Ó Leonel, faz de Van Gogh

Estou a pensar em meter uma providência cautelar para impedir o Leonel Vieira de assassinar a memória. Bem sei que naqueles filmes, dos idos da ditadura, havia muito nas linhas; mas havia muito mais nas entrelinhas. E ainda que não.

Alguém diga ao gajo para parar de matar. Como se não bastasse o Pátio das Cantigas, agora pega no meu Leão da Estrela. Antes a morte que tal sorte. E, ó Leonel. deixa lá o capital do dinheiro fácil. Vamos fazer de conta que és realizador. Na verdade pouco me interessa o que faças. Ou o que és. Mas se estás mesmo numa de imitar, corta a orelha. Faz de Van Gogh.

Imagem: A self-portrait by Vincent van Gogh with a bandaged ear

Anúncios

Onde falo DE tudo e DO nada.

Hoje sinto-me cinza. Aquele momento de alguma conquista, depois de muita luta, mas em que olhamos à volta… e vê-se o que se vê. Na hora de relativizar, deparo-me com uma extrema angústia. Vejo, de nó na garganta, um povo de cerviz dobrada. Muita gente cinza. Gente doente de doente e doente de medo.
E o mar é da cor de quem o olha, sim. Um dia escrevi isso. Mas um dia também escrevi, no fim de uma prosa partida, “e uma gravata”; e um rainha-pensatriz acusou-me de ter roubado O’Neill. Nunca roubei ninguém. Nada a ninguém.
E ontem. Ontem, um ser-que-nada-acrescenta disse-me “quem te viu e quem te vê”. E pôs um “Lol” antes, para que não houvesse dúvidas do quanto se achava burro. Fez isto atrás de um monitor, claro.
Sim, mudei. Mas não da forma como ele diz. Talvez tenha mudado no momento em que lhe disse que feio era aquilo. Ainda o Sócrates era PM e já ele (pequenino) co-conspirava para o tacho seguinte. Havia que lutar por um futuro “seguro”. E diz que quem vive entre paredes de alumínio, não se desabitua. Basta entrar uma vez. E parece que não se sai de lá nunca. E, na verdade, já vi muita gente entrar. Nunca vi ninguém sair.
Votei em coisas terríveis, sim. E nunca me perdoarei. E a cada mudança anunciei de onde vinha, até chegar aqui. Ele, ex-deputado de encher bancada, não mudou em nada. E também nada mudou, votando ao ritmo da mola que lhe levantava o cu da bancada. E o que resisti a ligar-lhe. Ou a pegar no carro e ir até onde quer que seja seu novo tacho. Não para lhe bater. Mas para que mo dissesse nos olhos.
Hoje, a minha Estrela não tem cor. E não é pelos “eternamente não-gente” atrás ditos que o digo. A cor lá estará, mas ela é da cor de quem a olha. E hoje não vejo nada; ou então vejo coisas demais. Desde o óbvio feliz, de ver unido quem nunca devia ter estado separado. E de acreditar. Também a crença é nevoeiro, em dias de gente imperfeita.
Devo estar feliz algures em mim (e sei que estou), por tudo. E ainda mais com esta vontade (por que lutei) de contribuir com algo para a “minha” Academia que há que treze anos me acolheu. E, mais do que para com a UBI, “contribuir”, apenas. Apenas contribuir, no sentido pleno e absoluto da palavra, com algo meu. Palpável, por pouco que seja. Nunca me diria, anos atrás a “doutorar” por Angola.
Mas nesta hora, que se adivinhava feliz, parece que tudo se juntou, ficção e real, para (eu) me sentir incapaz (neste segundo) de honrar de tudo aquilo por que lutei. Mas já passa. Este texto ajuda. E sei que não vou desistir. Assumo-me e sorrio-me (hoje não consigo sorrir) imperfeito, e em luta aberta contra tanta perfeição.
Estou apenas cansado como nunca estive. Mas não desisto do que mais me move. Fazer do meu filho um homem melhor do que eu sou. O que quer que isso signifique para quem me lê.
Podia escrever para a gaveta, devia não publicar esta merda. Mas hoje, este dia feliz em bd transformou-se no dia mais… e chega. E vou publicar, redigo. Porque sim.
Oiçam o Chico e façam acontecer. Resistam a provocações e continuem a lutar. Deixou de haver eles e nós. Não podemos contribuir para uma espécie de guerra (civil) fria. Devemos ser todo um povo.
Contra “o medo de existir”, esse medo tão nosso, que o enorme José Gil tão bem desenhou. Eu estou apenas cansado. Nada mais será.
E o nosso mote será unir. Tem de ser. Somos apenas dez milhões. Eternamente dez milhões (e nem estou a descontar com os muitos foram expulsos por esta espécie de fascismo que por quatro anos nos expulsou as gentes). Não nos vamos foder uns aos outros, ou acabamos nós fodidos por nós próprios.
E, não vos quero acinzentar, mas estamos a viver uma III Guerra Mundial. Não convencional, como as outras. Hoje, acordei com um bombardeiro russo a ser abatido pelos Turcos (já escrevi sobre essa ignominia algures lá para trás, neste dia sem fim). E de imediato me lembrei da causa-ignição da Grande Guerra. O assassinato do arquiduque. Espero que a III GG não descambe em IV. Ou a V será à pedrada. E depois, as séries pós-apocalípticas poderão ser vistas ao vivo. Sem pagar mensalidade.
Paródia, não é? Já o foi menos. Creiam no Amor, mas não olhem de alto quem odeia. Ou vamos todos beber água a Marte. Não faltará quem a queira engarrafar, assim como não falta quem nos engarrafou.
Lutar; continuar a lutar. E este texto parece um Canguru, de tanto que salta. Para já, serve-me de placebo.
Devemos aos nossos filhos essa coisa de ousar ser gente.
E a nós, caramba. E a nós. Mas esta merda não está a ser fácil; no que me toca, deixo este texto como prova.

