O Tribunal do Trabalho da Covilhã vai para… Gettysburg

Tribunal do Trabalho da Covilhã

No dia da Cidade, o executivo covilhanense resolveu homenagear Mário Soares (e não me arremessem com formalismos bacocos quanto à decisão). Nada contra; bem pelo contrário. Afinal, eu próprio o homenageio. Essa não é a questão. No Domingo anterior a este que passou, o Tribunal do Trabalho da Covilhã (hoje uma das singelas secções do trabalho da Comarca de Castelo Branco; agradeçam à Cruz da Justiça com nome de Paula) não aguentou as águas. E por pouco não pariu um incêndio que o devastaria e a todos os processos que acolhe. A água fora de sítio não se dá bem com cabos eléctricos espalhados ao deus-dará. O presidente da cm, segundo ouvi dizer, lá esteve. “A acompanhar os trabalhos”. Que isto de ter que parecer é bem mais importante do que ser.

O “edifício” do Tribunal do Trabalho da Covilhã é algo de indiscritível, mas que a imagem faz por descrever o melhor que pode. E acreditem, mesmo, a dita imagem fica aquém da realidade [desconheço o autor do retrato, mas o que eu poderia ter tirado esta semana em nada seria diferente].

O executivo camarário, entre lutas partidárias intestinas (ps’zinho), e guerras contra o anterior presidente (a quem nem darei aqui muita atenção — o eleito não é ele –, mas que era e é uma espécie de “l’état c’est moi” e também faz por se ir exercendo via umbigo) perdeu-se. E acorre aos tribunais inundados para mostrar que esteve lá. E para mostrar que outro (o que já não é, o que não foi eleito) é que tem a culpa. Não me interessa o outro, nem se o que ora faz (parece que noutras funções) é por vingança, por falta de ser homem ou algo semelhante. Na verdade, conheço tal ser, ao ponto de já ter gasto palavras que cheguem com ele. Pim-pam-pum já é exagero. Mas nada disso desresponsabiliza esta tristeza que o povo, enganado, erradamente pariu.

De volta à vaca fria. No dia seguinte, nada muda. Diz (de “diz o povo”) que as coisas não se mudam num dia. Perguntem ao Paulo Fernandes, presidente da cm do Fundão eleito pelo psd, quanto tempo demoraria a acolher o Tribunal do Trabalho. Penso que antes de a pergunta estar feita já o espaço estava destinado. A nível autárquico pouco interessa a cor, interessam os homens.

Nasci na Covilhã (surpresa!) e ali labuto há vinte anos. Não gostaria de ver o Tribunal no Fundão, em tese e porque sim. Na prática, e já que o “executivo” covilhanense não se assume (mesmo porque não tem como, tamanha a mediocridade), e porque o Poder Judicial é um pilar Democrático que não pode estar sujeito a inundações e (in)consequentes incêndios, espero que decisões de Homens e Mulheres sejam rapidamente tomadas. Não há espaços? Inventem-se! E haverá espaços para acolher o tribunal sem estar dependente de vilezas.

Porque a mediocridade do executivo covilhanense é inconsequente para o Povo, conto em breve ter um julgamento no Tribunal de Trabalho (a criar em menos de um fósforo) no Fundão.

E lamento, acreditem. Não votei na Covilhã, e já por aqui disse que se por lá vivesse o meu voto iria para o Pedro Farromba. E não tenho a menor dúvida que estas palavras não fariam escritas, não seriam ditas, porque o vetusto tribunal já estaria em sítio protegido da água e do fogo.

A Covilhã está prestes a perder o Tribunal do Trabalho. Falta um bocadinho “assim”. Que este post sirva para algo. Que sirva de bombeiro, ao menos.

E espero que de uma vez tenham entendido as linhas que me cosem. Para que não me tentem cozer (coisa que é complicada, que tenho na mão o botão da minha temperatura). Antes dos partidos, dos silêncios comprometidos, das “rixas penianas”, temos a res publica. In casu, se a Covilhã está demasiado entretida em rixas improfícuas e sem mandato, a quinze quilómetros temos o Fundão, onde espaços não faltam.

Gostem ou não de quem o governa (eu gosto, embora não tenha recebido o meu voto), aqui (escrevo do Fundão) não faltarão espaços para o Tribunal de Trabalho. E falo sem ter “falado” com ninguém (não sou pombo-correio). Basta ter assistido a estes últimos anos desde as autárquicas, basta ter olhos. Basta Ser.

Gostaria, repito, que o Tribunal se mantivesse na Covilhã. Mas quem manda nela não faz por isso. A sua obra não passa de mero obrar. De mero aparecer para que se saiba que “o sô presidente esteve cá, aquando do incidente”.

