Je suis ______ e o placebo do Ocidente

Mossul vai cair nas próximas semanas.

Vão livrá-la do daesh. Assim como “livraram” o Iraque do saddam hussein. Porém, como a Rússia e os USA acharam que era boa altura para marrar um com o outro (eleições nos USA oblige), e como a ONU deve ter sabido disto pelos telejornais, hoje mesmo se inaugura uma nova onda de refugiados. Refugiados, gente; crianças, mulheres e homens.

É importante resgatar Mossul, sim; pena que a questão “para quem?” não tenha sido para aqui chamada. E o “como” é naturalmente à bomba. Vêm aí tempos duros, mais duros que estes. E novos daesh se erguerão.

E quero mandar daqui um enorme “ide beber merda” (bardamerda) à notícia que começa a ser notícia. Que nunca o mundo teve tanta paz como hoje. E, psicopatas, comparam este hoje com há 50, 500, 5000 anos. Placebos avençados de merda. Nenhum de nós tem de se erguer contra essas realidades arrevesadas. Querem estatística? Querem números? Querem amenizar a dor de quem olha a televisão? Sim, porque o que interessa é mesmo a propaganda. Não interessa a dor de quem foge. Não interessa. Nada interessa. Interessa parecer que emendamos um erro. O daesh foi parido pelos USA aquando da última invasão.

Claro que o daesh tem de morrer. O que realmente me preocupa é a forma como o matam. Os danos colaterais, em forma de milhares de refugiados que não têm onde se refugiar. O que realmente me preocupa são as bombas cegas, que matam onde caem.

Insistimos nos erros. Insistimos na falta de estratégia. Insistimos num calendário suicida e homicida.  Mossul será resgatado, não duvido. E até imagino que o daesh acabe aniquilado. Porém, outros daesh se erguerão, para alimentar a indústria da guerra. E continuamos nisto. Erro após o erro. Sem ter em conta a realidade.

Depois, quando uma das capitais do mundo ocidental for atacada. Depois, nessa altura, choramos os mortos. Os mortos do ocidente, entenda-se. Que quem foge ao resgate de Mossul (e já li e vi que chegue sobre a falta de coordenação e estratégia) é só mais um cadáver de criança que dá à praia.

É só mais um cadáver de criança que dá à praia. Algures no Verão. Para vertermos uma lágrima de redenção, entre mergulhos.

Lágrima Chorada. Dever cumprido. E depois todos seremos, as vezes que forem necessárias, o que quer que seja necessário ser. Enquanto escrevi estas palavras milhares de civis terão morrido, em Mossul, em Aleppo.

E, então, Je Suis o que for preciso. Interessa é “jessuíre”.

O Ocidente não vive em Mossul.

Asinha termino. A tomada de Mossul está a ser feita ao pontapé, sem a menor noção da realidade no terreno, que não seja acabar com o daesh, para as televisões verem. Uma licença para o terror.

As nossas certezas inventaram o daesh. E nada aprendemos com o passado. As nossas certezas inventam, hoje mesmo, outras formas de terror. Nada que um “Je Suis” não resolva. Nada que a extrema-direita não cavalgue.

Este “Je Suis…” não passa de uma nova forma de dizer L’État, c’est moi.

E, como se atropelam, no que dizem, ensaios e livros e crónicas, nunca o mundo viveu em tanta paz.

Je suis _________  (preencha o espaço e chore pela criança).

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