
Imaginem um país
Um país de portas cerradas
Um país onde te dizem:
“são todos iguais”
“vivem da droga”
“vivem das esmolas do estado”
“assassinos a soldo”
E agora imaginem outro país.
Este “nosso”
Brincadeira de prosa cortada em frases sérias
Voltemos ao país original, que é o inicial
Um país brando e de bons costumes.
Onde o teu filho não entra
Assim como tu não entraste
Nem o teu pai entrou
Porque és branco
Onde o “somos todos iguais” te é atirado à cabeça.
Todos os dias
Não como na Constituição.
Mas porque –
– és branco.
Porque os teus avós são brancos.
Porque os teus pais são brancos.
Porque os teus filhos são brancos.
Porque os teus netos são brancos.
E por ser branco nunca te permitiram, nem permitirão, ser outra coisa!
Além da pele!
Imagina-te branco
E vai mais além…
Que por seres branco não podes ser outra coisa
Simplesmente porque és branco
O teu filho chama-se Zeca Afonso
E é branco
O meu filho não é branco e sabe nada do teu
Já soube
No tempo em que não havia cores
Anos passados
Branco como aquela bola de neve que desce a montanha
E aumenta de tamanho
A cada geração
Cada filho parido será mais branco ainda
Apenas por ser branco
Gatuno, por ser branco
Traficante, por ser branco
Sem identidade porque basta a cor da pele
Basta ser branco
Imagina-te branco
Faz um esforço, por mais que te doa
(não dói nada, pois não?; tens a cor certa)
Um país onde te apontam a dedo
“são todos iguais”
“vivem da droga”
“vivem das esmolas do estado”
Os brancos!
E agora, branco que te imaginas
Que és
Vai mais além
Imagina que te gritam até ao neto do teu neto
És branco, serás branco
E não passas de um branco de merda
Porque és branco e os brancos são todos iguais
E não refiles
Branco
Sê lá isso que sabes
O que te ensinámos, rótulo
Sê um branco de merda
Deve ser fodido, isso de nascer branco
Levas logo com a cor dos costumes e com um sapo na testa
Porque é assim
Nasceste adjectivo
E nada mudará isso
Vendes drogas e cuecas, branco
Não te deixam fazer diferente
E nós compramos
És a nossa desculpa, o nosso apontar de dedo
Ouvirás tudo isto, Zeca Afonso
Dirão “olha o branco!”
E depois ainda reclamam. E um dia vais dentro, porque não tiveste outra hipótese. Nasceste branco.
Esta prosa partida em pedaços é dedicada a um menino chamado Zeca Afonso. O meu filho nunca lhe chamou outra coisa, a não ser Zeca Afonso. Não sabemos dele, não. Assim como ele não sabe de nós. Porque Portugal lava mais branco. Não tenho lembrança de alguém algum dia me ter dito “és branco, só podes ser iguais aos outros brancos”. Nunca ninguém me mediu as acções e omissões pela cor da pele. Nunca ninguém me avaliou pelos actos de outros que nasceram com a cor de pele dos meus pais e avós. Nunca ninguém comparou o meu filho aos da cor dele. Ainda bem, digo. Se me começassem a avaliar pela cor – patético não seria? −, acabaria sem ter hipótese de começar. Com destino traçado antes do “vagido” inicial.
O menino Zeca Afonso é cigano, filho de ciganos, um dia será pai de ciganos. E já terá levado com sapos de porcelana. Verdes. Mas tão pálidos como os neurónios de que quem assim faz. Todos os dias!
A culpa é sempre da cor de pele “errada”, certo? Claro que a culpa é dos ciganos. Sempre. Agora olhem a História. Como se dá a volta a isto? Dando um passo. Ora tentem lá. Não dói nada.
