É A HISTÓRIA, ESTÚPIDO; trump, a extrema-direita e Fukuyama

donald-trump-melania-trump-lincoln-memorial-inaugural-concert-jan-19-2017-getty-420x315Estamos em Outubro de 90.

O muro de Berlim caiu há um ano e Fukuyama decretou “o fim da história”.

Esquecendo-se da História, de seus caminhos e atalhos e, acima de tudo de que o homem nunca cessará de ser o seu lobo, Fukuyama, num artigo não tão definitivo como alguns o interpretaram (sempre me soou a uma espécie de connundrum propositado), anuncia uma espécie de statu quo definitivo para a humanidade. Basicamente, a roda histórica tinha terminado de rolar. Havíamos chegado a uma espécie de ejaculação democrática sem orgasmo. Depois, lança um último parágrafo que aparece como um paradoxo, tendo em conta o resto do artigo. Li-o centenas de vezes. Depois cansei-me e acabei por o classificar (ao autor) como um mero idiota.

The end of history will be a very sad time. The struggle for recognition, the willingness to risk one’s life for a purely abstract goal, the worldwide ideological struggle that called forth daring, courage, imagination, and idealism, will be replaced by economic calculation, the endless solving of technical problems, environmental concerns, and the satisfaction of sophisticated consumer demands. In the post historical period there will be neither art nor philosophy, just the perpetual care taking of he museum of human history. I can feel in myself, and see in others around me, a powerful nostalgia for the time when history existed. Such nostalgia, in fact, will continue to fuel competition and conflict even in the post historical world for some time to come. Even though I recognize its inevitability, I have the most ambivalent feelings for the civilization that has been created in Europe since 1945, with its north Atlantic and Asian offshoots. Perhaps this very prospect of centuries of boredom at the end of history will serve to get history started once again.

Estamos em Outubro de 90, dizia arriba. Eu entrava para a Faculdade de Direito de Lisboa e daí em diante fui vivendo a minha história tal como a havia desenhado, em parte, e tal como ela me desenhou a mim, na parte de leão. A História tem estas manias. Não se acanha. Não termina.

Portugal já estava na CEE há uns anitos e era o tempo em que “chovia dinheiro”, que o então PM cavaco, não sei se para confirmar ou desmentir Fukuyama, insistia em transformar em betão. Tractores viravam jipes. Cultivava-se e destruía-se, a soldo dos fundos comunitários e consoante a musiquita. Era um fartar vilanagem, e o árbitro era de Boliqueime, nos arrabaldes de Berlim. E eis 1992 e Fukuyama a transformar o artigo num livro, a cujo título acrescentou “…e o último homem”. E Isto daria uma conversa farta, que não cabe aqui.

E eu lá ia construindo o futuro, sem grandes dilemas. Sem grandes dificuldades, também. Bastava-me trabalhar e não pedir favores. Cheguei à Advocacia e, mais tarde, já após o virar do século, à Universidade da Beira Interior. Sempre interrogando mais do que exclamando. Reconheço daqui que a minha acção política andava ali, ao virar do século, pelo menos que zero.

Um dia acordei e decretei o inicio da História. Tudo cheirava a podre, naquela história aparentemente estagnada. A factura tinha de chegar. Melhor, a factura já começava a chegar. Melhor ainda, a factura nunca havia cessado de chegar.

E o homem nunca havia vestido as vestes de mero conservador do seu próprio museu, ao contrário do mundo insosso que Fukuyama havia previsto. A Democracia mostrava cada vez mais as suas fracturas, por onde entravam bichos que já começavam a fazer peito. E nem de longe nem de perto o western way of life se havia globalizado. Adiante.

Hoje é “o futuro”. Amanhã, a antítese do ideal democrático (não o de Fukuyama) chega ao poder e trump será presidente do “país-norma”, entre suspeições de ser uma espécie de Manchurian Candidate alimentado por putin (é-me indiferente). O que é óbvio é que assim que o baby-man tiver poder efectivo, com todas as suas birras e complexos de inferioridade, o mundo muda em menos de um twitt.

Depois de amanhã, começa manifestação de poder da extrema-direita. Em Koblenz, na Alemanha, le pen (França), hofer (Áustria), salvini (Itália), petry (Alemanha), wilders (Holanda) encabeçarão uma cimeira de fascistas que contará com cerca de mil representantes, vindos de todo o mundo. Os ideais são os que se sabem: racismo, xenofobia, misoginia, nacionalismos extremados, apartheids de todo o género. Um mundo cheio de muros, portanto (tema por onde não me alongarei aqui).

Amanhã será o inicio meramente simbólico de algo que já é real. E o “ideal” prognosticado por Fukuyama (já distópico que baste) leva com uma injecção de todos os romances distópicos e mais um; hoje e agora. A História nunca acabará, ainda que o mundo esteja reduzido a dois seres humanos sempre haverá motivos; por baixo da gravata cultural somos animais e aquela banana é minha.

Amanhã é o fim oficial de 1789 e 1989. Sempre provisório, este fim, que entre a tomada da Bastilha e a queda do muro do Berlim mediaram exactamente dois séculos. E tanta historia rolou. E tanta história “acabou”. E tanta História se fará – assim haja quem lute por ela (os fachos estão a fazer a parte deles).

