Só sei que tudo sei [30.05.10]

Dia-sim, dia-sim, vou além da minha taprobana, a mesma que decidi ser a vossa – e o mínimo que vos exijo. Quem se devia do meu virtuoso pensar, reconhecido por sondagens à boca-de-urna, leva com a guilhotina que cai de forma selecta do meu mui douto umbigo. Pára!, devias ter vergonha dessa letra, dessa maiúscula, desse ponto que puseste final [.], quando todos os pensantes (eu) o sabem ponto e vírgula [;]. Faço provedoria take-away porque sou boa pessoa e me envergonha o vosso existir (a notório meio-metro do meu) – doses e meias-doses, para quem queira saber tudo ou apenas metade. Sou o remédio óbvio e necessário ao mundo que se desvia do trilho que me dei ao trabalho de (vos) traçar. Nunca erro e quando me engano logo integro o desacerto no livro de estilo do meu pensar – como se sempre lá tivesse estado. Se tropeço numa pedra, foi a pedra que tropeçou em mim. De longe em longe, penso que talvez tenha mal traçado, mas o orgulho do Adamastor que me faz (ou eu a ele) impede-me de deixar avançar além o ser ralé – ou aquém, depende da perspectiva. Sou o Houaiss universal. Certo que nem cebola suíça, digo: quem não vai por mim, não está cá bem (no mundo). Existo para além da montra, assim mo digo. Quando acordo, ouço a voz iluminada e trovejante que me impele: além, escolhido, além. Pastoreia-os!, és a luz!
“Quando alguém diz que já sabe, eu já tenho uma imensa discordância em potência”, Christopher Hitchens, “Pessoal… e Transmissível”

Rafael Marques

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O cúmulo da ignomínia, da sordidez, da cobardia, da suprema filha-da-putice. Não foi Angola que condenou Rafael Marques. Foi o regime cleptocrático angolano que o fez. Os Dos Santos e seus generais, vampiros do povo. Angola é o povo a que Rafael Marques dá voz. Esse, um dia condenará, sem apelo nem agravo, quem agora condenou Rafael Marques. E não terei pena e nada sentirei como exagero. Por mais cabeças que acabem espetadas em paus. A condenação de Rafael Marques, assente num tecnicismo processual que é a cara chapada do regime angolano, não será esquecida. A traição ao Direito e ao Homem não serão esquecidas. Como advogado sinto-me insultado. Como homem sinto-me pisado na essência. Dói-me até ao âmago do que faço por ser. Não imagino o que o Rafael estará a sentir. Espero que consiga conter o ódio e a raiva. Eu não consigo. Hoje, não consigo.

Crónica onde digo que o Krugman não tem a categoria dum camilo lourenço

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As crónicas do Paul Krugman, no NYT, são absolutamente imperdíveis (assim sendo, não as percam, que o tipo até põe música). Não tem o currículo de um vasco pulido valente, é certo (lá não há Gambrinus). Nem tampouco a “eloco-sapiência” dum josé gomes ferreira, que deve estar para ser anunciado pelo marinho & pinto como ministro-sombra para a fazenda. Também lhe falta a coerência e a experiência de vida do miguel sousa tavares y sus contentores. O Krugman é um jovem em início de carreira, a quem saiu na farinha amparo o Nobel da Economia, ou lá o que foi, e que ontem escreveu esta coisa (cenas de putos), também dedicada aos “IFKAT — the institutions formerly known as the troika“, sob o título “Grexit and the Morning After“.

A parágrafos tantos diz assim:

“But the bigger question is what happens a year or two after Grexit, where the real risk to the euro is not that Greece will fail but that it will succeed. Suppose that a greatly devalued new drachma brings a flood of British beer-drinkers to the Ionian Sea, and Greece starts to recover. This would greatly encourage challengers to austerity and internal devaluation elsewhere.

Think about it. Just the other day the Very Serious Europeans were hailing Spain as a great success story, a vindication of the whole program. Evidently the Spanish people don’t agree. And if the anti-establishment forces have a recovering Greece to point to, the discrediting of the establishment will accelerate.

One conclusion, I guess, is that Germany should try to sabotage Greece post-exit. But I hope that will be considered unacceptable.

So think about it, IFKATs: are you really sure you want to start going down this road?”

