Do meu voto útil no Bloco

Voto Útil

Enquanto o paf anda de crucifixo na mão a tentar sacar os leitores que perdeu, o PS dedica os últimos dias de campanha a tentar convencer as gentes que é mesmo esquerda, contra todas as aparências.

Não me esqueço do ar paternalista do Costa, no debate em que foi cilindrado pela Catarina Martins. Se dúvidas tivesse (que não já não tinha, graças aos últimos quatro anos), ficaram ali resolvidas. Tinha-me prometido que só voltaria a estes assuntos em último caso. Pois bem, estamos em pleno “último caso”. Quem optou por votar PS resolveu (coisa que não discuto, não recrimino e entendo) repristinar a falácia do “voto útil”.

Assim sendo, está aberta a porta que me (auto-)impedia de escrever sobre este tema. Não me passou nunca pela cabeça não apelar ao voto na Joana Mortágua em Setúbal, no José Manuel Pureza em Coimbra, na Mariana Mortágua e do Pedro Filipe Soares em Lisboa, na Catarina Martins no Porto. Não era essa a questão. Não é essa a porta de que falo, que talvez estivesse melhor fechada.

A porta que se me abriu não é, pois, esta, certo de que não há homem ou mulher de esquerda que imagine um parlamento sem esta gente. Mas se é de voto útil que querem falar, vamos a isso.

Não voto condicionado por um sistema eleitoral cujo método de “selecção” pretende reduzir a zero o meu voto. Votar útil não é votar PS “por exclusão dos outros que são tão bons, mas”, embora também conceda que haja mulheres e homens de esquerda que votam PS como primeira opção; e não como alternativa subjugada ao sistema.

Se a porra do sistema eleitoral e das gentes precisarem de um abanão do tamanho de “esta porra que nos governa ganhar de novo”… pois que seja. E cá estaremos. Os de sempre, os que ousam ser cidadãos mais do que em dia de eleições.

Não me minimizo à esperança de o Costa conseguir convencer o aparelho a dizer sim ao desafio que a Catarina Martins lhe lançou — a hipótese de um acordo de governo pós-eleitoral. Mesmo porque o Costa jamais conseguirá convencer o aparelho disso; quem lhe dera convencer os “seguristas” de que ele, Costa, é o melhor para o PS. Basta atentar nas declarações dum tal eurico brilhante dias, “Teria gostado mais de Seguro candidato a primeiro-ministro” [A latere, ainda hoje estou para perceber como um vazio tamanho, como esse seguro reverso da medalha do coelho, consegue ter seguidores; só o tacho pode explicar]. Este tipo, brilhante de nome, vai ser certamente deputado. Ele e aquele imenso meio de bancada parlamentar não-falante, feito de presidentes de federações-cacique, de candidatos a presidentes de Câmara derrotados. A nata da nata da merda. Verbos de encher que nem verbos são. Só enchem cadeiras e carregam no botão que (e quando) o rei manda. Tal como acontece no paf.

Não, não vou dar para esse peditório. Nem vou deixar de apelar ao voto nessoutra gente muito útil à esquerda, mas que na hora do voto passa para segundo plano. Como se a respectiva eleição fosse certa e segura. Não o é. Não tão segura como a do zé manel dos anzóis, tio do primo do avô que tem o PS na mão, e que vai em lugar não-sei-quantos por Lisboa ou pelo Porto.

A minha ideia era esperar calmamente, atacar o que nos corroeu neste últimos quatro anos. Era e mantém-se; quero que isto que escrevo seja a excepção. Sucede que o Costa pediu ao PCP e ao BE para pararem de atacar o PS. Haja vegonha, porra. Que para falta dela basta quem lá está.

Se o Costa pretendia uma esquerda unida à sua volta devia começar por fazer política de esquerda, devia ter começado por aceitar dialogar com o Bloco (a CDU continua estupidamente arredia a isto) antes das eleições, afastar a vilanagem que corrompe o partido. Aí a música seria outra.

Ainda não foi a este líder do PS que saíram os tomates de ousar exercer-se como o que um PS de esquerda deve ser. Ainda que contra 30% do partido que encabeça. E não podendo tanto, ir a votos na mesma, e perder de forma escancarada. Se assim tivesse de ser. Estas eleições são as mais importantes, sim. Depois das próximas.

