Saramago e Gabo; Quero Morrê-Los Devagar

Este texto é dedicado à República e ao António Leal Salvado. Respectivamente, porque hoje é Cinco de Outubro e porque sim (quanto à República) e porque sim e porque não são contas do vosso rosário (no que respeita ao António).

gabo-e-saramago

Estes dois da foto.

Aquando da morte de Saramago escrevi o primeiro dos textos que se segue (I). Aquando da perda de memória do Gabo escrevi o segundo (II). O terceiro texto foi de quando ele morreu (III). Seguem adiante. E era só. Antes do que segue adiante vão umas palavrinhas a que darei o nome de “umas palavrinhas”.

UMAS PALAVRINHAS

Nem sabia da foto; vi-a algures esta semana. Foi tirada aquando dos quarenta anos da Revolução Cubana (googlei depois). Fez-me sorrir. E disse “ai credo” (mentira; disse: “foda-se?!, isto é montagem!”).

Estes dois da foto, porra. Não li ainda tudo deles. Quero morrê-los devagar. Sim, sim, bem sei. Não morrem, eles. Mas morro eu. Quero morrê-los devagar (podia ter escrito uma cena mais camoniana, mas hoje estou tolhido pelo egoísmo). E, creiam, podia ser pior: “Quero matá-los devagar”. Mas isso seria estúpido e mentiroso. Ou poderia escrever algo tipo: “Quero vivê-los devagar”. Mas depois de uma bisca lambida de eu contra mim (empatámos), saiu o título que saiu. Adiante.

Como se a verdade. E é a verdade. Essa de eles não terem morrido. “Quero morrê-los devagar”. Meu egoísmo, confissão que não o é.

O próximo a sair está à distância da minha mão que escolhe na minha parca biblioteca (é realmente poupada, que do Gabriel tenho muito pouco, assim como do Saramago tenho quase tudo).

Esta gente não morre – diz quem sente; e também alguns jornalistas manhosos. E nem sequer deixam de escrever. Apenas param de mandar livros às editoras.

Uma cena: a minha escrita “estratosférica” e “gongórica” (no último ano assim ma apelidaram). Pretendo mantê-la. Não escrevo com o umbigo. Na minha umbiguista opinião, tenho defeitos que cheguem. Mas escrevo sincero. Vossa minha estratosfera, vosso meu gongorismo. Minha paz. Meus maus fígados, minha péssima forma de alinhavar palavras.

Adiante, à gente que o é de gente.

“À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova”, em edição que tive a sorte de achar e o infortúnio de perder (emprestei ou imaginei), assim dedicou Saramago o Memorial do Convento. E tenho a 17.ª edição, sem dedicatória.

Fizeram reportagens de longa metragem com isto. Saramago apagou uma dedicatória. Ai que se apaga a memória. Ai que se vai a história. Estalinista! É mas é matá-lo! Azar, já morreu. Para vós que assim pensais. Puta que vos pariu. Como ousais?

O homem amou uma mulher, depois desamou-se, desamaram-se. Sei lá eu. Amou outra. Depois outra. Fez o que fez. Apagou uma dedicatória. Que raio temos nós a ver com isso. É lá com ele, é lá com ele….

Depois de morrer a conversa muda. O texto é meu, agora e lamento. Nas letras de Saramago romance algum se chama “Memória de Minhas Putas tristes”. Esse título é do Gabo. Estou a ater-me apenas ao título, nada mais. E nem sequer aconselho a leitura, que esse é caminho vosso. Assim como foi o meu.

Em frente. Ou teria de falar ainda de falar dos alegres chulos de Saramago a quem não vi procuração. Tenho uma Clarabóia no sótão. Às vezes deixa entrar água. Essa é a única clarabóia que tenho. Não li outra. Falei de Saramago, e destes pormenores, que lhe acompanho – proximidade geográfica oblige –; as vidas que lhe inventam. Como se a dele, escrita e publicada em vida, não chegasse. Do Gabriel e destas viúvas alegres, nem sei se as tem. E dou graças ao Atlântico. Adiante aos textos com data.