O Krugman diz o óbvio. A Alemanha teme o Dracma mais do que a Grécia (mais do que Grécia teme o Dracma e mais do que a Alemanha teme a Grécia, entenda-se). Para além de perder um cliente, arrisca-se a perder outros (pequenos países como a… Espanha). E, como se não bastasse, ainda se arrisca a que a Grécia funcione. Vamos ser claros. O Governo Grego não ama-de-amor-perdido a saída do Euro. A Grécia passará um mau bocado… mas, espera, a Grécia já está a passar um mau bocado. Pior é possível? É impossível? O futuro o dirá. O que não é possível é sobreviver assim, com a pata em cima.

O Tsipras e o Varoufakis têm o dedo no botão vermelho. Ou acham que se não fosse assim o schäuble não teria já posto a Grécia andar? Com o Grexit o euro rebenta. O resto é propaganda dos soldados do capital. O sorrisinho de escárnio laranja, sempre que me perguntam “e então a tua Grécia?”, nunca me irritou. Pelo contrário. Dá-me imenso gozo sorrir-lhes de volta, com meia-dúzia de factos à mistura. A resposta deles vem asinha e nalguns casos roça o ódio: “és um intolerante” [que fique claro que ao escrever isto tenho pelo menos meia-dúzia de pessoas em mente]. Mas a “minha Grécia” está no bom caminho. Quem me dera ver assim este meu Portugal. Mas o medo instilado no Povo não o vai permitir tão cedo. Iremos a reboque do que for. Como sempre, aliás.

E era isto. Leiam o Krugmam, que o puto, apesar do currículo limitado, tem estilo. Mas redobro o alerta: o Krugman não tem, sejamos claros, as vaidades imaculadas da intelligentsia destro-tuga. Não tem instrução, o saber, o estudo de um camilo lourenço, que vai às manhãs da ritinha ou lá o que é, ensinar a tabuada ao zé-povinho.

Em tempo: aqui há dias disseram que me perco em sarcasmos e ironias, e que às tantas fica complicado saber quando falo sério. Tomei-o como elogio e até agradeci.

Democracy is a bitch

Agora, PSD e CDS estipulam que em todo o período eleitoral os debates “obedecem ao princípio da liberdade editorial e de autonomia de programação dos órgãos de comunicação social”. Mas terão que encontrar um modelo que, “no mínimo”, inclua a participação “das candidaturas das forças políticas já representadas no órgão cuja eleição vai ter lugar e que se apresentem a sufrágio, ou daquelas candidaturas que sejam por estas forças políticas apoiadas”. [Público]

Esta é, definitivamente, a melhor maneira de matar à nascença os novos partidos. De evitar Podemos e Syrizas. Os Caution Democracymedia televisivos privados estão-se obviamente nas tintas. Vão dar tempo de antena a quem a lei obriga e… ao partido do marinho & pinto (a política de faca e alguidar vende). É de audiências que eles tratam.

Mas o Estado de Direito Democrático (cada vez mais letra morta, e por isso mesmo, cada vez mais presente em mim) tem de se impor à ditadura das televisões privadas. Obrigá-las a dar igual representatividade a todos os partidos não é uma espécie de censura ao contrário. É Democracia.

Só com Democracia se pode zelar pela Democracia. Quero ouvir todos os partidos. Um por um. Quero ter a Liberdade de não os ouvir. Quero um debate com todos. E poder mudar de canal. Excluo o que a Constituição (é uma cena que não dá audiências) exclui e ainda o pnr, fascistas estatutariamente encapotados, mas que já deram demasiadas provas de estarem contra legem.

Dos partidos da actual maioria espero nada. Melhor, espero o que já são. E que esta proposta bem demonstra. Estão bem como estão. Sabem perfeitamente o que o sufrágio democrático lhes pode retirar. E o sufrágio não se resume ao dia, mas às condições criadas para o livre exercício do direito de votar. E para estes seres, a Democracia é só aquele bicho que nos obriga a parecer.

A Liberdade não se coaduna com quem tem como Princípio declarado limitar essa Liberdade. E a isso se resume isto, em forma de proposta da coisa que nos governa.