Razão tem aquela mulher que ontem fez o favor de calar o jorge coelho, esse líder aparelhista. “Sofremos de síndroma de Estocolmo”. No final, algo que as televisões resolveram não passar, para dar a ideia que se tratava de uma louca que tinha irrompido campanha adentro, ela apelou ao voto no PS. E fê-lo com a certeza e denodo que não vejo nem nos líderes nem em muitos dos demais votantes neste PS.

Sofremos de síndroma de Estocolmo, sim, e afeiçoámo-nos aos nossos captores. Já vivi isso, sofri disso na pele (embora mais por ignorância do que por devoção); votei em gente indizível, mas a cada momento disse de onde vinha, antes de encetar novo caminho. Hoje, e neste hoje incluo a luta de parcos oito anos, sei exactamente o que pretendo. Cumprir o artigo 2.º da nossa Constituição, e contribuir para que devolvam o Estado de Direito Democrático ao Povo. Se este tarde cá cheguei me desculpa? Não, certamente. Mas serei eu a julgar-me a cada dia.

Ciente das minhas imperfeições, no meio de tanta perfeição, ouso apenas exercer-me Cidadão. Na rua, aqui, em todo o lado por onde passe. E por isso voto no Bloco, assim como poderia votar na CDU (coisa que farei quando esta se resolver abrir a outras esquerdas) e escrever estas mesmas palavras.

Sou visceralmente de esquerda, demorei a chegar a esta razão e não arredo dela. Não termino sem agradecer ao Livre, capital e arrabaldes da esquerda caviar, ter-se expurgado do Bloco, doutra forma não poderia votar como votarei. Doutra forma não haveria quem há; basta atentar no facto de a Mariana Mortágua ter ido substituir a pequena (e não me refiro ao tamanho) Ana Drago. Não tivesse o desgraçado daniel oliveira ir pastar e talvez não houvesse Catarina Martins.

Esta foi, até Domingo, a última vez que falo de esquerdas. A não ser que ache necessário fazê-lo de novo.

Dia 4 de Outubro adormecerei em paz, pronto para o que for; não negando o aparente paradoxo de querer que naquela tela apareça a cara do Costa como vencedor com maioria relativa. Aí veremos o quão de esquerda é este PS. Mas esta guerra, não descansai, ainda mal começou, que o inditoso presidente desta república doente não deixará de fazer o possível para ter um Bloco Central com mais ou menos cds.

Ainda mais uma coisa, que quero mesmo ser claro. Se num sistema eleitoral universal onde cada voto valesse um voto e pelo meu não voto no ps ganhasse o paf? Seria tramado, mas viveria com isso. Bem melhor do quem cobardemente não vota, porque “são todos iguais”. Bem melhor do que quem vota porque “ele fala tão bem”, embora não o perceba. E dá cá mas é um avental. Bem melhor do quem arrisca um Bloco Central, em pleno século XXI com troika a liderar. Que o fmi fechou portas apenas para tuga ver. Ainda por cá está e estará. Esse e os do (mal-)Tratado.

Urge ter vozes que a combatam. Esquecer o que almocei ontem é aceitável, esquecer a Grécia é criminoso. E não há paradoxo nisto, creiam. Tsipras abriu caminho (não sei se o fechou; ao dele) e dali retirou a esquerda lições.

Era só. Peço desculpa por tanta palavra, mas não tive tempo nem cabeça para escrever menos. Dia 4 de Outubro não se acaba a esperança, nem se resolvem todas as maleitas. A luta, naturalmente, continua.

Me llaman calle

Da próxima vez que queiram insultar uma mulher não lhe chamem puta. Melhor, da próxima vez que queiram insultar uma mulher, não o façam. O insulto é sempre gratuito; assente em pés de barro. Se eu digo que esta mulher, aquele homem é um estupor sem consciência ou vergonha nunca o faço (e aqui apelo à excepção que faz a regra por que me dito) sem a certeza (ainda que subjectiva) de que efectivamente o é. Insulto é outra coisa, e aqui me desapego de conceitos jurídicos.