A voz vai ouvir os donos

cavaco agenda

No dia 4 de Outubro houve eleições legislativas. Composta a Assembleia da República, derrubado o Governo minoritário e apresentada uma maioria de esquerda disposta a sustentar um Governo do PS (e há que recordar que foi cavaco o primeiro a alertar para a necessidade de consensos), o pr resolveu escapar-se para a Madeira, donde já foi mandando umas escarradelas na CRP, ameaçando com a manutenção em gestão do Governo constitucionalmente rejeitado (não acredito que o faça, mas se assim for, encontramo-nos na curva).

De regresso ao continente, quem é que ele vai ouvir? Se pensaram democrático erraram. Não vai ouvir os partidos, nem o Conselho de Estado. Vai ouvir os bancos. Afinal, só há voz do dono se houver dono da voz.

Portugal não pode estar refém de alguém que limpa o rabo à Constituição

Artigo 195.º da CRP

Agora a Constituição já não lhes serve; a mesma que até terça-feira lhes enchia a boca. “Estou inteiramente disponível para dar o meu apoio a uma revisão constitucional extraordinária que garanta a possibilidade de o Parlamento ser dissolvido para que seja o povo português a escolher o seu Governo”, disse Passos Coelho esta noite numa sessão com militantes, em Lisboa [Público].

Basicamente, a criatura quer rever a CRP em dois ou três dias (coisa que raia a indigência mental, vindo dum governo de gestão, e sendo certo que teria de contar com o apoio de grande parte da esquerda que o derrubou) para que passe a ser possível, ainda em tempo, o cavaco dissolver a AR (o que não pode fazer agora por estar nos últimos seis meses de mandato).

Muito viável, sim. O láparo continua a atentar contra a inteligência dos portugueses; e isto é já o desespero completo. Clara manobra de diversão, em forma de tentativa de anúncio de fraude à lei; que a CRP não se muda assim.

Passe a caricatura, continuo a defender que a estupidez (o nosso equivalente ao petróleo) devia pagar imposto.

Por falar em estupidez, e avanço agora para o cerne deste artigo, o cavaco em Belém (dizem os jornais, embora a agenda do dito seja omissa; e os jornais sabem o que os assessores do cavaco lhes sopram) vai estar ausente na próxima semana. Diz que vai à Madeira; ignoro se é ou não manobra de diversão, para espicaçar os mercados para baixo e os juros da dívida pública para cima.

