SENTIR no PIPAPAPIGRAFO e o sorriso do meu FILHO

Um dia encostei-me a uma parede e ali fiquei durante cerca de um minuto. Depois desencostei-me e nunca mais lá voltei. Já me havia encostado a outras paredes, mas aquela marcou-me particularmente. Assim que me desencostei, o prédio que assentava na parede caiu. E esta a razão de nunca mais me encostar a paredes. Esta história, tão verdadeira quanto a palavra cão morder, já terá umas décadas. Depois da experiência de um prédio a falecer, deixei de me encostar a paredes.

Na verdade, era um hábito estranho, esse. De me encostar a paredes. Cheguei a andar nos paredes anónimos (pa). Antes do prédio cair, entenda-se. Que quando o prédio caiu, dei os doze passos rapidinho. E nunca mais fui a reuniões dos pa, pá.

Na verdade, dei treze passos, não doze. Enquanto fugia da derrocada, entenda-se. Esse o meu erro (os treze passos). Ao décimo terceiro passo algo aconteceu. Na altura senti nada. E agora um aparte, se eu “não tivesse sentido nada”, entraria num irreversível paradoxo. Teria sentido algo; o tal “não-nada”. Eu senti efectivamente nada. E segui o meu caminho.

Lembro-me de me ter sentado, enquanto nada sentia. Doze passos de sentir aflito “ai que esta merda me cai em cima” e um passo de sentir “nada”. Vi o prédio cair e nem sequer me preocupei em saber se era habitado. Senti nada. No dia seguinte li no jornal sobre o sucedido. Era um prédio novo há dez anos. Sem habitantes, que tinha entrado em falência, muito antes do meu desencosto. E eu com isso. Voltei a sentir nada. Até lá vinha uma foto do prédio caído. E vi-me sentado num banco fronteiro a olhar, sem realizar. Senti… exacto. Nada.

Hoje, graças às agências de hiper-mega-super-vigilância e suas câmaras, sei [agora] o que se passou no resto da noite. O prédio que eu amparei e depois desamparei. E o que sucedeu.

Mas começo pelo… depois de me levantar. Do banco, caramba. Vocês têm de se manter atentos ou assim não há conversa. Depois de me levantar do banco, dizia, fui a um multibanco. E sentei-me em todos os bancos do multibanco. Há quem lhe chame jardim. Mas não senti o jardim. Se havia flores não as cheirei. Sentei-me naquela multitude de bancos. Fiz várias transferências de banco de jardim para banco de jardim e assim adiante. Sentei-me aqui e ali. Fiz um depósito no terceiro banco. Espirrei e deixei lá o lenço. Ainda hoje pago comissões desta minha aventura, que sai caro sentar e espirrar num banco.

Havia para aí uns treze bancos. Ou menos. Ou mais. Alguns tinham escrito “pintado de fresco”, outros falavam e ordenavam. “Dirija-se ao próximo banco”. Cheguei a sentar-me num banco no Panamá. Mas asinha me levantei, que aquilo tinha o tamanho de uma caixa de correio e chovia. Embora nada sentisse. Vejo pelas imagens que apenas me levantei porque estranhei os dizeres: “offshore”. E, sempre sentindo nada, levantei-me.

Fui a um bar. Pedi uma meia de leite e dois pacotes de não sei quê. Acima me esqueci: as imagens vinham com som, mas aqui/ali (talvez por falta de rede) só percebi a cena que pedi e depois bebi. “E dois pacotes de…”. Julgo que nunca saberei. Mas o certo é que verifico que o bar se esvaziou num instante.

E veio a polícia e mostrei-lhes a carta de peão (estava com a mão direita assente na chapa das tostas mistas). Fizeram-me continência e levaram-me ao hospital.

Episódio de urgência: «Cabeça feita num oito; queimaduras de vários graus em vários sítios, pele rasgada da cabeça aos pés. O paciente não sente.»

O paciente não sente. Agora, já de prédio reerguido [levou uma injecção de capital, daquelas a fundo perdido e sem imposto; tipo classe média pàf], penso nisto.  O paciente não sente. Mas qual paciente? E que isso do não sente? Se não sente, gritei para dentro, não sou paciente. Esta a modos que confuso e confundido.

Sucede que, tenho um amigo que analisa imagens e outro que sente muito. Agendei uma reunião.

Relatório do primeiro amigo: «Ao décimo terceiro passo caiu-te um tijolo na cabeça.  As pessoas fugiram do bar porque sangravas do cocuruto aos pés. E ainda por cima falaste com a polícia de mão na chapa quente. Foste hospitalizado por anos intercalados e não lambeste as feridas. Não reconheceste nenhuma das quatro visitas. Houve uma quinta, cuja presença te causou efeitos. Apareceste nos pasquins como “o homem que nada sente”. Tiveste sessenta e oito visitas de estudo de escolas de todo o país. Tu olhavas vazio, dizias nada. Eles picavam-te com agulhas. Marcavam-te com ferros. Tu nada dizias, e o hospital cobrava bilhetes. Chegaram a mostrar-te imagens dos infames reaccionários. E tu nada.»

