Triste, baixo e desprezível, EU e os FOGOS

Pedrogão

No meio desta tragédia, sobra tempo para uma guerra dos media contra a Protecção Civil. Há pouco, vi uma jornalista do Expresso queixar-se de como havia sido induzida em erro. A propósito do avião que afinal não caiu – estava maçada, a senhora, e quase me veio uma lágrima. Queixava-se de tudo, e garantia a sua idoneidade. Que muitas pessoas (acho que falou em duas) lhe haviam garantido a queda duma aeronave. E quase me convenceu que no meio deste inferno a culpa foi das fontes. E aprendi, hoje, que há fontes da mãe e fontes da puta.

Nomes? Zero. Segundo a senhora, que disse algo como “sinto-me sem pé”, os media foram enganados. Falou num briefing, sem nomear nomes, mas onde não fosse alguém questionar, não se iria tocar no assunto “caiu um avião”.

A senhora estava realmente zangada, porque avião algum havia caído. E duas pessoas (anónimos) lhe haviam garantido o oposto.

Os senhores jornalistas estão cansados? Imaginem quem realmente lá anda, no meio daquele inferno.

Estamos todos doridos e cansados (o pôr do sol na Estrela é a minha principal fonte de informação — estarei 80/100 kms de em linha recta), imaginem quem lá ande a pisar o terreno, sem dar as costas a um lençol branco, sob o qual “uma senhora” espera que o cadáver de “uma senhora” seja recolhido. Os cadáveres, senhora, não se carregam às costas para a vala comum mais próxima.

Os eucaliptos não são os culpados de tudo, é certo. Melhor, são culpados de nada. São árvores.

E, a chamada lei do eucalipto mantém-se em vigor. Este Governo prometeu revogá-la. Não o fez. E foi exclusivamente por isso que esta tragédia aconteceu. Obviamente! Em dois anos, assistimos à desordenação florestal. À eucaliptação da floresta. Em dois anos a Protecção Civil fritou que nem pipoca. Os Bombeiros VOLUNTÁRIOS não salvam (a cada meio minuto vão ao quiosque mais próximo e raspam raspadinhas). Se não sair nada, voltam. Bebem um leitinho e apagam um fogacho ao pontapé.

A Ministra esteve mal na questão dos bombeiros galegos cuja entrada em Portugal foi negada? Não faço ideia. Não me passa pela cabeça que a decisão haja sido dela, só porque lhe apeteceu. Sei apenas da força do fogo, que aprendi cedo ao ver a Gardunha a arder. Ao ver a Estrela a arder. Se a tomou sozinha, esteve mal. Mas não creio, mesmo porque outros tantos bombeiros espanhóis entraram em Portugal. Mas como disto nada percebo, ouso dizer que a minha decisão seria diferente. Não teriam de ir directo para local, e imagino que em pouco tempo seriam colocados a par da estratégia de combate. Mas, lembram-se de aqui há uns anos, uns bombeiros chilenos terem sido comidos pelas chamas, numa luta semelhante, em terreno que não conheciam? Foi em Portugal. Não me lembro quando e onde. Na minha supina ignorância, imagino que o combate a um incêndio exija estratégia. Concertação. Mas não tenho a certeza, que não sou repórter de lençóis brancos, sob os quais jazem “senhoras”.

Um fogo (assim se diz, por este interior negro) arde um pouco mais, venta um pouco mais do que as fogueiras de Santo António ou João. Também não é um madeiro fronteiro a uma igreja, em véspera de Natal.

Todos os jornalistas e cronistas e especialistas estavam preparados para algo assim. As redes sociais estavam. Eu não estava. E sim, aqui reside um problema. No que me mandam dizer de seguida.

O Governo também não estava. Com dois anos talvez já devesse estar, digo eu. Mas tive o cuidado de antes de dizer isto ir ver dessa coisa das trovoadas secas (coisa não rara mas também assim não muito inabitual aqui nas berças). Ver onde era previsto caírem. Cansado de nada perceber, fui perguntar. Questionei duas fontes (não as identifico, aprendi com a senhora do Expresso) e ambas foram solenes e assertivas.  É difícil prever se uma trovoada é seca ou molhada.

Um exemplo: no Sábado choveu na Covilhã (penso que não trovejou) e trovejou no Fundão. E não choveu. Em linha recta distam uns dez quilómetros ou menos.  Sei que tinha o meu filho numa festa de anos, numa piscina num parque campismo, e assim que ouvi o trovão fui buscá-lo. Eu e todos os pais e mães. Deve ser tara aqui do pessoal do interior. Ventava em rodopio, já não trovejava. As folhas dançavam zumba. Os miúdos estavam a modos que com medo. Para os acalmar, acendi um cigarro e aventei-o para a árvore mais próxima.  Em menos de um fósforo, a árvore transformou-se num cinzeiro sem continente. Depois todos bateram palmas, arrotámos em sincronia, e dirigimo-nos às mulas e machos que nos conduziram às palhotas que nos albergam.

Não se via o sol. As nuvens lá estavam, já com ar de quem não ia chover.

Antes de continuar, é ÓBVIO que a floresta tem de ser repensada. Mas isso também depende de nós. E adoro o cheiro do livro em papel, mas estou preparado para que a parafernália do papel deixe de governar governos.

Asinha termino.

Triste, baixo e desprezível não é a fome de sangue e arrogância dos media (raios partam no avião que não caiu e nas fontes que falharam).

Triste, baixo e desprezível não é a instrumentalização politico-poucochinha que aí vem desta tragédia.

Triste, baixo e desprezível é o facto de este post me ter sido encomendado por vários partidos de esquerda e de eu, que milito em todos, e cumprindo ordens (coisa que faz o meu estilo), o replicar. Perdi completamente a noção; de tanto me vender, em tachos e esquemas. A minha conta bancária foi expulsa do banco, por falta de espaço para tanto verde.

Triste, baixo e desprezível sou eu, sim, por acreditar que a nossa floresta está votada ao abandono. E ousar acreditar que a culpa não é só deste Governo. Nem é só do Governo que o antecedeu.

Triste, baixo e desprezível, EU, sim, por acreditar que há aqui uma culpa colectiva. Não é dos submarinos (que tanto jeito nos fazem). Não é de quem come sopa de eucalipto. Não é de quem não limpa as matas. Não é de quem nunca sentiu uma trovoada seca. E seguramente não é da esquerda e direita caviar que encharca as páginas dos jornais portugueses.

Vamos aguardar que o fogo se extinga, colocar fotografias de bombeiros exaustos; depois vamos criar 64 comissões parlamentares de inquérito. Uma por cada vida que se perdeu.

Triste, baixo e desprezível é dizer que tenho quarenta e cinco anos e que desde que tenho memória isto se repete.

Os media e as politiquinhas que cavalgam a brasa não são tristes, baixos e desprezíveis.

Triste, baixo e desprezível sou eu, a voz do dono.

Aguardarei instruções para o próximo post. Não há palavra que escreva que não me seja encomendada. Quem me conhece sabe isso. Jamais me pronuncio sem que me digam o que dizer. Sou o antónimo dos media – tenho dono –, sou pago a peso de ouro para dizer o que digo. Todos os meus dinheiros ardem juros num offshore, of course & off course.

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