Vamos dar de barato que cavaco vai mesmo à Madeira, que não há nada de urgente a tratar por cá.

Portugal que espere.

Vem-me à mente um episódio do Seinfeld, em que o George, despedido, mas aproveitando uma semana de férias do patrão, continua a ir trabalhar. Como se nada fosse. Tipo o “nada foi” deste governo de gestão perante a moção de rejeição, e que hoje resolveu desatar a decretar contra legem.

Haja um módico de decência. A moção de rejeição passou. Os efeitos são os que são (vide imagem).

A ida do Cavaco à Madeira nesta altura, a confirmar-se, é uma cuspidela no Estado Português; um claro esperar que os mercados e as agências de rating comecem a pontapear os juros da dívida pública, para depois vir dizer… “desde a queda do Governo assistimos a uma reacção dos credores que eu, como presidente, não posso ignorar, e portanto…” sei lá que mais vai dizer o espécimen (a maldade não tem limites).

Constitucionalmente, ele só pode fazer duas coisas (para além da mais legítima, nomear António Costa Primeiro-Ministro): manter o governo em gestão (com o que alcançaria o objectivo atrás referido, pôr os credores a rasgar as vestes); e obviamente que os mercados e suas noivas fariam o respectivo e habitual papel; ou formar um governo de iniciativa presidencial (o que daria o mesmo efeito do entre parêntesis anterior).

Nos termos do n.º 1 do artigo 129.º da CRP: “O Presidente da República não pode ausentar-se do território nacional sem o assentimento da Assembleia da República ou da sua Comissão Permanente, se aquela não estiver em funcionamento”. Não a tem para ir a Angola, mas não carece dela para ir ver das cagarras. A cominação vem no n.º n.º 3: “A inobservância do disposto no n.º 1 envolve, de pleno direito, a perda do cargo”. Este parágrafo é apenas para ilustrar a maldade do sujeito.

Também eu penso que a CRP deve ser revista, sim.

É que actualmente, o presidente, fora o caso atrás referido, não pode ser demitido. Pode renunciar ao cargo ou pode (estou a ser objectivo) morrer. O artigo 127, n.º 3 da CRP, estabelece que “No acto de posse o Presidente da República eleito prestará a seguinte declaração de compromisso: Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa”.

Não está vertida na lei, de forma explícita, qualquer consequência para o incumprimento do juramento.

Temos, é certo, o artigo 130.º, sob epígrafe responsabilidade criminal (e o salto do incumprimento do juramento para aqui não é simples). Nos termos das nomas ínsitas no artigo “1. Por crimes praticados no exercício das suas funções, o Presidente da República responde perante o Supremo Tribunal de Justiça; 2. A iniciativa do processo cabe à Assembleia da República, mediante proposta de um quinto e deliberação aprovada por maioria de dois terços dos Deputados em efectividade de funções; 3. A condenação implica a destituição do cargo e a impossibilidade de reeleição”.

Se a viagem à Madeira, por si só, não representa um crime (por se tratar de território português não carece de autorização, pelo que não está incumprindo o artigo 130.º atrás referido, que apenas puxei para fazer prova politica da notória vileza); as consequências da dita viagem, com os objectivos notórios de adiar a decisão e puxar os juros para cima, configuram-no claramente. Embora seja muito complicado fazer prova da causa-efeito e do dolo do “presidente”. É politicamente notório, sim. Não o é juridicamente.

A solução, para cavacos futuros, passa por completar a norma do juramento. Mas completar mesmo muito. Encher aquele artigo de alíneas cominatórias, para o caso de quebra do dito juramento.

Uma coisa é segura, se o novo Governo não for o do PS apoiado pelo BE e pelo PCP, e caso venha a ser de iniciativa presidencial (que nunca passaria na AR), ou de manutenção do actual Governo em gestão até à tomada de posse do próximo Presidente da República (com todos os danos que isso causaria ao país), cavaco deveria responder criminalmente pela sua decisão. E poderíamos usar as palavras do dito, aquando das inúmeras chantagens, pré e pós-eleitorais, quando alertava para a necessidade de um Governo com apoio maioritário no Parlamento (o que agora é viável), e das consequências de tal não acontecer, para fazer prova do dano intencional para a República  Portuguesa em que se traduziria a nomeação de um Governo que não o do PS, com o apoio da Esquerda.