Para que conste, segui este conselho e comecei a nadar. Mas, diz quem viu, chegava à parede da piscina e continuava a nadar. E há registos de ter começado a nadar em Castelo Branco (era uma prova de cem metros bruços) e ter acabado – na mesma corrida – a subir ao pódio nos últimos Jogos Olímpicos. Medalha de bronze; os sacanas não tiveram em consideração (e eu também não dei conta) de que atravessei a nado o Atlântico.

Relatório do segundo amigo: «sinto muito».

Fui a um especialista português que exerce em Cuba. Começou por me dizer que eu estava sem dor, que nada sentia. Eu disse: “és parvo”. Ele retorquiu: “parvo és tu”. Depois da tempestade recíproca de insultos ele explicou-me. “Aquele tijolo do décimo terceiro passo acertou-te no pipapapigrafo”.

E eu disse “ah?”. E ele disse “Aquele tijolo do décimo terceiro passo acertou-te no pipapapigrafo”. E depois de nova vaga de insultos, ele explicou-me. “Deixaste de sentir dor. Quando te encostas a uma parede e depois de desencostas e o prédio cai e tu dás mais de treze passos para fugir da derrocada e te cai um tijolo na cabeça é inevitável que a cena aconteça”.

Que me acerte no pipapapigrafo?

– Sim.

– Mas isso é comum?

– Acontece muito.

– Mais do que penso?

– Mais do que pensas!

– parvo!

– parvo és tu!

– Então, deixei de sentir?

– Sim, o tijolo bateu-te no pipapapigrafo.

– E isso fica onde?

– Uns centímetros acima do esternocleidomastóideo.

– o do filme?

– o do fime!

Depois, já de Cohiba nos beiços, Ernesto, o médico, disse-me que muita gente leva com tijolos no pipapapigrafo e nem dá por isso. E que não sente nada. E leva assim a vida, sem sentir nada.

– E faz mal sem sentir? Sem saber?

– Não exactamente. Eles sentem e sabem e insistem. E gostam.

– Mas a eles ou aos outros?

– É uma impossibilidade material fazer mal aos outros sem que o mal não acabe por te fazer mal a ti. Muitas vezes usas os outros para te magoares, ou a quem pares.

– Pares?

– Pares, de parir. Ter filhos.

– Filhos, filho. Tenho um.

– Exacto. E por isso estás curado.

– Não percebo. Estou curado porque tenho um filho?

– Não, estás curado porque sentes. Nunca estiveste verdadeiramente doente.

– Perdi-me

– E um dia o teu filho sorriu-te e encontraste-te.

– Era a quinta visita?

– Disso nada sei, lamento.

– Perdi-me no teu raciocínio, dizia. Mas já percebi. Então já não padeço do pipapapigrafo?

– Padecemos todos. Mesmo sem tijolo.

– E as pessoas perdem o sentir, é isso?

– Uns por instantes, outros o resto da vida.

– Mas eu estou curado? Já não faço mal aos outros nem a mim?

Não percebi o que o Ernesto me respondeu. Mas tinha algo a ver com todos nascermos com pipapapigrafo e com o facto de o pipapapigrafo ser algo muito sensível. A maior parte tem filhos, disse ele. E nem todos se curam. Os filhos não são a cura e ai de quem os tenha para se curar.

Lembro-me vagamente de ter tentado saber a razão, mas depois olhei para o lado. Vi o meu filho e sorri. Ele sorriu-me de volta. Deu-me um beijo no pipapapigrafo. Não sei se estou curado, mas estou bem.

Hoje recebi uma carta do Ernesto. Era a conta.

NOTA: Este texto partiu de um desafio que me lancei, no facebook. Dizia assim: cinco palavras, cinco prosas. Não, não é uma daquelas cenas passa-ao-próximo-e-não-ao-mesmo. Apeteceu-me. Os meus próximos cinco posts terão como título e conteúdo as primeiras cinco palavras que me deixarem em comentário. Não prometo um post por dia, mas garanto o que acima digo. Um exercício, uma brincadeira. Não é um concurso. Apenas algo. Não algo umbiguista, não algo com prémio. Apenas algo. Cada comentador (os primeiros cinco) deixa apenas uma palavra. E escreverei sobre ela. Nada mais. Não é para publicar na Gradiva, prometo. E insisto na regra. Apenas uma palavra. Em português. E começa agora. [esta merda parece um concurso, blargh…; mas não é] Adenda: aceito TODAS as palavras. Mesmo as que ainda não foram paridas.

E cinco viraram sete. Hoje “despachei” três. Calhou e não era minha intenção. “Sentir” (Carina Parente), “Pipapapigrafo” (Fátima Penas) e “Filho” (Alexandre Santos). Foi bom de escrever. Não li, ainda. Corrigi umas gralhas. Vai mesmo assim.

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