A história, insisto, não acabou e não acabará nunca. A morte das ideologias foi obviamente uma declaração exagerada, um pouco como a de Mark Twain. Um obituário prematuro, basta atentar neste hoje, com trumps no poder. Não que trump seja um ideólogo, o homem apenas grunhe o grunhir de metade dos eua, como uma espécie de buraco negro. Mas enquanto a Democracia descansava, a extrema direita europeia cavalgava uma ideologia.

E onde quero eu chegar? Na verdade, nem eu sei. Não ouso prever o futuro, limito-me a lutar contra este futuro-presente a que, por indolência, nos entregámos. E não sou inocente, que também eu me entreguei durante demasiados anos ao sofá. Na verdade, ninguém o é.

Podia continuar e continuar. Dizer que vem aí mais do mesmo. A cimeira dos fachos, de que falei acima, não será relatada senão por fachos (o Spiegel, por exemplo, não terá lá lugar). trump já acabou com os jornalistas na Casa Branca. Bias, they say. E habituem-se a um nome. Breitbart (será o jornal oficial do trumpismo e começa a ganhar raízes pela Europa). Há aqui uma suprema ironia, no que toca aos media – instrumento predilecto da sua negação –, que também o jornalismo “acabou” – com valorosas excepções, houve fake news para todo o lado (mas isso fica para um texto “dedicado”). E amanhã haverá mais, basta comprar qualquer jornal.

Antes de terminar este texto, que não farei por estruturar, faço uma espécie de “e se?”. Se o Joe Biden se tivesse candidatado, se a Hillary não tivesse manipulado as primárias democratas e o Sanders tivesse vencido? Se o partido republicano não se tivesse entregue ao tea party? Diz que trump entra com 60% de desaprovação, Obama sai com 60% de aprovação. Que momento lindo, que vale a ponta de um corno. E se o meu carro tivesse duas rodas era uma bicicleta. Se as sondagens fossem sondagens seriam sondagens. Se o jornalismo fosse jornalismo seria jornalismo.

Sim, há culpados. Há que os apontar a dedo. E eu começo para virar o indicador para mim. Fiz pouco ou nada (enquanto persistirmos na ideia de que não mudamos o mundo, o mundo não muda). Mas há culpados bem maiores, que fizeram tudo. Adiante, por ora.

Aqueles fachos que acima nomeei ganharão eleições, assim como o inefável trump as ganhou. Eles ganharam e ganharão “pela via dos procedimentos democráticos”. E acabarão com a Democracia logo de seguida. Já vimos isto antes. Mas não vou descrer da única forma de sermos todos iguais, nem vou lutar por uma Democracia autoritária, sob pena de um paradoxo. Sob pena de entrar em negação.

A nossa Constituição, assim como a alemã são as mais rígidas, no que respeita a estes atropelos (não por mero acaso, basta atentar na história). A Democracia não deve nem tem de se exercer como uma utopia. Somos todos iguais dentro dela, mas nem por isso temos de permitir que entre nela quem se assume contra ela. E não acho que tenha entrado em negação.

Mas como pode um regime democrático lutar com a estupidificação dos povos que mamam reality shows e se intoxicam com a desinformação dos correios da manha dessa europa e desse mundo afora? Não sei dar uma resposta global. Sei que começa no berço (não o de ouro) e continua em casa. Censurar é caminho sem saída. E, mais uma vez, não acho que tenha entrado em negação.

Lamentavelmente vamos ter oportunidade de sentir na pele todo o avesso da liberdade. De voltar a experimentar toda essa “segurança”, que se resume a muros erguidos em redor de cada um.

Ou a velocidade dos tempos ditará uma espécie de distopia real e permanente, como a que se inaugura amanhã. E nunca mais saímos dela. Ou então, e isso depende de nós, ditará um querer-poder falar em Liberdade rápido-rápido. Porque, não se iludam, os próximos dois anos serão de obscurantismo. Ou os próximos duzentos.

Sou pessimista ou realista ou o optimista ou o copo tem apenas água, sem que interesse filosofar sobre se está meio-cheio ou meio vazio.

E cedo ou tarde a História dará a volta. Empurrada pelos homens e mulheres de bem. Contribuirei para que a velocidade de XXI dê para que as trevas que amanhã se inauguram depressa se entrevem. No entretanto, liberdades serão decapitadas. E um tostão é um tostão e diz’que cada homem tem o seu preço. Em breve, em meses, quem se entregou ao tacho perceberá.

A censura deixará de ser regrada, como era no “neo-liberalismo” que antecedeu e permitiu este amanhã que não canta (a aparência de liberdade dava jeito, funcionava tipo panela de pressão). Será sem peias, sem ponta de vergonha; e basta atentar na pós-verdade que trump personifica. Todos os avençados (quem assim se devote) serão incluídos nesta nova era, qual kapos. Em que se pode, no mesmo dia, defender “isto” e o seu contrário. E não passa nada.

Termino asinha. Imaginavam um trump eleito? Um presidente que comunica via twitter? Pois aí o temos. E, por vontade dele e dos fachos acima ditos, a Liberdade acaba amanhã. A História dos homens no Planeta garante-me que não exagero. Se com hitler tudo começou numa cervejaria, passe o exagero, com trump y sus muchachos tudo começou num quiosque de fast-food.

Estamos em Janeiro de 2017.

PS: voltarei ao facebook, por um misto de curiosidade e porque devo.

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