Não estivesse a iniciativa do processo dependente da “deliberação aprovada por maioria de dois terços dos Deputados em efectividade de funções”, eu mesmo avançaria com a queixa-crime (o que farei seja como for).

Em suma, se há algo para mudar na CRP são as consequências da quebra do juramento do PR. Ou isso ou abandonamos de vez o semi-presidencialismo e nos entregamos ao parlamentarismo, em qualquer uma das suas formas. Mas eu não vejo nada de bom nisso, prefiro de longe a primeira opção e um Presidente da República que não se limite a ser um líder de facção.

E ora termino, este homem foi tudo (é tudo) menos Presidente da República. E prepara-se para (se) terminar sem se trair. Temo que se prepare para dar um nó cego no número 1 do artigo 187.º da CRP, que lhe impõe nomear António Costa Primeiro-Ministro. O mesmo artigo que lhe impôs nomear o ora derrubado coelho. “1. O Primeiro-Ministro é nomeado pelo Presidente da República, ouvidos os partidos representados na Assembleia da República e tendo em conta os resultados eleitorais

Espero estar enganado. Espero que o homem tenha uma réstia de decência, e que para a semana faça o que tem de fazer.

O que quer que aconteça, a nível de mercados e de agências de rating, até à nomeação do novo Primeiro-Ministro, António Costa, é imputável apenas a cavaco.

Na agenda do cavaco, vejo o seguinte, sem viagem à Madeira anunciada, mas com tudo menos o que é necessário para nomear António Costa. Amanhã vai receber, em, em audiências, a Associação das Empresas Familiares, o Fórum para a Competitividade, a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP-IN), o Presidente do Conselho Económico e Social, e a União Geral de Trabalhadores (UGT).

Em suma, ou este farrapo de homem começa a cumprir aquilo para que foi eleito (já na sexta-feira); ou entra claramente em ilícito constitucional e penal. E aí terá de ser a doer. Portugal não pode estar refém das peregrinas vontades de alguém que limpa o rabo à Constituição e ao Estado de Direito Democrático.

Abril em Novembro

“Não é todos os dias que se sai do Governo com o voto do eleitorado”, dizes, engolido pelo teu veneno. É certo, não é todos os dias que tal acontece. É preciso ser demasiado vil e infecundo. És um rei midas da morte. Transformas em cinza tudo aquilo em que tocas.

Mas foi mesmo “o eleitorado” que te  pôs um pé no rabo. Imagino que, na tua azia, te estejas a referir ao “teu eleitorado”, esquecendo aqueles que votaram em quem agora te expulsou. O povo é uno. Não existe isso do teu “eleitorado”. Assim como ninguém votou em ti para Primeiro-Ministro. Tens uma imensa dificuldade em entender o que é viver em Democracia; em percepcionar a Constituição. Nunca te habituaste a viver num Estado de Direito Democrático. Teve de ser “o eleitorado” a ensinar-te. E só tu e o teu líder de facção conseguiriam unir a Esquerda. Espeta essa medalha bem fundo no peito, para que não te esqueças. Para grandes males, grandes remédios. Eu preferia que não tivesses sido necessário, mas assim foi. E não te agradeço.

Bem tentaste fazer da Constituição letra morta, Orçamento após Orçamento, mas, apesar de vil, és pequeno demais para isso. E foi a Constituição, que insultaste dia após dia, todos os dias, durante quatro anos, que te pôs no lugar. Podes chamar-lhe, a esta tua entrada na História, “a resposta de Abril”. E podes continuar a ameaçar vingar-te, vingar-te do Povo (é exactamente isso que ameaças, porque quem te rejeitou não se elegeu sozinho).

Tomaste-nos a todos por idiotas, e também eu cheguei a descrer (mea culpa). Menosprezaste a Cidadania e o respectivo exercício. A nossa vingança não será uma vingança apontada a ti. Abril vingará; e começa agora o trabalho de mais uma vida. Recuperar o que destruíste. E levará bem mais do que quatro anos. Guarda essa vil vitória para as noites de insónia; e alça um sorriso amarelo. Mas não te devias mesmo esquecer desta lição de hoje.

