O raposinho do Expresso e… o “multiculturalismo” à desmoda dele

henrique raposo

Um dos henriques do Expresso, o mai’canito, o raposo, sentenciou hoje: “O último ano e meio matou o multiculturalismo”. Não é para todos, determinar tamanho fim, com tamanha exactidão no tempo e precisão no espaço (ele determina a Europa). Mas é para o raposinho.

Cronicar é simples, para os herdeiros da corneta do diabo. A maior parte – o que simplifica a tarefa de os detectar – está reunida no manhoso correio. Depois temos os que foram além-corneta.

Prendem-se meia-dúzia de palavras contrafeitas em frases manietadas por coluna de jornal e eis a prova de que o universo já está todo nos armários destes catadores, enquanto a estupidez, essa, vai provando que é realmente sem fim.

Segundo o raposinho, ano e meio chegou para matar a matriz identitária, não só da Europa, mas do próprio Ser Humano. Mas calma, que o petiz ousa mais além. Identifica o multiculturalismo com a esquerda e diz assim: “A esquerda continuará na via da desculpabilização do Muçulmano, essa figura abstrata que substituiu o Pobre ou o Proletário no imaginário progressista”.

No meio de tanta mistura de palavras que não têm culpa de assim serem conjugadas em frases, o pequeno raposo acertou uma: efectivamente a defesa do multiculturalismo é coisa de esquerda. Os duzentos macacos a teclar no cérebro do raposinho acertaram nesta. A restante macacada escreveu à direita, tentando projectar-se na única esquerda que se lhes apresentou, no dogmatismo Lisboa-Alfa-Porto.

Mas, para além de “multiculturalismo” ser a “desculpabilização do Muçulmano”, proletário ou pobre de hoje, a raposa-amiba não se ficou por aqui. Afinal, não interessa o que se escreve, interessa é que se escreva para justificar as três avenças – com o jornal, com a estupidez e com “uma assessoria-paf-quem-sabe”.

E eis então a definição definitiva de multiculturalismo, segundo o pequeno raposo. O que é? Pergunta tonta, a vossa. Parafraseando o indivíduo, multiculturalismo é um apartheid progressista que recusa a integração do Muçulmano. E pimba. Matou o multiculturalismo em ano e meio e define-o em meia-dúzia de palavras atiradas à tela. E saiu assim, sem espinhas. O multiculturalismo é um apartheid progressista que recusa a integração do Muçulmano. Raposito dixit.

É obra, caramba. Pensadores, investigadores de todas as áreas das ciências sociais andam há séculos e tentar aproximar-se duma definição de multiculturalismo. E este raposo-raposito-raposão, certamente não reparando que o seu próprio nome e apelido exalam multiculturalismo, catrapás-pimba.

É de quem? É mau, ergo… é de esquerda.

Justificações? Não tem letras, que está preso pelo limite de caracteres (e não me refiro aos da “crónica”)

E é o quê? “a raiz do mal”, “o gémeo siamês do (…) nacionalismo”.

Mas as revelações não param aqui (admiro imenso esta, cheia de novidade): “o choque de civilizações é um facto”.  Ah ganda raposo.

Vamos só aqui fazer uma pausa no maldizer do raposo para atentar neste profundo pensamento. Ora atentem nesta categoria, aqui acho que mistura quase tudo, até a sopa azeda do almoço: «“otimistas fofinhos que escrevem coisas como “não podemos ceder ao medo” ou “todas as religiões são fanáticas”». Aqui já devia estar com uma overdose de coca ou pepsi.

E aquela pergunta, entre parêntesis (deve ter sido alguém a quem ele leu a coisa a ler) “(então porque é que não há terrorismo cristão ou budista?)”.

Acho tão delicioso. Atentem, “ó papá, então porque é que não há terrorismo cristão ou budista?”. Ó pequenito, ainda acabas a escrever no correio da manha. Foi bem esgalhada, essa de misturares cristãos e budistas. Sei exactamente a tua lógica: “cristãos, ups”, vou mas é aqui meter budistas na mesma pergunta.

Escusas de misturar tanta coisa, filho de alguém. Eu, incréu em deuses me confesso. Não há terrorismo religioso. É uma contradição nos teus termos. Vamos pegar no teu Estado-fantoche. Israel. [pausa de duas horas para ele ir à wikipedia e telefonar aos amigos, o que inclui a esquerda-caviar].

Já deves ter lido o resumo para totós do “The Catcher in the Rye”, do Salinger. O tipo que matou o Lennon diz’que o romance o inspirou (tinha o livro debaixo do braço – o pobre do livro é que inspirou daquele sovaco). E depois houve mais que se inspiraram no livro gajo do que se inspirou.

“Helter Skelter”, ó musica maldita. Também diz’que o Manson pensou em cada crime a cantarolá-la. E ele e a sua religião (seita?) escreveram essas duas diabólicas palavras nas paredes. A sangue das vítimas. E o que é, afinal, um helter skelter? Ai, raposo, agora apanhaste-me. É uma espécie de prancha que assenta sobre patins de gelo. Acho que é modalidade olímpica de inverno, ou assim. Uma espécie de carrinho de rolamentos para sítios gelados, tipo a tua mente.

Vamos então ver que objectos recolhemos até agora: a bíblia, parte da bíblia, parte da bíblia, um livro cujo título em português é tipo “quem encontra o cérebro do raposo?” – “Uma agulha no palheiro” –, uma música dos Beatles sobre descidas rápidas. E ele, claro. Mais um dâmaso que faria as delícias do Eça.