Resta o Fundão. Até da minha garagem, onde só cabe um carro, faria um Tribunal melhor do que este que mal nos acolhe e à Justiça que o Povo pede, que por acaso ainda não se afundou, que por fortuna ainda não se queimou. Não podemos estar dependentes do “e assim o tempo o permita”.

Fazer pela coisa pública é algo que exige muito. Exige tudo. Não é um mero cargo, não é uma nova profissão, entre “jobs for the boys”. Não é um espaço para vinganças servidas quentes ou frias.

Espero ter sido claro. E, também claro, é-me indiferente que não gostem que o meu ser não esteja encarcerado entre paredes de alumínio.

Antes de homenagear quem quer que seja, homenageiem quem vos elegeu. A cada dia. Para isso foram eleitos. E nem ousem desculpar-se com o facto da decisão última ser da tutela. Ou com as vilezas do outro. Seria demasiado ridículo, mesmo para vocês.

E ora termino. Quando faço este tipo de artigos, asinha me chegam recados patetas, pontapeados de tachos de alumínio. Imagino que desta vez me digam que o faço por partidarismo. Afinal, é consabido que o psd é a minha praia. Confesso, sou um aficionado. E por engano votei Bloco de Esquerda nas legislativas. Arre! Sejam decentes, cambada.

“Governo do Povo, Pelo Povo, para o Povo”. Gettysburg é quando e onde os Homens e as Mulheres quiserem.

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Por Luaty e com Luaty! Juntos somos um; um Homem, uma Mulher; um Povo!

Carta aberta aos Angolanos, Nuno Álvaro Dala Para que a luta de Luaty e seus companheiros não se resuma a um mero percalço na história deste facínora regime angolano (a uma coisa que apenas aconteceu), para que seja o que é, elevada ao que é; um capítulo marcante na História de uma Angola Livre — e para isso é preciso que jes e seus capangas caiam –, é urgente que a também a sociedade civil portuguesa não deixe cair o assunto.

É que assim que os media possam (e podem assim que as redes sociais abandonem o caso), o assunto morre. Faltam 20 dias para o julgamento (se não for adiado, o que também depende da pressão democrática que os homens livres exerçam). Cada dia tem de ser uma notícia. E no que me toca sê-lo-á.

Cada um de nós pode mudar o mundo — Luaty é a prova do que acabei de escrever. Só há um Luaty. Só há um de cada um daqueles quinze mais dois. E também só há um de cada um de nós. Deixo abaixo as palavras de Nuno Álvaro Dala, preso desde 20 de Junho. O crime? Ler um livro.

Nós por cá ainda vamos podendo ler em liberdade; embora seja uma liberdade já condicionada por aquilo que os horários-nobre das televisões nos servem; por aquilo que as parangonas jornalísticas nos dão a ler — a estupidificação do ser, o medo de existir. O nosso silêncio é um abrir alas à vilanagem.

O nosso futuro é o produto da nossa acção (ou omissão). E o nosso futuro são as gerações que se seguem.

Por Luaty e com Luaty, sendo que Luaty é sinónimo de um Povo sem mordaças, sem medo de existir. Juntos somos um; um Homem, uma Mulher; um Povo. E Angola é o Mundo e o Mundo é Angola.

CARTA ABERTA AOS ANGOLANOS

Prezados compatriotas,

São passados mais de 120 dias, isto é, quatro meses desde que, no dia 20 de Junho, fomos detidos na Vila Alice, na sala de aula no instituto Luandense de línguas e informática (ILULA).

Cumpriamos então com mais uma secção de debate no quadro do curso do activismo regido pela filosofia política consubstanciada no livro de “From dictatorship to democracy” (Da ditadura a democracia), de autoria do filósofo e activista Gene Sharp.

Desde o dia da nossa detenção até hoje as acusações transformaram-se diversas vezes (de “preparação do golpe de estado“ a “actos preparatórios de rebelião”…), o isolamento, e a incomunicabilidade, a água bruta imprópria para consumo, a comida de má qualidade, a escuridão das celas, as camas de betão, os mosquitos e outras condições desumanas provocaram-nos diversas doenças, foram e continuam a ser uma terrível prova à nossa integridade ética e à manutenção dos nossos ideais em geral, em prol de uma Angola de todos e para todos.

É um facto que alguns companheiros foram agredidos fisicamente por agentes dos serviços prisionais e outros, tão ciosos que são em cumprir com as “orientações superiores“ que há muito substituíram a constituição e a lei. Mas mantemo-nos firmes.

