Em nome da Liberdade, pela UBI

A Universidade da Beira Interior vai a votos.

E, porque duma Universidade se trata, porque da “minha” Universidade se trata, tenho, mais do que o Direito, o Dever de me pronunciar.

Afinal, ali dou aulas há catorze anos. E ali voltei a ser aluno (de doutoramento) há um ano. Não vou gastar palavras com quem entende que isto é prosa de pseudo-intelectual – não o fiz para me “armar ao pingarelho”, mas para aprender e, eventualmente, para contribuir para esta minha casa. A minha alma mater é, naturalmente, a Faculdade de Direito de Lisboa – se um dia concluir o doutoramento, com prazer terei duas.

Na FDL, a meio do primeiro semestre do primeiro ano, um professor encostou-me um dia à parede. “Aqui e agora há que decidir, você quer ser o quê? Pode ser tudo ou, então, um mero Advogado de província”.

Desde que me lembro de ser gente que quis ser Advogado. E desde que me lembro de ser gente nunca pensei em sê-lo que não onde o sou. A resposta foi óbvia. E apego-me à metáfora. “Só quero mesmo que me largue”. Detesto que me limitem os movimentos. Aquele indivíduo conseguiu, numa conversa de menos de cinco minutos, obrigar-me a optar. No momento. E passei a ter as notas por cadastro.

A magia que era ter aulas com o Marcelo, com o Freitas do Amaral, com toda aquela gente (de direita – kidding, não resisti), toda a magia acabou ali. Tirei as medidas ao curso e optei. Não me fui queixar, nem de tal me lembrei. “Faço esta coisa com uma perna às costas e agora acabou-se esta magia”. Vou viver outra. E fui viver Lisboa, por cinco anos. Vivi-a intensamente. E em boa hora o fiz. Encontrei essoutra magia e comecei a dar os primeiros passos nisso de ser Homem.

Tinha dezoito anos. Não virei homem no dia seguinte. Mas a minha média (eu que vinha do liceu com médias do tamanho da minha idade) desceu a pique.

O que raio tem isto a ver com a UBI? Tudo e nada. Depende de onde se olhe. A ligação é que não quero mais ver a UBI, a minha Faculdade e, acima de tudo, os meus Alunos com medo.

Vamos lá então à UBI. Aquele patético professor limitou-me a acção. Mudou-me o caminho. Se em boa hora o fez? Claramente que não. O que aqui releva é que não tinha o Direito. E eu podia ter dado exactamente no mesmo, mas sem ser encostado à parede. Se me dizem “ordeno-te que me escolhas”, eu escolho o caminho inverso.

Não é o caso, mas achei por bem começar assim este meu depoimento. Quero alunos que ousem, quero alunos que lutam. Não quero alunos que não se exercem, ou que quando se exercem o fazem com e por medo.

Universidade e Liberdade são sinónimos. Já dei aulas “durante” três reitores. Santos Silva, João Queiroz e o actual António Fidalgo. Os dois primeiros tiveram a importância notória que tiveram. O primeiro inventou a UBI moderna, o segundo deu-lhe o impulso então necessário, e foi importante por ter eliminado alguns métodos arcaicos d’antanho. Durante este tempo, em que dei aulas em três faculdades, nunca vi medo. Vejo-o agora, para meu lamento. E vejo a minha Faculdade de Ciências Sociais e Humanas empurrada para canto.

Pertenço ao Departamento de Gestão e Economia, embora a maior parte das minhas aulas sejam dadas ao curso de Ciência Politica e Relações Internacionais, que cabe noutro Departamento. Respeito imenso o Presidente do meu Departamento, Alcino Couto, tal como todos os outros anteriores directores de Departamento (terei que dar aqui um destaque à Susana Garrido – se me mantenho na UBI, a ela o devo, que colocou o mérito à frente do resto). E em igual medida respeito o Presidente da minha Faculdade, Pedro Guedes de Carvalho, que se mais não pôde fazer foi porque esta Reitoria lhe limitou o caminho.

Tenho esta mania de ser o que sou – Advogado –, e apesar de a Susana Garrido nunca me ter dito nada, estou certo de que se não fosse ela, e os meus resultados, eu já teria marchado há muito. Adiante.

O actual reitor resolveu transformar a UBI numa espécie de empresa que procura investidores (o que, no início, insciente da transformação que se queria), até achei interessante e saudavelmente ousado. Esqueceu-se, o actual reitor, entre tantas demandas, do que move a UBI. Do que move qualquer Universidade. O Ser. A Razão. O Motivo. A Origem.

