“Se não têm pão, que comam brioches”… em nome da democracia

Commander Shutz: You must speak.
A Jewish Barber: I can’t.
Commander Shutz: You must. It’s our only hope.

As palavras de Chaplin continuam vivas, como punhais de memória, que nos escalpam o que resta para ver se encontram algo que reste e que preste.

Cada vez há menos humanidade, menos comunidade. Proliferam os “Machine men, with machine minds and machine hearts!”. E quanto mais assim é, e na História da Humanidade já o foi assim vezes demais, mais certezas tenho de que o caminho não lhes pertence. Por certo que noutros tempos, as condições para dar a volta eram (aparentemente) mais difíceis.

E daí talvez não, que nunca como agora os homens-máquina souberam tão bem mascarar-se de democracia, reduzida a uma palavra sem substância, após lhe terem vendido o sentido. De reality show em reality show, ao ponto de quase tudo parecer hoje um reality show (heil, media!). Foram anos de labuta pela estupidificação do povo; e quanto mais estupificam mais fácil fica estupidificar.

E daí talvez não, insisto. Hoje, Maria Antonieta diria ao/do povo: “Se não têm pão, que comam brioches”… em nome da democracia [a pequena Antoinette, sublinhe-se, nunca disse a frase entre aspas, mas para o que aqui releva isso é indiferente].

E daí talvez não, reitero. Hoje dão-nos a aparência do mundo nas mãos, dizem-nos que tudo depende de nós. Chegam mesmo a gritar por nós, a apelar a nós… To make wtf great again. E o povo, iludido pela aparência de ter voto na matéria, enche o peito. O sufrágio é o nosso brioche. Se algo corre mal, inventa-se um golpe de Estado e justifica-se uma purga… democrática. E o mundo aplaude, que a democracia venceu mais uma vez.

A Democracia somos nós todos, a cada dia, pensando pelas nossas cabeças, discutindo, lendo, escrevendo, agindo, chorando. Reagindo a cada saque de quem se mascara de democrata. Não é um jogo. Não é um singelo voto de quatro em quatro anos.

Mas… se as coisas parecerem complicadas, e o povo ousar pensar… sai um Pokémon GO! E vamos todos procurar o que não existe e, haja metáfora, esquecendo o que existe. Ainda acabamos todos a comer “Pão GO!”. E comemos realidade virtual e dormimos numa “Casa GO!”. Educamos os nossos “Filhos GO!”.

Nesta “Vida GO!”, andamos todos de olhos em baixo, à procura de nada, e ironicamente ainda pagamos por isso (mais do que já pagamos por isso). E sorrimos. Com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Interessa é ter essa app, a última de todas, a mais recente alienação do homem.

Há duas maneiras de enfrentar esta dor. Podemos baixar algo como o “Democracy GO!” e encontrar a nossa vida atrás de uma pedra. Em forma de dor de não ser gente. E gritar porque ganhámos. Interessa é que não questionemos o que ganhamos, exactamente. E um dia chega um verdugo, em quem votámos e diz: “Este é o meu pão! Go!” E nós vamos. “Este é o meu filho! Go!” E nós vamos. “Este é a minha casa! Go!” E nós vamos. E no fim dirá (diz) algo como: já não tens Direitos. Perdeste o jogo. “Game over! Go!”

E há a outra forma, em que “resta” Ser Humano. Aquele que até joga jogos, mas não aceita ser jogado por eles. No último ano, por causa de um doutoramento em que em boa hora me meti, para tentar encontrar-me melhor e descobrir melhor forma de entender, li mais do que no ano anterior (talvez mais do que nos cinco anos anteriores – dez, vinte? Sei lá..). Acima de tudo, li diferente! Quando passo por estas questões, e sem querer espetar aqui com conclusões “PhD GO!” (app que não compro), a solução é quase sempre a mesma.

“You are not machines, you are not cattle, you are men! You have the love of humanity in your hearts. You don’t hate: only the unloved hate, the unloved and the unnatural. Soldiers, don’t fight for slavery, fight for liberty! You the people have the power, the power to create machines, the power to create happiness! You the people have the power to make this life free and beautiful, to make this life a wonderful adventure! Then, in the name of democracy, let us use that power. Let us all unite! Let us fight for a new world, a decent world …”

É impossível? Seria caso único na História da Humanidade – sendo certo que também estes tempos são caso único. Mas tudo depende de um só acto. E não falo de palavras, falo daquilo que elas representam. Acto agido. Fazer “fazido”.

GO! Procura a solução. Ou então não procures, deixa que outros ta ditem. Defende o Estado de Direito Democrático, ou então não defendas. O artigo segundo da Constituição angolana diz praticamente o que diz o artigo segundo da nossa Constituição. Faz o que entenderes. Uma coisa te garanto, se continuas a deixar-te jogar por jogos serás o verdugo da Democracia, o carrasco do teu filho.

Now, GO! E este “GO!” é o que tu quiseres que seja.

Um jogo que podes ganhar, mas sempre perdendo. E acabas a comer brioches imaginários debaixo de um muro bem real.

Ou uma Comunidade de iguais, por mais diferenças que tenhamos. O Estado de Direito Democrático não é meia dúzia de palavras atiradas ao papel. Direito algum o é por estar escrito; há que ter e dar e haver e exigir condições para o exercer. Ser Humano exige mais do que meramente existir ou reclamar de quão mal vão os outros, de quão mal vai o mundo. E não, não tenho essa estúpida mania de ser dono da razão. Mas não me coíbo de dizer da minha forma de ser razoável. A minha razão não impera, nem a quero líder. Apenas digo dela, espelho do mundo que vejo.

Era isto.

Commander Shutz: You must speak.
A Jewish Barber: I can’t.
Commander Shutz: You must. It’s our only hope.

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3 thoughts on ““Se não têm pão, que comam brioches”… em nome da democracia

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