Ao longo dos anos desenvolvemos um pensamento político e um conjuntos de acções regidos por uma filosofia assente nos valores da dignidade humana, igualdade, justiça social, desenvolvimento, tolerância, angolanidade e reconciliação.

Nossa proposta de PROJECTO POLÍTICO FILOSÓFICO DE NAÇÃO depende, entre outras questões, que Angola deve ser construída por todos, e que a reconciliação nacional deve ser um processo de todos e para todos.

Sabemos muito bem que a ética do mal que rege os agentes do regime também rege, inclusive, o juiz indicado para nos julgar em Novembro, mês em que Angola completará 40 anos de independência. Estamos cientes de que já fomos condenados publicamente pelo regime de José Eduardo dos Santos.

Ainda assim, pedimos a todos os Angolanos de bem para que PERDOEM ESTA GENTE. Os detentores do poder estão cientes de todos os males que perpetraram contra os Angolanos ao longo de 40 anos. É compreensível que vivam permanentemente aflitos e com medo de perderem tudo (inclusive as riquezas que saquearam à nação) e de serem julgados por um povo que sente na carne e no osso os efeitos de uma paz perversa que morde mais que a guerra.

Do presidente da república o último agente da opressão – todos eles precisam de PERDÃO.

Ódio e vingança não são o caminho para o futuro de Angola (uma Angola livre democrática e de bem-estar).

Em alta estima subscrevo-me

Nuno Álvaro Dala com o consenso dos 14 activistas detidos do Hospital prisão de São Paulo.

Luanda, 27 de Outubro de 2015

[o teor da carta e as imagens da dita foram “emprestadas” pela Central Angola 7311; cliquem na imagem para aumentar e ler na fonte]

23 de Outubro de 2015, Dia Nacional do Estado de Direito Democrático

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Parabéns ao novo Presidente da Assembleia da República e bem-haja pelo discurso de apresentação. Doravante, terá de se pautar pela absoluta imparcialidade, é certo. Mas hoje, dia que não carecia de árbitro, tinha de dizer o que ficou dito. E o que Ferro Rodrigues disse não ofendeu ninguém que saiba o significado de Estado de Direito Democrático. E que vontade que temos de voltar a viver num…

Há um indivíduo em Belém que se dá mal com a Democracia; aqui fica a primeira lição, directamente da casa do povo. A resposta democrática à ignomínia fascista ontem proferida. Em que eu e um milhão doutros fomos tratados como uma espécie de infra-humanos a desconsiderar, porque “votámos errado”. Se ontem fui insultado, hoje o meu voto foi respeitado e eu fui representado.

Outras lições se seguirão. Quanto a esta, que sirva também para os defensores da “tradição”, quebrada por esta eleição. A tradição, meramente conjuntural, não está acima da Constituição. Era o que mais faltava que num Parlamento com maioria de esquerda, eleita pelo Povo, mandasse alguém provindo da direita parlamentar, em clara minoria.

Esta escolha de hoje foi, acima e antes de tudo, do Povo. De todo o POVO. Esse povo que ontem cavaco dividiu em filhos-da-mãe e filhos-da-puta. Quem subitamente se lembrou da Constituição, a mesma que pontapeou durante quatro anos e que ora treslê, que pegue nesta realidade e que a embrulhe. Nos próximos dias haverá mais presentes.

Mais uma coisa. O grande problema é mesmo a regra (valem as excepções) das gentes de direita se ter esquecido da Constituição. Essa é, aliás, a única tradição que eles podem invocar: a tradição de ignorar a Constituição. Chegou o dia em que ela surgiu, com ganas de voltar a existir, e eles estranharam-na. Democraticamente (ainda que não sem ajudas), a entranharão.

Luaty: “um comportamento diferente em relação aos alimentos”

A 9 de Outubro, depois de ter corrido um boato acerca da morte de Luaty Beirão, a TPA (Televisão Pública de Angola) foi à prisão onde este estava detido, e já então em de greve de fome há 18 dias, fazer a prova de vida. E qualifica assim Luaty e o seu estado: “passo lento lento, falta de firmeza, amparo permanente, consequência de um comportamento diferente em relação aos alimentos, aliado a pouca justificação”. [cliquem na imagem para ver a “reportagem”]

Só faltou dizer que estava a fazer dieta e que estaria a ser acompanhado pelo consagrado dietista, eduardo dos santos.

Um vivo demasiado vivo para esta Angola | Entrevista a Luaty Beirão (Ikonoklasta), 22/06/2014

Por aqui se percebe a razão de o regime angolano querer este homem morto. Vivo ele é… assim (vejam os vídeos). Um vivo demasiado vivo para esta Angola. Morto vira mártir, é certo. Mas nada que não se apague com uma pincelada de petróleo.