Sim, é certo. Também eu já disse “grande puta”, também eu já vociferei contra aquele “grandessíssimo filho-da-puta”. Erro meu. Como quem diz, “até amanhã se Deus quiser”. Não creio nesse Deus, de maiúscula imperativa, mas creio em muitos que nele acreditam. Não creio nesse, dizia; tenho os meus e sou ateu. Graças a deus, passe o lugar-comum.

Na verdade pouco disto queria dizer, ao olhar e ouvir e sentir esta do Manu Chao​. Mas uma palavra puxa a outra. Acima de tudo, não chamem putas às mulheres que por imperativos [palavra fraca] de vida, fraqueza ou tentação vendem orgasmos não beijados. Mulher nenhuma (e apelo de novo à regra da excepção à dita) abre as pernas a um estranho, sem um motivo válido. Mutatis mutandis para os homens. Ainda que — falava do motivo — aparentemente inválido, visto desta torre de marfim onde nos erguemos. E quem sou eu para falar disto?

Eu explico. Ou tento. A cena é que vivo neste mundo de putas, estes homens e mulheres que vendem a alma, a mãe e o filho por um erguer de pés. Este governo é a prova de que puta é palavra de dicionário com [“batatas fritas e um pouco de ketchup Heinz, claro!”, peço desculpa, mas enquanto eu ia acudir aos meus deveres de pai, duas meninas acharam por bem tentar adivinhar o que nem eu sei; o que vinha a seguir ao “com…”; aqui fica para memória futura e vergonha e riso delas] –; dizia, Este governo é a prova de que puta é palavra de dicionário que urge não ser desaproveitada [afinal não usei o “com”].

Mas não a usem dessa forma, à palavra puta, nem com esta gente nossa que não vende a alma. E, obviamente, defendo que a prostituição dos carinhos e dos sétimos céus (tão delicodoce que hoje me encontro) de quem não os encontra doutra forma (choque e pavor, o que disse e o que direi) devia ter um tratamento não marginal. Não sei se fui claro para quem me lê, não sei quantas regras sociais atropelei, mas pouco me interessa isso.

Reservem a palavra puta para as putas que nos trouxeram a este abismo. E era isto. Não procurem nexo neste texto. Escrevi-o para pensar, não para que mo discutam. E como prova disso (olhó paradoxo fresquinho) vou publicá-lo.

Chamam-lhes rua, mas não se vendem! Não se PaFam.

O coelho não se conforma com a Democracia. E eu voto na Cristina Guedes.

Hoje, António Costa afiançou que quer ganhe quer perca não alinhará com a coligação, prometeu que não alinhará numa maioria abortada (imposta) por Belém. Posto isto, alguém mandou o cão-de-fila do paf, nuno melo e seu singular neurónio, ver nisto uma chantagem. E, avença oblige, assim foi. Por terras da Guarda, onde o cabeça-de-lista é o peixoto — esse mesmo que apodou os nossos mais velhos de “peste grisalha” –, o pastor melo, desobrigado do açaime, ladrou alto a ladainha: ó gentes, o PS não quer um pacto de regime (connosco) para nos ajudar a acabar de vos estripar.

O coelho e a rapaziada que o acompanha olham a Democracia como uma chantagem. António Costa não fez nada especial ao não aceitar subverter o resultado das eleições. Limitou-se a prometer cumprir o voto popular e não as ordens que vêm de Belém. É que o cavaco, antevendo o óbvio (não haverá maioria absoluta), ditou que não dará posse ao Governo que o povo indicar, mas ao Governo que ele entender que melhor salvaguardará os interesses do desgoverno que nos conduziu a este Portugal onde os números cavalgam as pessoas.

A Democracia não é isto. Mas, definitivamente, esta tralha neo-liberal, ainda que percebendo este singelo facto, nunca o aceitará. Olham a Democracia como um obstáculo. E não podendo ultrapassá-lo, reduzem-na a uma máscara que usam sem vergonha. E nós menos vergonha temos ao permitir tal aberração.

Por paradoxal que pareça, é também por isto que no dia 4 de Outubro não votarei “útil”. Não votarei PS. Aceitar instrumentalizar o meu voto, em prol de um mal menor, faria de mim um homem com código de barras na testa.