Voltando aos media televisivos privados. Que se lembrem do óbvio. Agora dão-vos esta espécie de liberdade. Um dia, também por decreto, remetem-vos ao silêncio. Conforme os apetites do ditador de cada hora. O que este arremedo de democracia vos concede, a ditadura anunciada pelo vosso silêncio vos retirará. A História assim o garante.

Entendo perfeitamente as agruras de remeter uma telenovela para desoras. E nem imaginam o quanto lamento que a Democracia vos obrigue, por escassas horas, a não deseducar o povo. Bem sei dos berros dos vossos anunciantes. E lamento que alguém possa ousar limitar-vos a liberdade de expressão. Sei o quanto prezam a máscara que ela vos oferece para, em liberdade, exercerem a censura. Mas vocês sabiam do contrato que assinaram. Ou não? Mais vale uma multazita, não é?

E sei do título com que encimo este artigo. Por isso o assino e de seguida o publico.

Aguardo que o PS, o Bloco, o PCP e os verdes se pronunciem sobre esta infâmia. Se isto for para a frente, com a abstenção/silêncio dos quatro partidos atrás referidos teremos a prova final, à esquerda e à direita, do apodrecimento do regime.

Glezos: “Vamos dizer a estes tubarões que não temos mais sangue para lhes dar”

“O infoGrécia traduziu o apelo lançado hoje por Manolis Glezos. O eurodeputado do Syriza e histórico resistente ao nazismo defende que a reacção dos gregos ao “sufoco” provocado pelos credores deve ser tomar as ruas e não deixar o governo recuar no braço de ferro das negociações”.

Glezos

Sufoco!

Só esta palavra pode descrever o que os chamados “Parceiros” Europeus têm andado a fazer nos últimos quatro meses à custa do nosso povo e do nosso governo, com o aplauso constante dos seus aliados nacionais. É como se tivessem enfiado um saco de plástico na cabeça de cada cidadão deste país, desde que o povo grego ousou levantar-se e dizer: Basta!

Todos os dias ouvimos a troça vinda de cima. Todos os dias nos chegam afirmações pérfidas, com a certeza de que apenas uma voz merece ser ouvida, uma voz que tem a sorte de pertencer a alguém Muito Poderoso (ainda que corrupto) da Alemanha, a alguém mui venerável (mas capaz de viver feliz num paraíso fiscal) do Luxemburgo, a um respeitável francês (ainda que desprovido de espinha e com tendência para se esquecer das coisas), ou a um vigarista dos Países Baixos, especialista em ajoelhar-se diante do Muito Poderoso.

Olhem para esta Europa e para estas “instituições”!

Mas então e nós? Que faremos nós? Que fará o povo grego? Ficaremos em casa, passivamente, a ver televisão, na esperança de que a calamidade que afecta todo o nosso país não nos bata à porta?

Lamento estar longe da Grécia, desta vez. Mas lamentarei ainda mais se, amanhã, não vir o povo tomar as ruas com toda a sua dignidade cheia de raiva transformada em acção política dirigida contra aqueles que planeiam a sua destruição.

Temos o dever para com as gerações futuras de dizer a estes tubarões que nos surgem como credores que não temos mais sangue para lhes dar. Vamos para as ruas dizer ao nosso governo que estamos do lado deles, mas só se não recuarem um passo.

Em meados do século I da nossa era, um daqueles cujo nome não ficou gravado na história disse assim: “enquanto a memória da liberdade viver na mente das populações escravizadas, elas procurá-la-ão e resistirão. Mas quando o mal vence, as pessoas deixam de acreditar que o possam afastar, e resignam-se a acomodá-lo nas suas vidas. Nesse momento, a destruição é completa”.

Companheiros gregos, agora é o momento de mostrar a toda a gente que guardámos a memória da liberdade, a ideologia da resistência.

Bruxelas, 22 de Maio de 2015

Die Zeit’s Q&A on Dr Wolfgang Schäuble

“Do you think Mr Schäuble makes mistakes in his analysis of the Greek situation? If yes, which ones?”
Como era de esperar, a resposta do Varoufakis deve ter-se perdido na tradução…

Yanis Varoufakis

Die Zeit, the German good quality newspaper, asked me three questions on Dr Schäuble. I obliged them with the answers that follow. (Predictably, some news outlets went out of their way to distort them. Such is life these days…)  

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