Por Luaty!

Não há novidades de Luaty Beirão, cidadão angolano e português, prestes a entrar no 28.º dia de greve de fome. O “governo” português, pago a petróleo e diamantes roubados ao Povo Angolano, nada faz; assim como a civilizada Europa, que é paga para calar, na mesma moeda. Esta foto já tem uns dias. Hoje, os órgãos do Luaty estarão a começar a falhar (se é que não morreu já). Ele foi bem claro na Declaração de dia 15 passado. Espero que as suas vontades estejam a ser cumpridas, bem como o quarto ponto preambular da Declaração de Malta, que invocou: “A última decisão de intervenção ou não-intervenção deve partir do próprio indivíduo, sem a intervenção de terceiros simpatizantes cujo interesse principal não é o bem-estar do paciente. Porém, o médico deve dizer claramente ao paciente se ele aceita ou não aquela decisão de recusar tratamento ou, no caso de coma, a alimentação artificial, arriscando-se assim a morrer. Se o médico não aceita a decisão do paciente de recusar tal ajuda, o paciente seria autorizado a ser assistido por outro médico. “.

E nem ousem contestar esta vontade de Luaty. Quero-o vivo, obviamente. Não há paradoxo nisto. E quero que muito que volte atrás, ele tem muito mais para dar a Angola estando vivo; se morrer os podres poderes angolanos, conluiados com o governo tuga em gestão corrente, rapidamente farão/pagarão por/para o fazer esquecer.

(…) Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola / antes de haver cinema madame blanche e parola /Que afinal o que importa não é haver gente com fome / porque assim como assim ainda há muita gente que come / Que afinal o que importa é não ter medo / de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente: Gerente! Este leite está azedo! (…)”, Pastelaria, Mário Cesariny.

Tenham um pingo de vergonha. Tu, Merkel! Nunca pensei apelar a ti. Pega na merda do telefone e liga ao ditador. Diz-lhe que pare! Sim, claro, a Merkel vai ler esta merda. E o Obama tem-me no feed. Mexam-se, porra. Ou serão cúmplices desta morte matada. Cúmplices do eduardos dos santos y sus muchachos.

Por Luaty

O HERÓI INSOLENTE, por José Eduardo Agualusa [in EXPRESSO]

Não peço desculpa ao EXPRESSO por ter sacado este artigo só para assinantes. É demasiado importante. Não me servirá de redenção dizer que amanhã comprarei o jornal, apesar de já o ter lido. Pouco me interessa. O artigo do Agualusa é de vida ou de morte. Assim como o do Nicolau Santos. Assim como todos os outros dedicados ao LUATY BEIRÃO, publicados na Revista E, do Expresso. Luaty está disposto a dar a vida por uma Angola Livre. Não faço ideia se, a esta hora, Luaty ainda está vivo. Entrou no 27º dia de greve de fome. Rejeita qualquer tipo de assistência. Não sou ninguém para o contrariar. Mas não posso assistir impávido, como se nada fosse. O que fez já é suficiente para acordar os sem-vergonha e nada será como dantes. Refiro-me ao “governo” português e aos “generais” da civilizada Europa, que assistem impávidos e serenos à morte de um povo. Haja diamantes, haja petróleo. “Nós lavamos”. Luaty não tem de morrer. No fundo, era só isto que queria dizer e já vou tão tarde. Quantas vezes Luaty abriu os nossos telejornais na última semana? Diamantes e Petróleo. Bem-haja ao EXPRESSO. E ao Nicolau Santos; não ignoro que se este Expresso sai como sai a ele o devemos. Leiam o artigo do Agualusa, por favor. “Há que ir tentando estas pequenas buzinadelas daqui, manifestações espontâneas dali” — respondeu. E acrescentou: “Temos de estar dispostos para arcar com as consequências da nossa insolência e esperar que cada uma destas pequenas iniciativas possa servir de gota de água, até fazer o copo transbordar. Temos estado a refletir sobre o day after, porque a fruta já está madura e temos de estar preparados para quando ela cair. Não podemos ser apanhados de calças na mão.”. Estas frases de Luaty integram o artigo. Foi dita antes de ser preso, antes de estar a um minuto de morrer. E não mudou de opinião. A buzinadela virou 27 dias sem comer. Luaty não tem de morrer. O que fez já chega. Angola não será a mesma. 

Sem Título

Luaty Beirão, 33 anos, irrompeu no universo político angolano como um vendaval poderoso, numa noite quente de fevereiro de 2011.

