Em nome da República, um Aplauso para Filipe VI

Dois Factos:

1 – Sou intransigentemente republicano e é também nessa condição que escrevo as linhas que se seguem.

2 – Hoje, os deputados do Bloco de Esquerda (partido em que votei) resolveram ficar sentados, após o discurso de Filipe VI, Rei de Espanha. Ao contrário, os deputados do PCP souberam erguer-se, ainda que não batendo palmas.

Adiante.

Fora quando actuo de cabeça quente, faço sempre por reflectir no bem ou mal que advém de cada uma das minhas acções públicas (não para mim, a verdade é que nunca para mim; não tacho, não tacharei e não me limitam o dizer).

Que pretenderam os deputados do Bloco demonstrar? Que bem adveio para a causa republicana espanhola o facto de terem faltado meia-dúzia de palmas, num parlamento republicano?

Espanha e Portugal são dois Estados de Direito Democráticos. Filipe VI é o Chefe de Estado de Espanha e envergonha-me ver o que vi hoje. E, “lamento” informar, mas Filipe VI é a escolha do povo espanhol. Nunca foi a votos, é certo. E não me venham com a Guerra Civil, com o rojo que eu seria. Quantas fronteiras atravessaria pela República. Imagino de andaria a salto entre Portugal, Espanha e França. Ou talvez não; a verdade é que não sei; não sei o que raio seria, nessas alturas de então. Que coragem teria. Se me impediria o medo de morrer. Seria pastor, seria letrado, seria pastor letrado, seria eu como sou agora? Sei que hoje sou franco e livre que chegue para dizer o que penso. Com a facilidade que o 25 de Abril me permite dizer de mim – nunca saberei se, nesses tempos, não seria um cordeirinho sob as patas da ditadura, enquanto mamava nela.

Tenho a certeza possível de quem sou hoje. Nascido em ’72.  Sou arrogante e, ou humilde ao ponto de não saber de mim noutros tempos e desventuras. Já me basta lutar o que luto, perder o que ganho.

Adiante.

Estamos em 2016. Nenhum deputado se representa a si, embora o exercício do cargo seja indissociável da pessoa que o exerce. Mas um colectivo representa não só quem nele votou, mas toda a República, e não pode cuspir na cara de um Chefe de Estado de um país amigo. Da mesma forma que aqui há dias falei de Fidel e relembrei Ortega Y Gasset, faço o mesmo agora.

Em nome da Republica e do que ela representa, daqui aplaudo Filipe VI; e não esqueço a forma como se vem exercendo. É precisamente em nome da Republica que este Chefe de Estado devia ter merecido o respeito que não teve. Quiseram marcar um ponto, que são republicanos; que preferiam uma República no país vizinho.

Também eu. Também eu sou Republicano de XXI. E também eu, em condições que não estas (porque conheço a realidade espanhola), preferiria aplaudir um Presidente.

Vamos a um exercício de estilo. E se fosse o Papa Francisco? Também veria os deputados do Bloco sentados, porque, tal como eu, não são católicos? Há que olhar as pessoas além dos cargos que exercem. Urge distinguir o bem do mal. E avançar a partir daí. Apenas da conclusão que tiremos, em face deste fim de mundo que o século XXI se prepara para ser.

Vamos a exemplos próximos. Jamais estenderia a mão ao ex-Presidente da República. E fá-lo-ia em nome da Democracia. Jamais estenderia a mão ao “Presidente” brasileiro. E fá-lo-ia em nome da Democracia. Jamais estenderia a mão ao Maduro da Venezuela. E fá-lo-ia em nome da Democracia. Nunca, em circunstância alguma, deixaria de, havendo oportunidade, cuspir na cara de trump e dos fascistas que ele vai juntando em seu redor. E fá-lo-ia em nome da Democracia.

O Bloco padece de uma enorme confusão. Perde-se em lutas patéticas, e esquece-se da realidade do momento. No momento, Portugal e Espanha carecem de estar unidos como nunca estiveram (e não me estou a esquecer do Rajoy, assim como não me esqueço que o povo Espanhol o escolheu por duas vezes; relembro-me disso porque sou Republicano e Democrata).

Neste momento vivemos tempos em que se faz História todos os dias. É imperativo não esquecer o passado (e nesse passado lá estaria eu a saltar a fronteira e a lutar pela República), mas ainda mais imperativo é entender o presente.

Sempre que critico o Bloco, e já foram algumas vezes, faco questão de dizer que apesar de tudo manteria o meu voto. Hoje não escrevo tal. E atentem na ironia. Só porque não se levantaram quando um Chefe de Estado discursou no nosso Parlamento? Acho que a resposta a essa pergunta não me deve ser endereçada, mas ao Bloco. A birra foi deles, eu apenas tiro as consequências. Espero que este episódio lhes amaine as dores de crescimento. Terei facilidade em esquecer esta birrinha improfícua que se manteve sentada, pasme-se, contra os valores da Republica.

Quando um convidado entra na nossa Casa Maior, a República inteira o convidou (é a Democracia, estúpidos!). E na Assembleia da República não entra qualquer um. Não tinham de aplaudir, bastava levantarem o cu. E daqui vai a minha vénia ao PCP.

E agora vou jantar, que daqui a uma hora vou sair e “espantar espanhóis”. Vou apenas alinhar numa arruada que marca um momento da nossa História. Mas vou ciente de que me limito a honrar uma memória, que no passado em boa hora se construiu. Vou ciente de que vivo em 2016 e de que a Democracia tem inimigos muitos.

Filipe VI não é um deles.

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