alcançar igual, em França.

Vai só ser igualmente possível reverter isto. Não com as armas deles (sejam de fogo, sejam muros, sejam o medo), mas com a reabilitação da Democracia. E isso passa mesmo por todos nós. Estão assustados, com medo? Ou nos mexemos ou eles cavalgam a onda e só param quando o último democrata baixar os braços.

Era só, por hoje era só.