Vivia-se em todo o mundo, e em particular no continente africano, a euforia da Primavera Árabe. A 17 de dezembro de 2010 um jovem tunisino, Mohamed Bouazizi, suicidou-se, ateando fogo ao próprio corpo, em protesto contra a injustiça social. A morte de Bouazizi deflagrou uma série de protestos, levando o Presidente Ben Ali a fugir para a Arábia Saudita apenas dez dias mais tarde. O movimento democrático propagou-se depois pela Argélia e Egito. Durante alguns meses os democratas dos países africanos sujeitos a regimes autoritários viveram a ilusão de que a Primavera Árabe floresceria em todo o continente.

Naquela noite, 27 de fevereiro de 2011, perto de três mil jovens juntaram-se nas instalações do Cine Atlântico, em Luanda, para assistir ao concerto de Bob da Rage, um jovem músico luandense radicado em Lisboa. O evento contava ainda com a presença de MCK e de Ikonoklasta, um dos nomes de guerra de Luaty Beirão, à época ainda pouco conhecido fora do universo do hip hop angolano. Era o primeiro concerto em Angola de Bob da Rage. O jovem músico lembra-se muito bem dessa noite: “Disse ao Luaty que entre o público estava um dos filhos do Presidente, o Danilo, que sempre foi meu fã.”

Então, sem prevenir Bob, que foi completamente apanhado de surpresa, assim como os organizadores do evento, Luaty subiu ao palco e mostrou porque escolhera o nome de Ikonoklasta. “Sou um kamikaze!” — Gritou, antes de se voltar na direção de Eduane Danilo dos Santos: “Senhor Danilo vai dizer ao teu papá. Não queremos mais ele aqui. 32 é muito. É muito! (…) Senhor Dino Matross, senhor Virgílio de Fontes Pereira, todos pro caralho! Paulo Flores deu aquela dica, explorador dos oprimidos — fora!”

Na primeira manifestação independente contra o regime de José Eduardo dos Santos apenas apareceram 12 jovens, logo detidos pela polícia. Um desses jovens era Luaty Beirão

Convocou então o público a participar numa manifestação a favor da democracia: “Tragam só panelas, tragam só mambos que não tenham agressão. Muito obrigado.”

A manifestação fora convocada semanas antes, de forma anónima, através das redes sociais, para o dia sete de março, na Praça da Independência. Luaty abandonou o palco, com o público enlouquecido, e Bob da Rage substituiu-o, atuando durante hora e meia. Quando finalmente saiu foi para discutir com Luaty: “Eu estava furioso. Hoje, sabendo tudo o que aconteceu a seguir, compreendo o que o Luaty fez e acho que fez bem. Mas naquela altura achei um desrespeito para comigo, para com os organizadores e até para com o filho do Presidente.”

Os dirigentes angolanos receberam a notícia sobre a desabrida intervenção de Ikonoklasta no Cine Atlântico com enorme susto. Alguns dos rostos mais conhecidos do MPLA desfilaram, aterrorizados, pelos estúdios da Televisão Pública de Angola, TPA, nos dias seguintes, enfatizando as enormes diferenças entre os países do Norte de África e Angola. Na intimidade não escondiam o espanto por verem alguém como Luaty, filho de um velho militante do partido, João Beirão, primeiro diretor da FESA, Fundação Eduardo dos Santos, a assumir posições críticas ao regime.

Pacifista “Tragam só panelas, tragam só mambos que não tenham agressão”, escreveu Luaty antes da primeira manifestação pró-democracia em Angola Clementina — Fazuma

Dias depois, Luaty gravou e colocou nas redes sociais um vídeo a desculpar-se diante de Eduane Danilo, ao mesmo tempo que respondia aos que o acusavam de ser um “filho do regime”: “Eu chamo-me Luaty Beirão, sou filho de João Beirão, o primeiro diretor da FESA, Fundação Eduardo dos Santos, sou portanto, como me acusam, um filho do regime, mas não vejo porque isso me obrigaria a seguir a linha de pensamento do meu pai. (…) Tenho o meu próprio cérebro.”

Fez questão, contudo, de realçar que o pedido de desculpas não era extensivo aos dirigentes políticos que insultara. Lamentava apenas não ter citado mais nomes: “Quando temos uma elite governante que faz discursos com ameaças, sinceramente… A reação teve o mesmo peso e medida, da maneira que podemos fazer. Eu reagi, se houve um abuso do direito de liberdade de expressão, eu estou à espera, e entendo que num país com leis as pessoas que as violam tenham as suas consequências legais. A estas personalidades não sinto o dever de pedir desculpas.”

