O HOMEM-GARNISÉ *

* Escrevi este texto em Janeiro de 2010. Aqui o republico porque vos assenta tão bem, aos dois (já na altura, confesso, vos tinha em mente; lamentavelmente não me enganei — e digo lamentavelmente porque estão a tentar fazer demasiados estragos). Dou-vos a saturno-devorando-um-filho-goya-romantismo-noticias (1)importância que ambos merecem. E sim, merecem-na. Bestas com aparência de homem. Não sei quem manda em quem, mas sei que são almas gémeas e nunca duvidei que cedo ou tarde se encontrariam. Cá estarei, para aplaudir, quando um comer o outro. Essa a ironia. Sois os vossos piores inimigos/predadores, e ambos sabem disso. Não sou propriamente gajo de deixar as coisas entregues à fortuna da roleta russa. Neste caso, não é preciso mexer muito – vós tratareis de vós. Ainda assim, que ganho com isto? Um mundo mais higiénico. O pormenor do quadro de Goya é a vossa cara. E pouco me interessa quem fará de Saturno. Inevitavelmente, acabará assim. E o mundo, o vosso pequeno mundo, feito de intrigas e maldade, saberá de vós. Nesta história não cabe Hiram Abiff.

A propósito, fumais?

O homem-garnisé é dono da verdade absoluta, aquela de que todos os outros foram despojados aquando de um infeliz episódio com uma serpente e uma maçã. Total nas convicções – feitas de infâmias, cobardia e despeito –, o homem-garnisé deita as cartas de forma imponente, vai sempre a jogo, ainda que não lhe conheça as regras. Paradoxalmente, só assim age (só assim é) fora do seu habitat natural. Neste, uma singular salinha com uma cadeirinha virada para um espelho, o homem-garnisé aceita-se como é.

Quando vai à procura de alimento e se afasta do espelho, o homem-garnisé transfigura-se. Não quer voltar ao assento redutor. Esquece-se da imagem pouca que o espelho lhe revela e confia no tamanho e na perpetuidade da sombra que o sol mentiroso lhe revela.

Fora da salinha, o homem-garnisé vende-se por menos de trinta moedas. Quando alguém não repara nele e se coloca entre si e aquele sol enganador, que o faz ver-se tão grande, sai-se com ameaços entredentes disto e daquilo. Nunca esquece. Morde pela calada, mas quer fazer de conta que tem tomates. Planta opinião como quem ateia as chamas dum auto de fé.

Sempre com fome, o homem-garnisé é todo um sistema judicial. Na toca onde guarda os alimentos, o homem-garnisé faz teatros de marionetes digitais em que os dedos do pirete são os juízes. Como é ventríloquo manhoso, o homem-garnisé lança as vozes que quer aos deditos que manipula. No fim, com voz bebida, põe na boca do juiz as palavras que quer: “culpados! sois todos culpados!”

O homem-garnisé faz músicas de uma nota só. E, tomando-nos por iguais, quer-nos pôr a dançar.

Quando encontra quem o alimente longe daquele maldito espelho que o minimiza, o homem-garnisé afeiçoa-se. Deixa-se haver. Aceita ser a voz do dono que lhe dá ração longe daquele retrato fiel. O dono do homem-garnisé, note-se, raras vezes não é também ele um homem-garnisé. E por aí adiante. Ou por aí atrás, se quisermos ser mais precisos.

O homem-garnisé tem de provar que é corajoso – só assim lhe dão que comer – e para isso faz-nos uma sopa da pedra, aceitando por bons os ingredientes podres que lhe dão. E depois diz: comam-comam, foi o meu dono que mandou e eu garanto que é de primeira qualidade.

E há quem coma e lamba os beiços, gulosos de putrefacção. E pede para repetir, que está muito boa. São outros homens-garnisés. E o homem-garnisé incha de flato. Fica quase do tamanho da sombra que o engana.

O homem-garnisé está agora enorme. Leva imensa gente à toca que arranjou longe da salinha com a cadeirinha virada para o espelho. E aplaude. E aplaudem-no. E aplaudem-se uns aos outros. Homens-garnisés, todos. Levam cromos para trocar. Mais ingredientes podres para as sopas, meias-histórias, coisas de vão de escada. Contam, como se lhes houvessem sido dirigidos, piropos ouvidos de passagem. Ali, na toca sem reflexos, decidem o que o homem-garnisé há-de opinar – entre irmãos de desgraça. E bichanam, para que ninguém os ouça. Têm esse cuidado. Tem esse cuidado. Escusa de tramar tão baixinho, o homem-garnisé, que já todos o conhecem. Já todos sabem o que dali vem – o que dali não vem. E ele sabe disso e é precisamente isso que não o deixa crescer (esta parte ele não sabe).

Quando acasala, o homem-garnisé fá-lo com os da sua igualha, para que dali não saia mula ou macho. E nisto tem facilidades, que um homem-garnisé reconhece outro ao primeiro olhar. Andam ao mesmo, por sombras, e encontram-se muitas vezes nas tais tocas sem espelhos. E amam-se e depois odeiam-se.

Entre a salinha reveladora e o sol enganador, o homem-garnisé já escolheu. Escolheu ser pequenino. Não o pisem.

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