I – SARAMAGO MORREU – A MINHA VIDA SEM PARDAIS [19.06.10]

Não é à pessoa.

pardalEscrever é ir além do que se é; só quem o conhece pode destrinçar o ser que acorda e dorme. Não é o meu caso. Nunca vi Saramago e nunca ansiei por isso. Saramago era para mim um livro que se lê. Tão-só. E tão só o fiz quando o fiz. Cresci – de crescer (os anos não são para aqui chamados) – a lê-lo, ao Saramago-livro. Li o Memorial como quem vive uma vida. Saí dele diferente, como quem – por causa – se decide numa encruzilhada. Ele há disto? Que coisa é esta que me deforma & forma desta maneira intrusiva? Na altura, a anos-luz deste presente circunstancial, senti Saramago um escultor, moldando sentires na pedra bruta do meu ser. As palavras do Memorial têm cheiro e sabor e olhos. Ouvem e palpam. Lá estão e cá hão-de ficar para sempre, como parte de mim e de quem de mim veio e há-de vir.

Todos os Nomes. Ainda hoje aquele sou eu. Saramago tem o dom de nos transformar e de nos transformar também. De nos transformar porque não saímos diferentes da discussão, e de nos transformar também porque nos obriga ao protagonismo. Ordena-nos, como que sob ameaça, o papel principal. E lá andei (e ando) entre registos de nascimento e de morte. À procura.

Ensaio sobre a Cegueira. Ceguei primeiro (naquele semáforo) e fui o fingidor depois; Homem Duplicado, procurei; O Ano da Morte de Ricardo Reis, entrei vezes sem conta naquele quarto de hotel.

Não se traduz este sentir em palavras (tento): a minha angústia de hoje, a minha dor, resume-se (?) ao facto de não mais haver mais daquilo (disto), como que a extinção de uma espécie. Acabou-se o chilreio obrigatório e maçador e divertido e saltitante e definitivo (imaginem a vossa vida sem pardais). Da certeza da certeza (da minha) de que para o ano não sairá mais um – ainda que eu o venha a detestar (como aconteceu com Caim).

Caim. Com Caim, que eu (ainda abaixo da esperança média de vida, o que me retira autoridade) julguei escusado, senti (assim que o li) que Saramago dizia algo como “estou quase aí e continuo a não acreditar em ti, essa luz que até já vi [quatro pontos em forma dele, disse ele em entrevista] não pode ser, que eu sei que estou deitado naquela cama e que dali me levam metade para aqui e a outra metade para acolá. Às cinzas.”

Assim o quero. Quem manda aqui sou eu. Assim como fiz Blimunda e BaltasarJesus a amar Madalenaceguei o primeiro que cegou. Assim vos dou, eufemismo de marco-vos a ferros. Como vosso pai.

Com Saramago, o homem, foram-se hoje as esperanças de mais intrusões destas. A partir d’agora tenho a certeza de que as páginas não me comandam.

Foi só isto que se perdeu hoje. Este.

Doravante, ler será infinitamente mais cómodo. E aborrecido.

Uma última palavra (e detesto terminar assim) para os que crucificam Saramago ou o enforcam numa figueira, conforme o queiram cristo ou judas: o Saramago que ontem morreu, o dos livros, não tem direita ou esquerda. Foi sempre em frente. Leiam e odeiem ou amem. Ou então calem-se, que daqui não levam votos nem pedidos de mais hóstias ao padeiro.