Os Alunos. O meus Alunos. Os Alunos da minha Faculdade, os Alunos da minha Universidade.

Este texto terá de ser longo, e não faltará quem o ligue aos meus orientadores de doutoramento (Donizete Rodrigues e Liliana Reis). Recomendo injecções de memória a quem assim pense. E acima de tudo, recomendo juízo. Muito.

E, atentem, o doutoramento é algo de que não desisto. Nem que o vá terminar a Coimbra ou ao Minho. Não prescindirei, nunca, de ser Advogado. E de, quer no exercício da função, quer na Academia “ousar” Liberdade. Demorou demasiado sangue a conquistar.

Como devem imaginar todo este texto “desrespeitou” quem me disse “olha a tua vida”. E eu olho, e por isso testemunho.

Estou há catorze anos na UBI. E não tenho de olhar “a minha vida”. Seria patético que colocasse o meu sofá à frente dos interesses da Universidade onde dou aulas.

Não me encostam à parede ­(como aos 18 anos me fizeram) – e é justo dizer que este reitor não mo fez, talvez porque olhe alunos e professores de cima. Talvez porque nem saiba da minha existência. Na verdade, e penso que isto diz tudo, não o conheço. Comi uns salgadinhos com ele, num evento qualquer que não recordo. O que recordo é aquele olhar altaneiro; coisa habitual em quem padece de um enorme complexo de inferioridade. E infra exemplificarei o que digo.

O que diz realmente tudo e o que me fez avançar para este depoimento foi uma espécie de gota de água. Um email que ontem professores e funcionários receberam do actual reitor, a propósito da morte de João Lobo Antunes. Tive de o ler várias vezes, até acreditar que aquilo havia sido mesmo escrito. Por Um Reitor de uma Universidade, em pleno século XXI.

Não, “magnífico”, não vale tudo. Há limites.

No dia da morte de João Lobo Antunes, o reitor achou por bem aproveitar-se desta triste perda para se auto-promover; e à sua recandidatura. Não exagero, creiam. O email, já público, transcrevo-o de seguida, para vossa apreciação. Diz muito de quem o escreveu, acrescenta nada a quem fez de conta que pretendeu homenagear.

“Caros professores e funcionários da UBI

Por ocasião da morte do Prof. João Lobo Antunes, quero deixar-lhe uma homenagem muito sentida pelo que fez pelo Curso de Medicina da UBI.

            O último email que dele recebi foi há pouco mais de ano e meio, a 19 de Março de 2015, já a doença o consumia. Respondia ao envio da proposta que a UBI apresentara antes ao Ministério da Saúde para uma melhor articulação da oferta de saúde na região e com isso reforçar o ensino de Medicina na UBI. Cito textualmente e na íntegra:

Caro Sr. Reitor:

Li com muito interesse o vosso relatório que considero modelar no realismo e coragem da análise, e na clareza das propostas que, a serem postas em prática, tiram consequências do maior alcance. Assim triunfaria a racionalidade e o sentido do real interesse das populações.

Cumprimentos de admiração e amizade.

João Lobo Antunes

O “nosso relatório” vinha no seguimento da avaliação que, a meu pedido, o Prof. João Lobo Antunes fez do curso de Medicina da UBI em 2014, coadjuvado pelos Profs Jorge Soares da UNL e Rui Costa da Fundação Champalimaud. Essa avaliação compreendeu uma vinda de 3 dias (7, 8 e 9 de Outubro de 2014) dos professores à UBI e uma visita aos Hospitais da Cova da Beira, da Guarda e de Castelo Branco. Em email de 24 de Novembro de 2014 o Prof. Lobo Antunes enviava-me o Relatório de Avaliação.

Senhor Reitor e querido amigo

Aqui vai o resultado do nosso labor. Dê-lhe o uso que entender.

Fizemo-lo com boa vontade e desejo de justiça e rigor. Foi para o grupo uma experiência de que guardamos a melhor recordação.

Cumprimentos muito amigos

João Lobo Antunes

O relatório que fizeram, apontando pontos fortes e pontos fracos e deixando recomendações, foi de extrema importância na afirmação do Mestrado Integrado de Medicina e na preparação da recente avaliação oficial do curso pela A3Es.

            Em público, em auditórios da Fundação Calouste Gulbenkian e da Fundação Calouste Gulbenkian, e em privado, nomeadamente com responsáveis da saúde e do ensino, o Prof. João Lobo Antunes louvou bastas vezes a formação médica que se fazia na UBI.

