Bob Dylan, a forma de a Academia dizer “desisto” e um recorde mundial

Ao meio-dia foi batido um recorde mundial. Nunca tanta gente tinha dito, ao mesmo tempo, “what the fuck?!” Entrada certa no guinness.

Começo por dizer que gosto das letras do músico Bob Dylan, quase tanto como gosto das letras do Chico Burque e do Cohen. A cena é que não estamos perante Literatura, são palavras cujo mote é a música, não o Livro. Sem perder de vista, como é óbvio, que pouco do que é escrito em livro é literatura.

O conceito de Literatura é mutável, dou de barato. Não se reduz aos dicionários. Mas adiante. Sendo certo que conservador tenho pouco, não gostei desta caixa de pandora que hoje se abriu. Um discurso político pode ser literatura? Imaginem o “I have a dream”, do Martin Luther King”. E a bula de uma vacina? Pode ou não virar prémio Nobel da Paz? E, porque escrita, da literatura? Se me tiver apaixonado por uma mulher ao som do “tambourine man, que tal o prémio Nobel da química?

Literatura, no meu planeta é trabalhar as palavras, reinventar línguas, inventar caminhos por caminhar. Construir e destruir mundos. Entrar num, peço desculpa, LIVRO, seja de poesia ou de prosa, e sair de lá diferente. Isso é Literatura. E aquele sentir de malhar e moldar a pedra.

Não me vou alongar muito, que entre o meio-dia e esta hora, já é literariamente correcto dizer “mas que belíssima escolha; parabéns ao Dylan cujas letras para musicas, mudaram a minha forma de estar na vida”.

Já agora, se apenas tivesse ouvido que Dylan ganhou o Nobel, pensaria em Dylan Thomas (morreu em 1953). E estranharia, mas pensaria num prémio póstumo. Por causa de “coisas” como o “Do not go gentle into that good night”. Invocaria outros ESCRITORES mortos, que o mereceriam mais do que ele. Daqui até Pessoa tudo valeria.

Vamos falar mesmo a sério. Este prémio pode ser justificado. Obviamente que sim. Da forma como tantos já o fizeram, depois do wtf do meio-dia. E não repito aqui argumentos pujantes com que não concordo. Não são bem argumentos. São desculpas em forma de justificação.

Bob Dylan é um excelente letrista, sim. Um poeta que se perdeu sem se perder completamente, concedo (mas há quarenta anos atrás); um músico que se ganhou.

Este Nobel é absolutamente ridículo. Uma provocação barata em forma de incapacidade de decidir. Não terá sido à toa que a atribuição foi adiada uma semana. Este Nobel da Literatura atribuído a um não escritor não foi uma ousadia. Foi, estou seguro, o resultado da incapacidade da Academia em chegar a um consenso. E muitos lobbies pelo meio.

E asinha termino. Este ano veremos cd’s com a faixa “prémio Nobel da Literatura”. As editoras (de livros) irão apostar nas biografias, nas colectâneas de letras (e vão traduzi-las, credo). Sairão livros com cd’s na contracapa. O Natal está à porta. E urge vender.

A Academia perdeu-se. Não é coisa de hoje, como se viu nos últimos anos com os prémios Nobel da Paz (UE e Obama) e da Literatura (com excepção do Vargas Llosa em 2010). A ideia era mesmo escolher o melhor dos melhores a cada tempo. Pensava eu. Nos tempos que correm o Nobel da Literatura, hoje encharcado de falsa rebeldia, olha a tudo menos à Literatura. Roça a infâmia deixar de fora Escritores e optar pelo Bob Dylan (que tal inventar um novo Nobel?)

Hoje não vou ler o Prémio Nobel da Literatura. É uma impossibilidade material.

Vou jantar. E continuar a ler o Livro (de uma senhora que escreve) que tenho em mãos. Talvez amanhã oiça o Bob. Na verdade, já algum tempo que não o faço.

Bem-haja à Academia. Por se assumir o espelho vivo e líquido do mundo em que vivemos. O bem-haja é por terem revelado, de forma ostensiva, que são apenas mais um prémio. O menor e menos sério de todos. A escolha de Bob Dylan foi a forma de a Academia dizer “desisto”.

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