Votar é votar em nós, por nós, sem medos ou calculismos em forma de pescadinha de rabo na boca. O dito “voto útil” é o mais inútil dos votos. É um não-voto. Um voto em rebanho, o oposto do que um voto é. O voto não é útil ou deixa de o ser. Ou se vota ou não se vota. E espetar na urna com uma cruz em cima de um sapo não é votar. Na essência, não o é.

O voto – O VOTO! — é em consciência, naquilo e naqueles em quem acreditamos. E sim, bem sei que o voto que já revelei, hoje por hoje, num Distrito como Castelo Branco, não chega para encher o copo, “graças” ao sistema eleitoral, que impede que o meu voto se junte a um voto de igual sentido noutro Distrito.

A única forma de acabar com esta pescadinha de rabo-na-boca é mesmo fazer assim. Sem calculismos; sem medo que haja mais receitas de coelho na mesa do povo, que não comem dele, mas comem com ele.

Essa pergunta que baila? Aqui, onde voto, serão eleitos quatro deputados; dois vestem bibe laranja, dois usam bibe rosa. É tramado eu saber isto sem precisar de sondagens. Como se muda isto? Simples. Mudando. Votando em nós, e não em camisolas. O abusado “voto útil”, na verdade, é uma atroz traição à consciência de quem o perpetra.

Obviamente, prefiro ter o António Costa como Primeiro-Ministro, tendo em conta a alternativa. Mas isso não condiciona o meu voto. Votarei Bloco de Esquerda, votarei na Cristina Guedes, apesar de ser certo que não será eleita. Se isso me frustra? Imenso.

Por isso este texto. Em 2019 poderá ser diferente, mas para isso temos de começar já a mudança. Creiam-me, é possível mudar. Basta não termos medo de votar na nossa primeira escolha. Deixar de votar no Bloco ou na CDU apenas porque o sistema diz que isso não é útil é a prova da nossa subserviência.

Basta deixar de olhar os partidos como clubes de futebol e ousar ter a humildade de querer mudar o nosso mundo. Não o querer fazer é arrogância. E se isto contribuir para que o coelho volte a ser? Pois seja. Se for necessário marrar (ainda mais) de cabeça com os cornos no fundo do poço… pois seja.

Uma coisa é certa. A nossa Constituição não dita essa gaiola do bipartidarismo. Nós, tal como os toiros amestrados para morrer, é que temos essa estuporada vontade de nos refugiar na antecâmara da arena. Uma imensa vontade de morrer.

E era quase só isto. A sério, mesmo que vão votar paf? A sério, mesmo, que não se lembram destes quatro anos? A sério mesmo que estão bem? A sério, mesmo, que embarcam na máquina do tempo para 2011? Estamos em 2015. A sério, mesmo, que acham que o país está melhor? Que aquela empresa não fechou? Que aquele casal não marrou inteiro no desemprego? Que aquele velho não morreu de morte matada porque era supranumerário? Já te esqueceste que o teu filho emigrou para o planeta skype? A sério, mesmo, que a culpa é toda do Sócrates e por isso vamos permitir que o coelho acabe o serviço?, afinal, ainda restam uns pedaços de nós por retalhar e vender…

Quanto ao título deste texto… Olhem a imagem. Ele precisa de mais um mandato. Votem no dobro do que tiveram. Votem coelho!

E agora sim. Era isto.

De mim e dos meus

Prefiro as bestas ostensivas àqueles que se preocupam mais em dar-se bem com deus e com o diabo. Dos primeiros sei sempre com o que conto, e entro a pés juntos, se preciso for; aos segundos, dependendo da gravidade da situação e de tudo o que a rodeia, dou ou não uma segunda oportunidade. Por uma questão de sanidade minha, e de justiça, não enfio três vezes a pata na mesma poça.

Não gosto de pessoas que compram pessoas, mas ainda gosto menos de pessoas que voluntariamente se vendem. Abomino aqueles que, à falta de argumentos, abandonam intempestivamente uma conversa privada ou um debate público de ideias.

Assumo tudo o que digo e tudo o que faço. E peço desculpa, quando sinto que errei (muitas vezes não dando a mim próprio o benefício da dúvida).

Que não estranhe muito quem de mim não leva palavra. É porque, decididamente, não a merece.

