ROMEU E JULIETA – O ARTIFICIO DO FOGO

Tenho memórias difusas e encavalitadas do primeiro fogo que vi. Entre o pesadelo, o longe da memória e a realidade, os sentidos tropeçam uns nos outros e como que se transformam num só. Ou num nada. Ou em tudo.

Os sinos dobram e o povo da aldeia reúne-se. No meio do pavor, todos os sentires avessos à união se afogam.  A galinha da vizinha passa a ser tão importante como a minha. Ainda que no dia seguinte, paridas as cinzas, tudo volte à normalidade. O processo em tribunal continua, porque o vizinho roubou dez metros de terra ao vizinho. Os filhos e os netos retomam as mágoas herdadas, ainda que se perca no tempo, que não se saiba o quando e como começou a razão de tanto ódio.

Mas naqueles dias, não há Montecchios e Capuletos. E Romeu e Julieta carregam o mesmo balde, onde apenas cabe água para apagar aquela chama. Fazem-no sem medos, apesar do muito medo que aquele elemento estranho transporta. Fazem-no à vista.

Há um só povo. Uma só família. Um só fogo.

E quando relembro a minha primeira visão, daquele indomável inferno… tudo se me afigura estranho. Igual senti em todos os demais. Quando tentei subir a Gardunha, em Junho passado… Toda a gente era uma só cara. Como se os gritos de ajuda e de pavor viessem de uma só boca. Lembro-me de um homem que me pediu para parar. Disse-me para esperar com ele. E esperei. E aqui tudo se confunde de novo. Esperei uma hora ou cinco minutos? Apontava para trás das casas, onde se viam as chamas. Chega cá? E eu sabia lá. Disse que não. Que o vento estava contrário.

E eu tenho tanta certeza do que disse, como tenho da minha absoluta ignorância de para onde o vento corria. Corria para todos os lados, virava sem orientação. Pelo contrário, tenho a certeza que aquele homem sabia bem mais, só precisava de olhos que olhassem naquele direcção e lhe dissessem que “tudo há-de correr bem”. Calhou a que assim fosse. E o vento poupou as casas.

Quando ele me chamou “doutor” – “bem-haja, doutor” — senti-me o mais inútil dos seres.  Acho que foi assim. Ele disse “doutor” e eu disse “tenho de ir”. E só agora que escrevo, me relembro. Acima, estavam os homens e mulheres da protecção civil, estava a GNR. Estava ele mesmo, mas o artifício social de uma licenciatura (em Direito) aconchegou-o.  O que é, objectivamente, falho de razão. Mas a razão é estranha a estes momentos.

Entretanto, caiu por uma ribanceira um carro dos bombeiros. E tudo e todos viraram polícias sinaleiros. Uma espécie de barricada erguida para que todas as ambulâncias se dirigissem para o lado oposto donde eu vinha.

O fogo queima os ódios e as invejas. Porém, somente na véspera da cinza do dia seguinte. Em que voltam as galinhas das vizinhas que são mais gordas do que a minha. Tenho de terminar que escrevo e rememoro o que nunca contei, porque nem de tal me lembrei até agora (não de contar, mas de saber).

Na história singelamente recordada e contada, fui lá acima, tentei subir à Casa do Guarda, falei com pessoas, caiu um carro dos bombeiros, e voltei para baixo. Foi mais do que isso, pelo que ora leio.

E termino, antes que me arrependa e apague. O fogo é uma realidade estranha, a quem o vive, a quem nele morre, a quem nele perde tudo.

Imaginem um gato e uma leoa. O fogo domado numa braseira ou numa lareira. E o fogo à solta, faminto de ir para onde o vento o empurra. Queimar, queimar, queimar.

É, pelo visto e sentido, necessário esse artificio para que Romeu e Julieta, por uma só noite, se possam juntar, e sem que a história não acabe ali mesmo. Mortos matados, pelo veneno essencial.

Fogo, disseste, envolto em artificio/artifício o pediste.

Resta a esperança. Que, algures, lá por mais algures-longe que seja, outro elo tenhamos, que nos una tanto assim, e que não passe pela desumana manha do fogo, que na manhã seguinte asinha as cinzas extinguem.

Nota: este texto é a resposta a um desafio que (me) lancei e a que o Miguel Estudante respondeu. Tentei a obedecer a uma regra, escrever em 10 minutos. Não cumpri. A Palavra: fogo; Contexto: artificio. Mas, agora que lhe revi os erros e gralhas, sem modificar a essência, assevero que o que acima digo não é ficção. Será pobre, arrogante, pateta, será o que cada um quiser ler. Mas custou escrever. Seguir-se-ão mais quatro ou cinco. Egoísmo meu, que era só para tentar escrever de novo. Acabei por me queimar, neste caso. Com o fogo não se brinca.

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