II – DESCANSA, GABRIEL [07.07.12]

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No dia em que perder Melquíades também eu irei por esse caminho que hoje me dizem ser o teu. Por enquanto, e porque esse dia vem longe, cá continuarei de mãos agarradas à magia do nosso eterno cigano. O teu irmão que te leia “Cem Anos de Solidão”. Vais gostar. E sabes? Foste tu que escreveste…

Claro que sabes! Sinto daqui o teu piscar de olho. Só tu para (te lembrares de) te esqueceres. E agora? Prendemos-te à árvore, como fizeste ao outro? Conheço essa árvore (foste tu que ma ensinaste) e sei que não a largarás mais. Respeito e compreendo e aceito, mas não me peças mais.

Bem-haja, irmão. Vou dar-te a ler ao meu filho. Lamento, mas não te esquecerei! A culpa é tua: Úrsula, Melquíades, José(s) Arcadio(s), Aureliano(s)… Graças a ti a frase lá de cima nunca acontecerá.

III – GABO DIZ QUE MORREU – A MINHA VIDA COM PARDAIS [17.04.14]

Gabo,gabo-i

Não era suposto sentir-me assim. Chamaste a um dos teus livros “Crónica de uma Morte Anunciada”. Pego apenas no título que escolheste para o livro, não no que nele dizias. Quem não o leu que o leia ou que não o leia, como prova de que continuas vivo. Adiante.

Quando há dois anos te esqueceste, eu sabia que continuavas a anunciar a tua morte. Continuavas a anunciar, sim; porque já antes havias dito ao mundo que não mais escreverias.

Sacana. Tu és sacana. Quiseste morrer-te, ou descansar-te do mundo, mas não nos morreste. Assim como – lamento – não nos morreste hoje. Tenho um milhão de palavras guardadas que o gritam. São a tua prova de vida.

Mas há mais.

Tenho mais provas. Provas de que vives e não morrerás. És culpado. Eternamente culpado. Condenado a fazer magia. Parte de mim veio de ti. Essa magia que punhas nalguma da tua escrita, aquela magia que eu faço por fazer todos os dias com o Francisco, com o meu filho.

Quando me lembro de desistir, olho-te e faço o contrário. Insisto. E estico a corda ainda mais além. Um metro mais além. Cem metros mais além. Um mundo mais além. E, como que por magia – essa tua magia –, ela nunca rebenta. E tem um milímetro, ela. Não lhe inventas mais um metro, à corda. Mas ela não rebenta… E quando a solidão trepa por mim abaixo, lembro-me do nosso cigano. Lembro-me de trechos de ti. E eis-te de volta. E eis-me de volta.

Não era suposto sentir-me assim. Tu já tinhas anunciado a tua hora. Amarraste-te àquela árvore e disseste que dali não saías mais. E dali não saíste. Mula teimosa.

E hoje, estava eu a esticar as pernas, antes de jantar…

E hoje, estava eu a esticar as pernas, antes de jantar. A Nina veio dizer-me. “O Gabriel García Márquez morreu”. Acho que respondi nada. Também não era uma pergunta. Que morreste. “O Gabriel García Márquez morreu”. Fiz muito de conta que era nada comigo. Para mim. Morreu? Qual Gabriel García Márquez? Ele há tantos com esse nome.

Não era suposto sentir-me assim.

Mas sinto. E senti. E chorei. E depois ri-me a pensar na puta da árvore a que te prendeste. Que imagino a mesma onde prendeste “o outro”. E a seguir chorei de novo. E consegui rir e chorar ao mesmo tempo. Sempre fizeste de mim o que querias. E não tenho como te agradecer por isso. Ensinaste-me que o impossível se reduz ao tamanho de uma frase mal imaginada. Uma frase sem magia. Um acto sem magia. Uma vida sem vida. Sou o teu pombo-correio para o meu filho.

Magia.

Agora paro.

Não tenho mais ganas, por hoje. Com ou sem magia, hoje morreu-me um amigo. Quando o Saramago se foi, escrevi uma coisa a que chamei Saramago morreu – a minha vida sem pardais.

A esta tua crónica, dei outro título.

E, agora que escrevi… Não era suposto sentir-me assim. E já não me sinto assim.

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