E não, não sou dono da razão, tenho imensos defeitos e não almejo a perfeição. Sou o meu primeiro juiz, nem sempre o último, mas definitivamente o mais exigente. E, a latere, estou cansado de gentes que ainda não se despiram do bicho salazarento que as obriga a ser os bufos de cada regime, de cada estado e de cada Estado.

Falo e oiço, engano-me e acerto, reconheço sempre os meus erros, quando os assimilo como tal. Sei o chão que piso e rejo-me essencialmente por duas agendas: a minha consciência e a pontapeada Constituição da República Portuguesa. Esta porque é justa, na essência, e porque está a ser vilmente atacada por este Estado não-democrático.

Aceitarei ser julgado (e acatarei a pena) disciplinar, civil e criminalmente, enquanto reconhecer às instituições uma réstia de legitimidade democrática. Assim não sendo, serei julgado na mesma, farei por me defender e, não acatando a pena, submeter-me-ei a ela. Qualquer que ela seja.

Não há paradoxo nisto. Este sou eu e prometo mudar e não mudar, assim a consciência mo dite. Aliás, mudo quase todos os dias, que para mudar basta acordar no dia seguinte. E estamos inapelavelmente mudados, um dia mais velhos, pelo menos.

Quanto à essência? É esta. E não haverá condenação que a mude. Demorei demasiado tempo a reconhecê-la, a chegar a ela; errei demasiado, enganei-me além do meu admissível. E, espero, continuarei a errar, sinal que estou vivo; não estar vivo de respirar, refiro-me a outro estar. Não quero é errar de novo daquele tamanho dos erros do passado. Enganos me enganarão, mas eu não posso enganar-me; a mim, ao que sou. Para isso basta não me trair, nem inventar desculpas para trair o que sou, mascarando a traição de desculpa de ocasião. Não que alguma vez o tenha feito deliberadamente, indo ao beija-mão ao cacique da situação. Mas, como acima disse, sou tramado, como juiz de mim.

E, claro, a luta continua. Com a promessa de não fazer espada do meu umbigo. Todos precisamos de pão na mesa, é certo. Mas não darei a comer ao meu filho pão com sangue. É que, cada vez que se recorre ao cacique, estamos a esfaquear o mérito de outros. E se o cacique for uma besta, que faz por nos apagar apenas porque sim? Mais um motivo para não lhe rastejar aos pés.

Dê o mundo as voltas que der, a Justiça vai prevalecer. E, por aqui, o pão continuará fresco, impoluto. E não, não é ingenuidade. É a tal da consciência; também a de ter duas mãos, duas pernas e uma cabeça.

Cobro pela partilha da minha ciência, mas jamais venderei a minha consciência, sendo certo que esta ganha reforços, armas e armaduras quando parimos.

Sócrates, as agendas, os calendários e as coincidências

Aquando da última revisão da medida de coacção, Sócrates recusou a prisão domiciliária com pulseira electrónica. No lugar dele, eu teria feito o mesmo.

No que respeita à questão do perigo de perturbação do inquérito, nada distingue aquela prisão domiciliária, que Sócrates rejeitou, da medida que ora lhe foi aplicada, prisão domiciliária sem pulseira electrónica, mas obviamente vigiada pelas autoridades.

Por outras palavras, do ponto de vista da salvaguarda do inquérito não há qualquer diferença, sendo que o arguido fica, num e noutro caso, impossibilitado de sair de casa.

Voltando à recusa de Sócrates em ser anilhado, direito que lhe assiste, não há razão processual para o juiz não o ter sujeito, há três meses, à medida que ora lhe aplicou.

No entanto, manteve-o na prisão.

Qual a razão? A mesma que leva os cães a lamber os tomates. Porque pode. Isto numa análise “benigna” da acção do juiz. Noutro tipo de análise, menos focada no umbigo do juiz, teria de falar em agendas e tempos de as folhear.

E é isto, e reitero que me encontro a léguas de distância de qualquer interesse no caso ou no arguido. Move-me o Direito e a Justiça.

Gostava apenas que o que leva aquele juiz a decidir neste ou naquele sentido, com este ou com outro arguido, fosse a Justiça. Porém, o homem acabou de provar, mais uma vez, que não é apenas isso que o move.