Sob pena de a História voltar a pedir a palavra.

Mudou a hora. E eles aguentam; “ai aguentam, aguentam!”

É preciso ter lata. O paf diz-se agora salvador do Estado Social. É de quem não vive neste país e faz do “é verdade”, “muito bem”, “ora aí está”, pateados no Parlamento, o seu argumentário político e ideológico. Não vos peço para irem perguntar de vós aos vossos mortos-matados, gente que já só o é em lápide e em memória.
Foi a troika? Vocês foram os kapos. Não aguentam o vosso “nuremberga”? Não aguentam perder as vossas avenças?
Ai aguentam, aguentam!
A Democracia (e não o vosso dono) assim o exige. Chega da vossa caridadezinha em forma de remendo; cambada de isabeis jonets. Solidariedade não é dar milho aos pobres. Não é ordenar que vivamos de poc’s e de estágios improfícuos.
Amanhã vexas saltarão da cadeira.
Sabem a que se reduz o vosso Estado Social? À crença na Sociedade Civil. À crença na partilha do pão; isso é o vosso Estado Social. Em termos de Advocacia, sabem em que se traduz isso? Em pro bonos uns atrás dos outros. Em oferecer os meus serviços. Em permitir que mos paguem em prestações. E faço-o como Cidadão. Mas não me queixo de ser Advogado, de me cumprir. Faço-o, embora também eu precise de pão (mas eu cá me vou arranjando, sem me vender). O problema, o grande problema, é que toda a gente que eu e os meus Colegas ajudamos não deviam estar dependentes dos nossos Princípios. Ou da ausência vossa deles. De um mero acaso. Toda essa gente não devia ter vergonha de existir. Vocês os obrigaram a algo semelhante.
Sois uma vergonha. E amanhã serão julgados pelo Povo, pelo resultado do voto do Povo. Cambada de miguéis de vasconcelos. Não sereis defenestrados, porém. Apenas mudarão de lugar. Direitinhos para de onde nunca deviam ter saído.

Mais uma coisa, antes de terminar. Não me queixo de quem votou em vós. Mas não se queixem, vocês e o vosso homem em Belém, do meu voto. Não me insultem; não insultem um milhão de votos (BE+PCP). O destino assim as traça, vocês serão tudo menos gente, mas há gente (gente!) que em vós votou. Também com essa boa gente discuto, e saudavelmente discordo. Não há paradoxo disto. Eles me me disseram deles, e eu de mim. Nenhum me insultou e eu não insultei ninguém. Não vou ao ponto de dizer que o meu voto vale mais do que o deles (o cavaco disse isso do meu voto). Creio (creio!, não sei!) que vos olham como o mal menor. Eu não acredito em males menores. O que vos diferencia de muita da gente quem em vós votou é simples. Eles não gostam e temem o que se avizinha, mas respeitam. E aguardam. Vocês (os eleitos) não, vocês salivam raiva. Ódio. Essa é a vossa única ideologia; que nem que marrassem de frente com a direita a reconheceriam. Sois pelo umbigo; pelos números. Nada mais.

E agora aguentarão a Democracia. Não a respeitam. Não a percebem (vide imagem). Mas aguentam. “Ai aguentam, aguentam!” — soa mal, não soa? Pois soa, mas não é frase minha. E será o vosso querido líder em Belém a formalizar essa exigência Democrática (está na Constituição desde 1976). Isto não é uma guerra de umbigos nem de tachos. E, sem ironias, estas palavras vão dedicadas àqueles que em vós votaram, não aos que o fizeram porque faz parte da função de quem vive entre paredes de alumínio; mas aos outros. Gente que apenas teme. Também eu temi. Também eu temo. Também eu não tenho certezas. Também eu sou arrogante ao ponto de ser humilde.

c.ia. later…

Shaker Aamer foi libertado a semana passada de Guantánamo. Foram 14 anos de detenção ilícita e contra todas os tratados internacionais. Mas que digo eu? Os usa e abusa são o direito internacional. The fucking good cop.

