SOARES E BAUMAN, o meu discurso nos Jerónimos

Por mais irracional que seja, há uma espécie de esperança que surge num ano que nasce. Como se a natureza se adestrasse aos relógios dos homens. Como se o novo ano encerrasse o Inverno e fizesse despontar a Primavera.

2016 foi um ano demasiado dorido, de muitas perdas, a maior parte delas explicáveis pela natureza-necessária da mortalidade de dar lugar-espaço a outros. Mas algumas mortes foram cedo no relógio de 2016. Para além das “nascenças” (no sentido de tumor) que se estabeleceram para provar que a história do homem no Planeta insiste em se renovar, ao invés de ser lembrada para poder ser evitada.

Esta parte é em grande medida “graças” aos media e à estupidificação a que se avençam e a que votam e devotam quem os “olha”. Se desde cedo te habituares a comer merda é normal que a merda te saiba bem. Há aqui algo de contra-natura, que se a comida cheira bem é para a comermos, se a merda cheira mal é para a evitarmos. A natureza errou em nada. O homem insiste em enganar e enganar-se.

O “segredo” para que comamos merda com prazer é pôr-lhe um embrulho que caia bem aos sentidos. E aqui a culpa maior precede a dos media. Cabe às famílias que desde cedo depositam os seus pequenos príncipes em frente às televisões, sem curar do que comem. “Ali, ele cala-se”. E é nesse silêncio que ele come e “cresce”. Cala e come. Come e cala.

E chegou 2017 e com ele aquele destempero da crença de que talvez possa ser melhor. Como se bastasse mudar de ano para ser melhor. Quando na verdade, tudo se traduz em ser-se melhor. E se todos realmente nos deixássemos de ser lobos dos nossos iguais poderia ser assim, sim. Melhor. Mas o jogo vai demasiado adiantado. Mas ainda há tempo para não desistir.

Com os sentidos obliterados, a perdição daninha a que nos entregámos obriga-nos a colocar em campo aqueles que prometem muros que lutem uma luta da qual há muito desistimos. Interessa é que não nos aborreçam e nada como um muro erguido à volta de cada um para atingir esse objectivo. Com uma tv amuralhada, lá dentro, connosco. E um sofá.

“Pelo menos que aquela ceifeira pare por instantes, que todos os homens-bons são poucos para mudar, começar a revolver o que aí vem”. Pensei assim, ciente da morte iminente de um eminente, a de Mário Soares. Não me passou pela cabeça que Bauman também se fosse aos primeiros dias desta nova primavera, que já é inverno glaciar ao décimo dia.

E faltam dez para começar o verdadeiro fartar-vilanagem que todos merecemos. Porque mesmo quem fez tudo para evitar isto fez pouco. Aquele que começou lá atrás, no reino do capital, em que tudo se compra e em que tudo se vende. E nós de código de barras na testa. Preto, branco, amarelo, vermelho; cada cor com seu preço. Ascendência, sexo, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, situação económica, condição social, orientação sexual.  E a maquineta que somos passa pela testa dos outros. E no fim sai o preço. E em função do preço aparece a realidade, com mais muros e sem memória. Afasta-te, próximo!

Esta a minha singela homenagem a dois Homens, Mário Soares e Zygmunt Bauman. Morreram, diz a natureza. Estão vivos, que só a carne feneceu. Digo eu.

Sobre Mário Soares já tudo foi dito. O Miguel Esteves Cardoso escreveu a súmula que faço minha, com todo o respeito. Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo. Acrescento umas palavras.

Não é possível imaginar um singular ano dos últimos quarenta do século passado sem passar por Mário Soares. E mesmo já neste século, bulia e trabalhava por aquilo que poucos ousam. Porque parece mal apontar o dedo. “Não se aponta que é feio”. Eu aponto, que é bonito e útil. Lembro-me de como encheu a Aula Magna para dizer que não àquele bicho feio e entroikado que nos atormentava. E eu – porra, somos mesmo poucos e não aprendemos nada com ele; tem de ser ele a levantar-se mais uma vez. Claro que foi um sentir simplista. Claro que Mário Soares arrasta gente. E claro que Mário Soares é Mário Soares. O nome virou adjectivo.

Mário Soares percorreu todos aqueles caminhos e até na hora da morte consegue ser o que sempre foi. Entre a Marinha Grande e o Comboio da Liberdade.

Mário Soares esteve em cada dia antes de Abril e depois de Abril. Há tempos, ainda em 2016, li alguém que considerava que a passagem de ano seria mais completa se acompanhada pela morte de Mário Soares. Imaginei, na altura, o que diria Mário Soares daquilo. De alguma forma, Mário Soares é isto (leva com isto). Esteve em todas. “Errou na descolonização”. Sério? Errou exactamente como? Coloquem-se no tempo e imaginem que poderiam fazer melhor. Tenho imensa curiosidade em saber como fariam.  Escravizámos por cinco séculos aqueles povos e viemos com uma mão à frente e outra atrás? Queríamos o quê? Honras de Estados (os de lá e o de cá?). Pensão vitalícia? Perdemos tudo? Ou ainda fomos a tempo de trazer dois ou três escravos negros para fazer cá o trabalho que faziam lá? E até os pusemos mais tarde a descontar para a segurança social. Somos tão bons. E até os baptizámos, não fosse o demónio acolhê-los, quando a espinha vergasse de tantos trabalhos forçados a criar meninos.