Digo mais uma vez, porque devo tomar em consideração que ricardo salgado esteve um ano em liberdade, sem esquecer que o papel arde a 233 graus Celsius, Fahrenheit 451; trezentos e sessenta e cinco dias por ano.  E que passado o ano, teve de imediato o que Sócrates só pode ter após nove meses de gaiola.

Ainda mais uma coisa; neste processo, salvo erro, o juiz tem cumprido ao dia os prazos de revisão das medida de coacção. Nada o impede de fazer antes, é certo. Mas dia 9 de Setembro (que seria o dia da revisão), António Costa debate com passos coelho. Não cabe a um juiz ponderar isso. A Justiça usa venda não por ser cega, mas para não olhar além do processo e dos sujeitos processuais.

De resto, não deixa de ser curioso o facto de todas as revisões da medida de coacção de Sócrates terem, até agora, batido certo com a agenda política. Com isto não quero significar que Sócrates é um preso político. Nem tampouco que o Tribunal é mais do que um mero instrumento de interesses alheios ao processo. Isto começou quando começou e tem tido a evolução que tem tido. Podia ter começado antes ou depois, mas “quase parece” que alguém escolheu aquele dia, e não outro, para dar início à parte mediática do processo.

E não, não contradigo o parágrafo anterior. É que daqui a 9 de Setembro, António Costa (em cujo partido não votarei) levará com cinco dias de jornalistas à porta de Sócrates. E, do ponto de vista político, isso será muito mais útil à “coligação” do que se a medida fosse revista no dia do debate.

Termino este desabafo, uma vez que falei em Sócrates, usando a forma que a comunicação social me ensinou ser a certa, sempre que se fala deste caso. Não vá alguém não saber.

“José Sócrates foi detido a 21 de novembro de 2014, no aeroporto de Lisboa, no âmbito da Operação Marquês”.

O Naufrágio da Humanidade, o Silva e a Vida

Perseguidos, roubados e humilhados: na fronteira do desespero [Expresso]

Começo por pedir que leiam a reportagem do Expresso, acima linkada. Antes ou depois, do que de seguida vou dizer. É preciso é que a leiam. É longa e dolorosa. Poderia indicar outras palavras, escritas noutras línguas; tantas têm chovido, depois do mal feito, de forma ácida e abundante. Demorou a que a ilustração da morte virasse moda.

E agora eu.

Para que a Humanidade naufragasse, seria necessário que houvesse Humanidade. Quando escrevi a última vez sobre este “naufrágio”, quando partilhei as imagens deste “naufrágio”, logo ali, enterrei bem fundo na minha mente a ideia, o conceito de Humanidade. Se o final do século passado lhe abriu a cova, este século tem porfiado, a uma velocidade estonteante, pela inutilidade da palavra que nunca teve significado, a não ser no impoluto papel. Chegámos, em forma de parasita, há cinco segundos a este planeta. Inventámos formas de conforto. O fogo, a roda, e fomos à Lua. Não merecemos esse Ser Humanos, com todo o apêndice filosófico, sociológico, biológico, antropológico e outros lógicos de que nos rodeámos para nos justificar como tal. Destruímos o Planeta e destruímo-nos a nós. Somos uma forma definitiva de parasitismo.

Em 1997, escrevi umas coisas, a que então resolvi dar forma una. Pouco tinha a ver com isto. Mas lembrei-me dele, entremeado naquele rol de palavras, e resolvi trazê-lo ao meu olhar de hoje. Arrumá-lo. Olhá-lo daqui, deste abismo onde nos trouxemos. Este abismo de onde nem sequer cair conseguimos. Planto-o aqui, de seguida. Não sei exactamente o que farei, no meio de tanta dor. Tenho ganas de lutar pela vida da Vida de que falo no texto. Mas amanhã saberei mais. Assim como ontem sabia menos.

Voltamos ao Silva, o mais novo, o único sobrevivente do clã. Munido do Dinheiro, resolveu fazer uma experiência, como ele lhe chamava, botânico-sócio-antropológica. Construir, em pleno deserto, uma estufa de vidro.

O que fez.