De como o governo angolano traficou cocaína para Portugal

Nunca se soube ao certo quem convocou a primeira manifestação independente contra o regime de José Eduardo dos Santos. Provavelmente, estudantes angolanos na Europa. O que se sabe é que nesse dia apareceram na Praça da Independência apenas 12 jovens, logo detidos pela polícia. Um desse jovens era Luaty Beirão. Nos meses seguintes, Luaty organizou uma série de outras manifestações pacíficas, várias delas violentamente reprimidas pela polícia ou por milícias armadas, ligadas a altos dirigentes angolanos. No dia 10 de março de 2012, no bairro do Cazenga, em Luanda, cerca de quarenta manifestantes foram cercados e atacados por uma dúzia de homens empunhando bastões, facas e pistolas. Luaty foi para o hospital com uma ferida aberta na cabeça. O economista Filomeno Vieira Lopes, secretário-geral do Bloco Democrático, um pequeno partido político, sem representação parlamentar, mas com relativa influência nos meios intelectuais, procurou refúgio numa residência particular. As milícias forçaram a entrada na residência, agredindo-o com barras de ferro. As imagens de Luaty e de Filomeno Vieira Lopes, com os rostos ensanguentados e a roupa rasgada, provocou grande comoção e revolta em Luanda, inclusive em círculos próximos do poder.

Na manhã de 11 de junho de 2012, Luaty Beirão dirigiu-se ao aeroporto de Luanda. Iria viajar para Lisboa com o objetivo de participar numa digressão do grupo Batida, de que foi integrante, juntamente com Pedro Coquenão. Pouco antes de entrar no avião, um funcionário do aeroporto reconheceu-o, confessou a admiração que sentia por ele, enquanto músico e ativista cívico, e disse-lhe que vira dois polícias a mexer na sua bagagem. Ao chegar a Lisboa, muito nervoso, Luaty foi conduzido para uma sala onde o interrogaram. Na única bagagem que trouxera no porão, uma roda de bicicleta, foi encontrada mais de um quilo de cocaína. A polícia portuguesa terá recebido uma denúncia vinda de Luanda. O juiz de instrução criminal deixou Luaty sair em liberdade, após ter dado como provado que o músico fora vítima de uma cilada.

Não se conhece qualquer reação do Governo português perante esta situação. Vejamos: o Governo angolano tentou incriminar um cidadão que também é português, introduzindo ilegalmente cocaína em Portugal. O que fez Portugal? Nada. Portugal permaneceu em silêncio. Este episódio, que não mereceu grande interesse nem da imprensa portuguesa nem dos partidos na oposição, ilustra de forma exemplar o grau de submissão do poder político e económico em Portugal relativamente ao regime angolano.

A gota de água que fez transbordar o copo

A detenção em Luanda, no passado dia 20 de junho, de 15 jovens ativistas, acusados de tentativa de golpe de Estado não me surpreendeu, a não ser pelo teor da acusação. Poucos dias antes conversara com Luaty, no Facebook, a propósito de uma manifestação que ele estava a organizar. Era algo muito simples — um “buzinão”. Luaty e o seu pequeno grupo de “jovens revolucionários”, ou revus, como se tornaram conhecidos, pretendiam convencer o maior número possível de cidadãos a buzinarem, num determinado dia e hora, a favor da democracia e dos direitos humanos. Pediu-me um depoimento para apoiar a iniciativa e eu enviei-lhe um vídeo, acrescentando não acreditar muito na eficácia do protesto: “Há que ir tentando estas pequenas buzinadelas daqui, manifestações espontâneas dali” — respondeu. E acrescentou: “Temos de estar dispostos para arcar com as consequências da nossa insolência e esperar que cada uma destas pequenas iniciativas possa servir de gota de água, até fazer o copo transbordar. Temos estado a refletir sobre o day after, porque a fruta já está madura e temos de estar preparados para quando ela cair. Não podemos ser apanhados de calças na mão.”

O próprio Presidente da República, José Eduardo dos Santos, defendeu, num discurso pronunciado diante do Comité Central do seu partido, a dois de julho, a acusação de tentativa de golpe de Estado, comparando o sucedido com os dramáticos acontecimentos de 27 de maio de 1977, na sequência dos quais o regime de Agostinho Neto desencadeou uma vaga repressiva, de extrema violência, que custou a vida de milhares de angolanos.