Depois continuas a cronicar e pimba, merda a cada palavra. “Os nacionalistas aproximam-nos da barbárie do “direito de sangue”, mas os multiculturalistas também se banham nesta ideia. Toda a essência multiculturalista dos últimos vinte e cinco anos…”

[parou!, então não era ano e meio? Continuemos…]

«… é reacionária e até vitalista: assume-me que as pessoas estão irremediavelmente separadas por raça e credo; assume-me que não há contacto possível entre indivíduos diferentes e, por isso, há a tendência reacionária de separar as pessoas por “comunidades”.

Reaccionária e até vitalista? E até? Credo, que és pior do que o teu compadgue do Público. Saiu vitalista podia ter saído cientologista. Mas fazes a puta da menor ideia do que é o “vitalismo”? Não fazes. Vai lá ver, vai… Se fores ao dicionário é tipo o que não és; se te meteres por cenas mais patetas vais marrar com a opus dei (é um bar, pá, um bar – não sei se conheces).

 E agora podes deixar de ler, que vou falar sério. Pira-te.

O espécime a quem dirijo estas palavras leu meia dúzia de resenhas de livros, foi a muitos jantares e escreve ao som da wikipedia. E confunde multiculturalismo com culturas amuralhadas, separadas umas das outras. O multiculturalismo é o inverso. Qual inverso? O absoluto inverso.

E o henrique raposo tem solução para tamanho problema que acabou de inventar entre tanta coisa que juntou em frases? Então não havia de ter? Até o baptizou. Chamou-lhe rufar dos tambores. Ups, saltou-me aqui um teclado. Rufar dos tambores. Estão a rufar? Ora rufem. Ok.  E sai um violino. Não!, uma harpa! Vou escrever doutra maneira: terá o raposito uma via possível para resolver toda esta tralha que ele vomitou? Se ele fosse assim tipo muito para o exagerado e cheio de si, imagino que lhe chamasse “a única possível”. Vamos então ver o que diz raposo.

«[A] única via possível está no centro partilhado por gente de esquerda e de direita, um centro assente numa ideia clássica de patriotismo liberal: partilhando um chão comum assente no direito natural, pessoas de diferentes etnias e credos podem e devem viver juntas numa cidade cosmopolita.»

Ai o catano, que isto é tão pindérico que até dói. [vamos chamar o raposo] raposo, esse chão comum que foste roubar ao multiculturalismo (ok, sei que não sabes, ou até tu evitarias ser tão pateta) chama-se… wait for it… multiculturalismo. O resto do parágrafo acima é tão, mas tão fofo.

Com que então patriotismo liberal: Quiseste juntar duas palavras de que o teu pastor gosta e foste parar, pobrecito, a “dos de Mayo”. Ai se os teus donos sabem: “nación, libertad y revolución”. Vai ao Google ou isso.

E espera que já acabo, mas não sem antes falar do tal de “direito natural”, que invocas. Larga a pepsi. [vamos aguardar agora um dia, para o henrique estar em condições]

Um dia depois…

Olá, raposito. Soninho bom? Fazes a menor ideia do que é o Direito Natural? É que não podes ressacar assim conceitos. O Ius naturale no direito Romano (que o pariu) aceitava a escravatura, porque esse conceito com que “marraste” é algo como um conjunto de princípios superiores, justos e verdadeiros com validade eterna e universal. Vamos fazer um suponhamos. Entras uma máquina do tempo, vais até ao século I, algures no Império (não, o PSD ainda não existia) e fazes uma sondagem. Como ninguém te ia entender (nem vinte séculos depois, imagina na altura) ias acabar de cabelos compridos a servir de guardanapo a alguém. Porque a justiça com validade eterna e universal é cena que tipo… não existe. Para um Romano do século I és tu, parido pelo multiculturalismo (sim, tem muitos defeitos), a querer ser gente. E viras escravo. Para a Escola Cristã foi outra coisa (vinha do deus como o trump hoje o invoca), o mesmo que comandou as cruzadas e impôs a “nossa leitura” por dois mil anos.

Passou por Hobbes, Savigny (são Escolas diferentes, vai googlar) e acabou em Comte (podes ir ao bing, agora). Estamos a falar de Direito, certo? Segundo a visão (não-jusnaturalista de Comte o Direito Natural não existe. Direito é o que a cada momento os homens inscrevem na norma jurídica. Chama-se Positivismo.

A tua croniqueta, raposo, é das coisa mais curiosas (agora fui meiguinho) que já li. Parece que pegaste em duas mil palavras e as enfiaste numa tômbola. E depois foste escrevendo à medida que as palavras saíam. Foi muito giro, eu gostei. Espero que também tenhas gostado das palavras que te dedico.

E se te aparecer um tipo com uma bíblia, uma torah, um tobogã (só agora me lembrei, heltzer skelter é um tobogã), um monge budista, uma agulha e um palheiro, e o correio da manha debaixo de braço a gritar “Allahu Akbar”, vai tomar um café com ele. A Bagdad ou assim.

«Which “civilisation” you belong to matters less than you might think» (vai googlar outra vez)

Foi giro, pobre diabo. Não mudes nunca. A não ser do Expresso para o correio da manha. Por lá, estarás entre iguais. A ser lido por iguais. E sim, vocês são mesmo a maioria.

Buh! 🙂 Só um elogiozito, raposo. O nome  que dás às tuas “crónicas” é perfeito. “A tempo e a desmodo”.

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