Portugal é fumo… e o resto é Lisboa

“Habituem-se”, foi algo assim que o PM disse.

Não é próprio de um PM, não é próprio de António Costa. E, no que escrevo de seguida, não alinharei no palavreado partidário de uma direita desesperada, que se agarra à visão do fogo como uma espécie de bombeiro-incendiário.

É certo, tal como disse António Costa, que uma reforma assim não se faz da noite para o dia. Mas algo poderia e deveria ter sido feito em quatro meses. Assim a política se exercesse. Não falo de fazer nascer uma nova floresta, como se se tratasse do pé de feijão do João.

Mas com a seca, com o calor irrespirável, com um mero olhar à meteorologia era mais do que óbvio que isto podia acontecer. E ao Pedrogão de Junho poderiam acrescentar mais quatro meses sem chuva.

Mudar a Ministra não apagará os fogos que persistem. Mas a senhora já demonstrou que não é apta, que está cansada, que não teve férias.

Assim como o Secretário de Estado, omnipresente em Junho, que ora resolveu aconselhar as populações a serem as primeiras a agir. Como se ele não tivesse visto que sempre assim foi. Viu em Junho, viu agora de novo. E se não estivesse tão cansado, ter-nos-ia poupado a tamanha indigência mental.

Nestas circunstâncias, qualquer reforma (em curso ou não) precisa de novas cabeças. E, preferencialmente, que não estejam apenas habituadas ao fumo incómodo do tubo de escape dessa Lisboa auto-cercada pelo pseudo-pensar. Essa Lisboa de cartões, ora rosas, ora laranjas. Menos choro, mais atitude.

Hoje, um escrevinhador do Expresso, de cognome raposo, conseguiu fazer a ligação entre cem mortos em quatro meses e a Operação Marquês. Disse às vítimas do país que desconhece, e que não é o dele, para ligarem os pontos entre sócrates e António Costa.

O que distingue esta tropa incendiária, que não alinha uma com duas e que usa água para apagar os fogos nos óleos das frigideiras, da matilha que desde há quatro meses se vem acendendo e reacendendo… Não era bem uma pergunta, daí não ter colocado o ponto respectivo.

Uma crónica não mata, concedo. Mas uma crónica indigente no modus operandi, como a referida, revela o pensamento de uma certa forma de olhar a política e a res publica. Ignorando ambas, em troca duma festinha no lombo. E essa atitude pode matar.

A floresta, estuporados seres, não se desorientou em dois anos.

Voltando a Costa.

O país precisa de um sinal de mudança enquanto as coisas não mudam.  Não carece disso que hoje foi dito. Demitir a Ministra não resolve nada, no imediato. Mas, relembro, ela está em guerra com as entidades que tutela desde antes de Pedrógão.  Não achou necessário entender este Outubro. Poderá não ter sabido, não ter querido, precisar de férias.

“Ontem” poderia ter sido minimizado. Não ouso dizer evitado, porque sei bem como o vento ventava.  E aventa-se uma faúlha a 5, 6 quilómetros. Com a “prestimosa” ajuda de quem faz da vida um fósforo na caruma; o resto acontece sozinho.

Portugal tem de deixar de ser pensado, apenas, de Lisboa. Mesmo porque Lisboa se está nas tintas para o país. Lisboa e Porto, já agora, em que as fogueiras conhecidas têm nome de santos e são certificadas em cartório notarial.

O Primeiro Ministro tem de entender que também as omissões têm consequências. O cansaço tem consequências. Esta Ministra perdeu a chama, e ninguém mais lha acenderá. Não bastam uns olhinhos cansados…

Há que pôr homens e mulheres no terreno. Pagos para reflorestar e para evitar que aquele cigarro, por dolo ou negligência, caia no chão. Para isso são necessários homens e mulheres que olhem a terra e a floresta e desprezem o cartão.

E não há filho da puta algum, Ministro mesmo ou aspirante, cronista mesmo ou avençado para tal, que voltará a dizer que falta resiliência ou vontade ao Povo.

O Povo desdobrou-se, multiplicou-se. Ou em vez de cem seriam mil, os mortos. Nem tampouco é precisa esta oposição de ocasião, partidária ou ardina. Quem é o primeiro a defender a casa do vizinho? O vizinho.

Não consigo percorrer dez quilómetros sem que não me cheire a fumo. E não falo das vossas aventuras na segunda circular.

E sabem que mais? Fogo algum se apaga com água. Mas com enxadas (na dupla acepção do termo). António Costa, esta era mesmo para si.

Portugal é fumo… e o resto é Lisboa.

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