Com excepção da Rússia e da China (malta fixe, conhecida pela defesa até às trincheiras dos Direitos Humanos), ninguém ousa dizer um ai contra o país recém-desmamado, que usa o planeta como chupeta. Fazem e acontecem. Uns e outros e outros e uns.

Também há uns quantos índios sul-americanos que dizem umas verdades. Uns Mujicas bons para museu e para o bom esquerdista citar no facebook. Quarto mundo, pá. Se exagerarem, mandamos uns marines plantar-lhes “democracia da boa”. Seria para aí a centésima décima primeira vez. Olha como está a ser fácil com a Dilma; e sem marines.

Era como se de repente eu pegasse numa picareta e começasse a deitar abaixo o prédio. Depois, ainda brandindo a picareta, bastava queixar-me do cheiro a chamuça e dizer algo como “ainda o tentei apanhar, mas o monhé escapou-se-me”.

Problema resolvido. Afinal, sou branco e europeu (do sul, mas de confiança, c’o meu governo é dos que aprende e obedece rápido) e eu até tenho nariz de judeu.

Shaker Aamer esteve preso e foi torturado durante apenas 14 anos. Apenas todos aqueles mais de cinco mil dias. Tem cara de terrorista. Nome de terrorista. Ergo…

E atentem num pormenor, para mim tão obscuro como os mercados que nos incapacitam, até o w.bush “recomendou” a sua libertação. Obama também o fez, salvo erro (apenas uma vez) em 2010.

Atentem bem, os dois últimos presidentes americanos recomendaram a libertação de Shaker Aamer.

Mas a quem, porra? Eles não ordenaram; recomendaram. Passe algum lost in translation, a ideia é esta. Aquela coisa entre o Canadá e o México vai em piloto automático. Os presidentes mandam porra nenhuma, o congresso manda porra nenhuma.

Que aglomerado de gentes é aquela, então? Ninguém sabe; nem eles; mas todo o planeta, com excepção de duas ou três aldeias gaulesas, dizem que sim. Oh yeah!

Obama prometeu fechar aquilo durante o primeiro mandato. Depois terá descoberto que o Presidente dos USA não está no top-100 dos homens com a chave na mão. Stalin era uma besta per se. Obama nem que o quisesse poderia sê-lo.

E então? É indiferente ter um democrata ou um republicano no poder? Não, não é. O sistema dos usa apenas aguarda um bush menos w.onky.

E será o fim do mundo em cuecas de elástico.

Shaker Aamer foi libertado a semana passada de Guantánamo. Torturado todos os dias, Acusado de nada. Agora não sabem o que lhe fazer. Epá, mandem-no para uma embaixada sul-americana qualquer, num país civilizado qualquer. A do Equador em Londres, que já está habituada, ou algo que o valha.

Os judeus receberam carta-branca para foder o médio oriente. Israel, “O homem deles em Havana”. E a Palestina está condenada a levar com os sionistas por mais um milénio, até que os consiga matar todos. Uma grande Gaza. Lembram-se de Gaza? Já passou, certo? Já não dói. Busquem notícias da Gaza esquecida. Mais depressa encontram o homem da Atlântida. A propósito, faz hoje 20 anos que Yitzhak Rabin foi assassinado. Como cia, perdão, como seria se ele não tivesse morrido?

A cia deitou abaixo as torres (tonteria esqueçam; uma entidade tão distinta e tão benquista nos filmes made in usa) e tudo quanto cheira a caril pagará a ignomínia.

Juntaram-se três fantoches nos Açores, servidos por um mordomo-tuga-ex-mrpp a quem deram de gorjeta dez anos de poder supremo na CEE (ó supremacia) e bute lá criar o isis.

O Che é que era um mau, até lhe terem espetado com uma bala de prata made in… (sim, adivinharam) e lhe terem cortado as mãos (true story, a parte da mutilação post mortem e a da cia também; a bala de prata foi porque os vampiros estão na moda).

Mas o planeta é azul e tudo vai bem, entre bênçãos e exorcismos. Bute cantar cenas tipo “we are the world we are the children”. E dar milho aos pobres. Não esquecer. É urgente dar milho aos pobres.

E fechar os olhos. E ser felizes. Quando rebentarmos com este, vamos para Marte, onde a água é fresca.

That’s all folks.