Uma reforma para os pretos que escravizámos por séculos. A culpa desta ignomínia é, oiço dizer, de Mário Soares. Uma descolonização bem negociada logo após uma guerra, pois então. Isso é que era, com certidões do registo predial e comercial passadas em letra de lei. Que não passe pela cabeça de alguém que considero justo o processo de descolonização. Aquele “Queriam o quê?” lá acima não é de despeito. “É a História, estúpido”.

Tudo correu mal, menos a libertação dos Povos. Roça, sem desculpa à vista, a injustiça daquele rótulo de “retornado” com que foram “acolhidos” os que regressaram. E essa injustiça cabe aos brancos de cor, essa gente imaculada.

Nunca votei Soares. Mas com ele aprendi o que é a política, o que é ser político. Não aquele politiqueiro de corredor. Ser Político, fazer Política é a mais nobre das actividades. Ver além de um mandato em que se começa de imediato a trabalhar para ser reeleito no seguinte. Mário Soares é Política, porque Política é pensar além dos aplausos do mês seguinte. O Homem errou? Ui. Errou imenso. Visto daqui é fácil dizer como seria mais profícuo ter feito diferente. Acontece que foi ele que esteve lá – em todos aqueles momentos DATADOS – e foi ele que ousou.

E poderia falar de tanto mais, mas francamente falta-me a paciência. Quem apenas levanta o cu do sofá para se exercer em dias de unanimismos pseudo-revolucionários merece todo o meu nojo. Criticar é fácil, SER é que é do caralho. Uma palavrinha para o atentado social que representa o esquerdismo: bardamerda. Dói devermos-lhe não termos trocado um totalitarismo por outro? Cresçam, caramba. Estamos em 2017 e o muro caído em 1989 ergue-se agora em mil. Olhem daqui, com olhos de gente. E lembrem-se duma cena. Houvesse uma máquina do tempo e estivessem vocês lá (idos de agora para lá). Borravam-se todos. Não decidiam. É fácil falar. Estiveram lá? Lutaram e vénia. Sofá e nem por isso.

Mário Soares esteve em todos os cantos e recantos na nossa história recente. Acertou mais do que errou. Acima de tudo, acertou em estar lá. Em cada instante. E decidir, em cada momento. Fora a prisão, em que decidiram por ele, fora o exílio, em que decidiram por ele. Mas nunca vergou. Bem-haja, Mário Soares. Pela lição de vida que farei por perpetuar e levar adiante. És o Maior de nós.

Zygmunt Bauman morreu ontem, aos 91 anos. Conheci-o há um ano atrás. Apenas.

Ou tanto, que me obriguei a ler (quase) tudo dele em pouco tempo. Li, ouvi e se tenho um projecto de PhD a ele o devo. Releiam a frase traseira. Foi de propósito. Na verdade, se comecei a escrever sobre sociologia, em forma de quem quer saber mais e de quem quer ajudar mais (a ideia é esta), foi ele que me alavancou. Trouxe-me a sociologia, Bauman. Trouxe-me um olhar diferente sobre a modernidade. Não acho que tenha exagerado nada ao explicar a sua (agora nossa) modernidade líquida em todas as vertentes. Com ele passei a olhar diferente. E lia-o religiosamente na Social Europe (como se não me bastasse a bibliografia imensa, que ele insistia em alargar).

O último artigo de Bauman é de 16 Novembro de 2016 e guardei-o como uma pérola para olhar mais tarde (entretanto já o li). How Neoliberalism Prepared The Way For Donald Trump.

Sociologia alguma, ciência social alguma (e incluo o meu Direito) pode ignorar Bauman. Leio-o ciente de que nada que não se queira pano de chão pode ignorar Bauman.

Sei de uma pessoa (que muito considero) que ao ler isto pensará que eu tenho de ser mais objectivo neste meu encontro com a Sociologia. Que “esgotei” Bauman e que adiante. Tem razão na parte académica. Mas não renego nem escondo os meus vícios. Padeço de uma forma estranha de ser pele. E isso vai reflectir-se onde quer que escreva, para quem quer que escreva.

Quero sair diferente de cada texto que leio e de cada texto que escrevo. Arranjaremos (não é plural majestático) forma de encontrar um plural singular que absorva tudo isso. Tento e tentarei fotografar o mundo visto daqui. E dizer dele. Devo a Bauman parte “disto tudo”. Foi ele que me obrigou a voltar a Marx, e a relê-lo com outros olhos. Aos diversos Marx. E se sou marxista (não leninista), não digo qual deles sou. Não aqui nem agora, certo de que este “ser” tem mais a ver com a ciência de olhar o mundo do que com aqueloutra que Mário Soares praticava.

Dediquei estes últimos meses a ler tudo o que há sobre formas de totalitarismo. Sei que cada tempo deve ser olhado do tempo em que se olha, sem nunca esquecer o passado em que foi.

Soares e Bauman são, metaforicamente e não só, a minha síntese-alvo, à qual me acrescento eu. Não me peçam para ser igual ao que parece bem. Para ser delicodoce. Eu sou eu. Aprendi com ambos (e mais uma centena, mas estes com especial ênfase) a ser um individuo – e não falo aqui dos poucos amigos que mantenho, da família que me educou.

Bem-hajam, Soares e Bauman. Farei a minha parte, no que toca a que os vossos ensinamentos perdurem e, mais do que isso, a que sejam úteis.

2017 anuncia-se como o início datado da perda. Já foi assim demasiadas vezes e sempre demos a volta. Há que continuar, nestas trevas que se anunciam. Assim o Planeta nos dê tempo para que o possamos salvar. Nós somos o menos.

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