O próprio Presidente José Eduardo dos Santos defendeu a acusação de tentativa de golpe de Estado

A acusação de golpe de Estado baseia-se essencialmente em dois factos: quando foram presos, os jovens revus estavam a discutir a adaptação para língua portuguesa de um ensaio muito conhecido de Gene Sharp, “From Dictatorship to Democracy, A Conceptual Framework for Liberation”, o qual propõe uma série de estratégias de combate contra regimes autoritários por meios pacíficos. Sharp é um conhecido teórico pacifista, tendo sido já por quatro vezes nomeado para o Prémio Nobel da Paz. O livro, publicado em 1994, inspirou também alguns dos jovens egípcios envolvidos nos protestos que derrubaram Hosni Mubarak. O segundo facto apontado pelo Ministério Público angolano para apoiar a tese de tentativa de golpe de Estado é ainda mais extraordinário: os jovens estariam na posse de um documento, nem sequer produzido por eles, no qual se listam personalidades integrantes de um futuro Governo de Unidade Nacional.

Pedro Coquenão, 39 anos, conheceu Luaty em 2002. Na época, Coquenão realizava um programa na Rádio Marginal, o Radio Fazuma. Um dia recebeu uma mensagem de um ouvinte, Luaty Beirão. Não prestou muita atenção ao nome até tropeçar, meses depois, num tema, “Os Mosquitos Inofensivos”, a lembrar Fela Kuti, que o maravilhou. Ao ver os créditos percebeu que o tema era da autoria de Luaty e escreveu-lhe. Iniciou-se assim uma colaboração que se prolongou por alguns anos e teve como resultado, entre outros, o documentário “É Dreda Ser Angolano”, baseado no disco “Ngonguenhação” do conjunto Ngonguenha. Mais do que isso, aquela primeira troca de mensagens deu início a uma bela amizade: “Não é muito difícil gostar dele, concordando ou discordando do que pensa. Ouvimos muito o que cada um diz. Impressiona-me, ao visitá-lo na cadeia, abraçá-lo e sentir-lhe os ossos. Isso custa-me muito.”

Um panafricanista moderno

Antes da intervenção cívica, antes da música, Luaty Beirão concluiu uma primeira licenciatura em engenharia eletrotécnica pela Universidade de Plymouth, no Reino Unido, e uma segunda, em Economia e Gestão, pela Universidade de Montpellier, em França. Após os estudos decidiu que era chegada a altura de conhecer o continente africano. Pareceu-lhe que a melhor maneira de o fazer seria viajando, por terra, de Marrocos até Angola. Fez-se à estrada com 115 euros no bolso, quatro T-shirts, três calções e um saco com dois quilos de frutos secos (Luaty é vegetariano). Contava com a solidariedade da gente simples que fosse encontrando no caminho e não se desiludiu. Quando entrou em Luanda, seis meses mais tarde, ainda lhe sobrava um quilo de frutos secos.

Em julho de 2012, Luaty deu uma entrevista ao jornalista Rafael Marques, publicada no site Maka Angola, durante a qual falou sobre esta viagem: “A minha intenção era palmilhar por terra o máximo de países africanos possíveis, beber da experiência, enriquecer-me espiritualmente. Eu não sou crente, mas acredito no ser humano, acredito que existe a bondade ainda suficiente para nos inspirar, para nos servir de combustível, para sermos também pessoas melhores. E isso para mim é que é a manifestação do divino. Porque não tenho religião, não acredito em Deus, sou ateu, mas acredito nos seres humanos. Então, foi essa busca da bondade do ser humano, essa partilha, esse encontro, que eu sabia que iria marcar-me de uma maneira que até hoje não percebo plenamente.”

Serena Mansini, irmã de Luaty por parte da mãe, recorda o maior sonho do irmão: “Ele sempre me disse que gostaria de sair de Luanda, e de ir viver para o interior de Angola. Quer construir uma escola no meio do mato, dar aulas aos miúdos, e ao mesmo tempo cultivar a terra, fazendo agricultura biológica. Durante aquela viagem por África ele parou um tempo no Gana, para fazer um pequeno curso de agricultura biológica.”

Serena, 23 anos, a viver em Lisboa desde a adolescência, foi a responsável por uma recente vigília, no dia nove de outubro, no Largo de São Domingos, destinada a chamar a atenção da opinião pública portuguesa para a situação do irmão e dos restantes presos políticos angolanos: “O meu irmão ensinou-me muita coisa. Aprendi com ele que uma única pessoa pode fazer a diferença. Quando um se levanta, vários outros o podem seguir.”

