“Uma só língua – que roça, agride ou seduz” e o Acordo Ortográfico

«Língua é o que roça, agride ou seduz. Idioma é como se expressa uma pessoa ou uma nação. Definem identidades, podem gerar amor ou repulsa. Sérgio Rodrigues, escritor brasileiro vencedor do Prémio Portugal Telecom de Literatura em 2014, ama a língua portuguesa, derrete-se com ela. Lançou segunda-feira no Rio de Janeiro um livro que nos ajuda a entender como a utilizamos e defende uma atitude de correcção sem subserviência às regras (“se uma regrinha qualquer é sancionada pelos sábios mas não bate bem no ouvido, na alma, então não serve”). E, em entrevista ao Expresso Diário, conta como a utilização lusitana do Português é vista do lado de lá»

É assim, desta forma mimimi (fofinha, mas que acrescenta nada), que começa a entrevista a Sérgio Rodrigues, hoje publicada no Expresso Diário e cuja íntegra penso estar disponível só para assinantes (não perdem nada, creiam). Sérgio distingue língua de idioma. E fá-lo duma das mil formas possíveis, e até que me seduz (acabei de misturar língua e idioma). Sucede que, depois se preocupa em demasia (preocupa-se em demasia) com o facto de “Se nada fizermos, Brasil e Portugal vão deixar de falar a mesma língua”.

E então, qual é mesmo o problema? Aí está a beleza. E cinjo-me (me cinjo) à definição que o autor dá de Língua – “o que roça, agride ou seduz”. Parece o subtítulo de um filme porno. E de Idioma – “é como se expressa uma pessoa ou uma nação”. Visto por este prisma, vemos que o problema não existe.

De todo. Somos e vivemos realidades diferentes (idioma) e é natural que daí saiam línguas diferentes. Não aceito é uma solução por Decreto – o Sérgio, apesar de lhe apontar falhas, concorda com o novo acordo ortográfico. Um mal menor que serviria – as palavras são minhas partindo da interpretação das dele – para que não deixássemos de falar a mesma língua. Mas qual a razão?

Brasileiro algum (nenhum brasileiro) que preze a língua que fala deixará de ler Pessoa ou Eça. E se deixar de ler, que se lixe (foda). Assim como eu não deixarei de ler Drummond ou Guimarães Rosa. E se deixar de ler, que se foda (lixe). Agora virou. Todo o brasileiro (todos os brasileiros) que use a língua que fala deixará de ler Pessoa ou Eça. E se não deixar de ler, que se lixe (foda). Assim como eu não deixarei não de ler Drummond ou Guimarães Rosa. E se deixar de ler, que não se foda (lixe), não.

Se citasse mais exemplos teria de referir autores brasileiros que cá se publicam e autores portugueses que lá não se lêem. Este lá e cá é-me desde logo meio irritante (irrita-me um pouco). Mas é-me tão indiferente. Que quem quer ler em português de Portugal, ao contrário do que insinuas (do que você insinua), lê. E mutatis mutandis (latim, língua que ninguém matou).

Acordo nenhum mudará a realidade. E as línguas evoluirão ao sabor dos tempos. Nessa evolução está a riqueza da língua. Se acaso virarem duas ou dez, sorte ou azar, questão de interpretação. Para mim? Maravilha. Viro poliglota. Se assim não fosse, ainda estaríamos todos a falar em latim. Nada contra, mas foi precisamente por não haver acordos ortográficos que hoje temos línguas a dar com pau (não resisti – vai googlar). Qual a pobreza que daí vêm? Hum?

E o Sérgio esquece que português não é só Brasil e Portugal. Aconselho-lhe (te) vivamente a leitura de Mia Couto, Pepetela, Ondjaki, Agualusa. E de et cætera, um autor que nunca cai em desuso.

Deixem as línguas e os idiomas em paz. O medo do Sérgio (de quem nunca li nada – o que farei por emendar) é a minha esperança. E se o Sérgio acha mesmo (pelo menos dá a entender isso) que a literatura zuca está à frente da tuga, é um sério candidato a publicar na bulhosa, ou na chita da tina. Nos tempos que correm, meu chapa (meu caro), terás razão. Ou então não. Depende do que leias. E foi e é e será sempre assim.

E não me choca ouvir e ler brasileiro. Adoro ler autores brasileiros. E sei que o que leio é doutra nação. Ouvir e ler qualquer língua. Ou idioma. Não será por Decreto, Sérgio. As editoras? E esta acho que se perceberá daqui a um milénio. Que se fodam as editoras. E se não perceberem, podemos sempre recorrer ao inglês.

Dás-te mal com os tempos? Eu adoro as nossas formas diferentes de falar. Se um dia virarem línguas diferentes? Óptimo. As gentes assim o ordenaram. Não uma lei. E nunca tu.

Não o decreto puta-que-pariu, que nos ordena iguais. Tu, que dizes odiar regras, aconselhas uma lei inteira cheia delas. Serás um belíssimo escritor, e farei por te ler (mentira, sou muito sanguíneo e entretanto mudei de ideias), mas não pescas nada de tudo o resto em que te intrometes. A língua, o idioma, o raio que nos parta a ambos é parido pela gente que os usa. Quando mudar, muda. E não sejamos fascistas, ao ponto de impor uma só língua. “Uma só língua”, a propósito, é mesmo um excelente nome para um filme pornográfico co-realizado pela CPLP.

Se por acaso tiveres de usar um dicionário para me entender, problema teu. Ou sorte das editoras, quiçá. Dicionário também vende, Sérgio.

“Uma só língua – que roça, agride ou seduz”. E eis o que sai disto tudo. Um título foda (mau, em tuga; bom em zuca). ‘Tás a ver riqueza da nossa língua, pá?  Por mais que seja diferente, será sempre igual ou diferente ou o que queiras… Será sempre! Mesmo que passe a ser (com vossa licença) dez línguas diferentes.

Tu vês pobreza, eu vejo fartura. E assim nos entendemos.

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