Morreu um grande médico, um homem de cultura e um grande senhor. A UBI muito lhe deve no reconhecimento do seu curso de Medicina. Paz à sua alma.

António Fidalgo”

Eu, eu, eu…

Morreu sim, um grande Homem. Mas o propósito do reitoral email não é enaltecê-lo, como decorre óbvio dos emails abusivamente transcritos dirigidos ao “Senhor Reitor e querido amigo” com “cumprimentos muito amigos”, com “Cumprimentos de admiração e amizade.”. Como raio pode um Reitor ousar tamanha indignidade?

Vivemos tempos complicados, mas a laicidade é conceito imperativo. Na República e, naturalmente, na Universidade. “Paz à sua alma!?” João Lobo Antunes não terá morrido em guerra com a dita alma. O reitor nem terá dado pelo paradoxo. A fome de cavalgar o momento era tamanha que se esqueceu da essência de Ser Universidade. E o laicismo é um dos princípios basilares. Um reitor, numa Universidade, poderá elogiar o homem, poderá falar de um homem insubstituível. Mas este “Paz à sua alma” é a negação de uma Universidade. E o diabo está nos detalhes e o email vem pejado deles.

As eleições são já a 9 de Novembro. Tudo tem pernas e anda, e este email tem o propósito notório que tem. A UBI deverá muito a João Lobo Antunes, sim. Revelar-lhe os cordiais emails, escritos de forma cordial, por um homem que dedicou a vida ao humanismo é, no mínimo, um desrespeito.  Em boa verdade é uma infâmia.

A Universidade da Beira Interior não pode passar por aqui. A Universidade é, acima de tudo, para os alunos. E vejo a minha Faculdade de Ciências Sociais e Humanas votada pela reitoria a um ostracismo que não imaginava possível. E que só posso imaginar de má-fé. Porque insistente.

A actual reitoria elegeu uma Faculdade como sua inimiga. Como alvo a abater. Uma espécie de antropofagia académica, impossível de justificar.

Universidade é sinónimo de Liberdade. Esta é a minha singela opinião. Não tenho, tendo em conta o meu estatuto de Assistente (convidado), Direito de Voto. Mas tenho o Direito à Opinião. Assim como quem de mim discorda tem o Direito de… mim discordar. Ou então repristinar essa essência das ditaduras, e acusar-me de delito de opinião.

Apelo a todos os meus Colegas que podem votar, que o façam em liberdade e consciência e sobretudo sem medo. Considerem que a lista “Inovar com Experiência” [facebook; site], apresenta professores de enorme valor e dedicação, como Liliana Reis, que carrega a licenciatura de CPRI e o Mestrado de RI às costas. Donizete Rodrigues, um homem que passou o verão entre as Américas a dar conferências. Lançou livros. A UBI nem piou. Faz de conta que não existe. Pedro Silva, Tiago Sequeira, Susana Garrido, Zélia Serrasqueiro, Pedro Guedes de Carvalho e tantos tantos outros. Que dão a pele pela UBI. Todos os dias. E se o segundo reitor voltar (Professor Santos Silva), que em boa hora o faça.

Relembro, igualmente, a todos os Alunos que é também vosso Dever e Direito Votar. Há duas listas, perdão, três listas, à vossa escolha.

Votem. É o vosso dever, o vosso direito. Mas antes pensem, reflictam, contestem. Nunca se deixem tolher pelo medo. Se o medo me aconselhasse, este texto nunca veria a luz do dia.

Tragam o cepo, eu não farei dele almofada.

Aquele que recorda o passado perde um olho! Aquele que o esquece perde os dois!” Provérbio russo citado por Soljenitsine no “Arquipélago de Gulag”.

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One thought on “Em nome da Liberdade, pela UBI

  1. Bem hajas pela paciência que ainda tens pela academia em Portugal. Eu fartei-me há muito tempo. E embora não haja universidades perfeitas, muito pelo contrário, pela minha experiência nas 4 (agora 5) univs onde trabalhei, posso dizer que há uma correlação positiva entre a quantidade de vezes que se usa a palavra ‘doutor’ ou ‘professor’ e a mediocridade. A UBI é uma univ portuguesa e, como tal, há a tal cultura de mediocridade do ‘não podes ser melhor que eu, vou por-te no teu lugar’. Estas acima disso tudo, Rogério. Quero esse PhD porque o deves a ti e ao teu filho e, porque não, a mim? Mas, acima de tudo, deve-lo a ti!

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