A aliança entre os “filhos do regime” e os filhos dos pobres

A prisão dos 15 jovens democratas desencadeou um movimento de solidariedade, estruturada a partir das redes sociais. Alguns dos mais ativos elementos desse grupo são rostos muito conhecidos da vida cultural angolana, como o ator Orlando Sérgio, o primeiro negro a representar o Othelo em Portugal; o artista plástico Kiluangi kia Henda, o escritor Ondjaki, o fotógrafo Rui Sérgio Afonso, os músicos Pedro Coquenão e Aline Frazão, a arquiteta e curadora Paula Nascimento e o cineasta Mário Bastos. Nos primeiros vídeos produzidos pelo grupo participaram personalidades angolanas como os músicos Kalaf Epalanga e Paulo Flores, o artista plástico Nastio Mosquito, e ainda figuras públicas de outras nacionalidades, como o escritor moçambicano Mia Couto, o cantor e compositor brasileiro Chico César, ou a espanhola Pilar del Rio, presidente da Fundação Saramago. O grupo organizou vários espetáculos, em Luanda e Lisboa, com o objetivo não apenas de chamar a atenção para a situação dos presos políticos mas também de angariar fundos que permitissem apoiar as famílias dos detidos.

Após o início da greve de fome de Luaty, e de mais três companheiros seus (os quais, entretanto, suspenderam essa forma de protesto), o movimento expandiu-se ainda mais, saindo das redes sociais para as ruas, sob a forma de um conjunto de vigílias, a última das quais, na noite do passado domingo, foi interrompida pela chegada de forças policiais fortemente armadas.

A cada hora que passa, à medida que se deteriora o estado de saúde de Luaty, deteriora-se também a imagem de José Eduardo dos Santos

Um aspeto interessante do “movimento revu” tem a ver com o facto de ter conseguido juntar jovens de classe média e média-alta, pertencentes a famílias dos círculos do poder, e jovens de origem humilde, como Manuel Nito Alves, preso pela primeira vez com apenas 17 anos, por distribuir T-shirts com frases contra o Presidente José Eduardo dos Santos.

Este é já o mais importante movimento cívico a emergir em Angola desde a independência, e o maior desafio enfrentado pelo regime desde o fim da guerra civil. Um pouco à semelhança de Luaty, um “filho do regime”, também muitos dos jovens ativistas que estão por detrás do amplo movimento de solidariedade que cresce em Angola são originários de famílias pertencentes aos círculos do poder político e militar. Nas redes sociais são cada vez mais frequentes os alertas e comentários contrários à atuação dos dirigentes angolanos, por parte de conhecidos militantes e simpatizantes do MPLA.

Ismael Mateus, um dos mais respeitados jornalistas angolanos, publicou na passada terça-feira, na sua página no Facebook, um texto que exprime muito bem a perplexidade e insatisfação de um grande número de angolanos, próximos do partido no poder, mas que não se reconhecem na forma como os dirigentes angolanos estão a enfrentar a presente crise: “Está muito claro aos olhos de todos que o nosso Governo, os nossos dirigentes não estão a saber lidar com a situação. Estão a seguir o caminho da manipulação, da mentira e da mania da perseguição. Em vez de enfrentar de modo adulto e responsável toda esta crise, o Governo está a portar-se como um pai autoritário que confrontado pelos filhos decide trancá-los em casa, para provar quem manda. Mesquinhices, meras mesquinhices, que podem pôr em perigo a estabilidade nacional. Querem-nos reféns do medo, o medo de falar, o medo de pensar, e agora até o medo de orar. Os nossos dirigentes revelam-se assim mais ingénuos do que imaginávamos, ao acreditarem que se consegue parar a força do povo com armas na mão. Um erro político crasso para quem tem a nossa experiência, e um grave problema de memória histórica, que os impede de ver a nossa própria lição, onde todo o poder militar colonial não conseguiu impedir o grito pela liberdade.”

Nos próximos dias, nas próximas horas, não se irá jogar apenas o destino de Luaty Beirão. Irá jogar-se também o destino de José Eduardo dos Santos. O Presidente angolano ainda vai a tempo de libertar todos os presos políticos e de retomar o processo de democratização. A cada hora que passa, à medida que se deteriora o estado de saúde de Luaty, deteriora-se também a imagem de José Eduardo dos Santos.

Espero que Luaty possa regressar a casa, muito em breve, para abraçar a esposa, a fotógrafa Mónica Almeida, e a filha, a pequena Luena, com apenas dois anos de idade. Não poderá tão cedo, imagino, cumprir o seu sonho de construir uma escola algures na Huíla, de onde é originária parte da família (tem também raízes em Aveiro), e dedicar-se ao ensino e à agricultura biológica. Mas será — já é! — um herói vitorioso. O que existe hoje em Angola ultrapassou a simples vaga de solidariedade com um grupo de jovens injustamente presos, para se transformar num verdadeiro movimento pró-democracia. O que quer que venha a acontecer, algo mudou para sempre. A História de Angola não será a mesma e Luaty Beirão faz parte dela.