Nessa estufa, obedecendo ao “state of the art”, no que a estufas respeita, o Silva plantou uma espécie de cada árvore que conhecia, uma oliveira, uma nespereira, uma macieira, uma bananeira, uma laranjeira e, até, uma árvore-do-pão (das que dão pão, mesmo). Depois semeou flores, flores de todas as cores e cheiros.

Fez um belo trabalho, o Silva. A estufa estava linda, com um depósito de água que lhe dava, a ele e às plantas, para um mês, e que ele próprio reenchia, a cuspo.

Pensando na polinização das plantas, diz-se essencial para a respectiva reprodução, o Silva colocou, dentro da estufa, dez espécies diferentes das melhores abelhas que havia. Das melhores que havia, assim mesmo.

E assim foi, uma estufa no deserto, um tanque de água, não-sei-quantas árvores e flores, dez espécies de abelhas. Temperatura ambiente: a ideal.

Depois de criar o seu paraíso no deserto, qual deus, o Silva morreu, ao volante do seu jipe. Parece que foi uma falha nos travões. Morreu entroncando numa árvore. No último estertor, diz quem viu, gritou: “não sabia que havia aqui uma árvore ilegal”.

A estufa lá ficou abandonada.

As flores e as árvores morreram quase todas.

Salvaram-se as que se adaptaram à nova realidade. Sem água, lançaram raízes a uma soltura negra que por ali havia debaixo de terra, e de que se passaram a alimentar; e deixaram crescer dentes. Uma ou outra, das originais, resistiam a beber e comer daquilo. Foram mordidas até à raiz.

As abelhas pretas às riscas amarelas deixaram de fazer pelo mel e hierarquizaram-se na captação de fel, que vendiam umas às outras e outras às umas. Inventaram o capital. A palavra e o coiso. Aguçaram os ferrões e, justamente, transformaram-se nas senhoras da estufa, matando-se com denodo, entre alianças agora e agora já não. As vencedoras usavam ao pescoço os cadáveres das abelhas amarelas às riscas pretas. E assim se locomoviam, dentro daquela enorme estufa, do tamanho de um grão de areia.

Zoom out

Vidros partidos, cheiros nauseabundos. Todos os vivos faziam pela morte. E regras, muitas regras. Havia tantas como cada interesse. Para evitar o torto e ordenar o que era direito. E assim viviam, naquela paz bélica.

Zoom in

Árvores, flores e abelhas deixaram crescer cus e sentaram-se. Em bancos. E depois os bancos sentaram-se nelas, que a estufa roda.

Até que um dia…

Até que um dia, algo por ali passou. Diz que foi o fantasma do Silva. Mas é tese sem lógica, que o Silva quis ordenar aquilo que desordenado não estava e tinha ordem natural. Era o diabo, o Silva.

Outros, e essa a tese que prevaleceu, dizem que foi a Vida, que começava a temer que a estufa do Silva a levasse.

Foi a Vida que por ali passou.

Entrou e perguntou pelas regras. Logo lhe caíram milhares delas aos pés, para que as observasse e despachasse favoravelmente. Repetiu a pergunta, desta vez explicando-se. Onde está o Direito? E lá vieram as abelhas pretas às riscas amarelas, em enxame, montadas nas outras, amarelas às riscas pretas (com desdém, apelidadas de povo pelas outras). Cada uma, das reconhecidas pela estufa, deixava cair o que achava ser direito. Aos pés da Vida.

A Vida percebeu que não a percebiam. Sentiu-se desfalecer. Aqueles mortos não a entendiam.

Perguntou, então, pela Justiça.

Ouviu-se silêncio. Ainda a convocaram para uma reunião, onde não faltariam dentes grátis, ferrões ou daquela diarreia negra

A Vida quis saber.

Inspirou.

Expirou.

E a estufa deixou de ser, com tudo o que levava dentro.

E a Vida Respirou.

Seguiu caminho entre a natureza que ela havia criado e que a havia criado a ela. Ia pensativa, a Vida, questionando-se onde havia errado. Como era possível que, entre tanta Vida, o Silva tivesse visto um deserto e criada uma prisão?

Ergueu o braço a uma das muitas árvores do caminho e o fruto caiu-lhe na mão. Levou-o à boca e saboreou-o.

Alto disse: Foi por pouco, foi por pouco que não me mataram.

E depois berrou: quantas mais estufas aguentarei?

A Vida.