Ronaldo, o sofá da psicanálise tuga

Francisco Bola_1Alerta à navegação: esta é uma crónica onde não se fala de futebol. Melhor, não é uma crónica, é um poste austríaco.

Como já devem ter reparado, não alinho em injustiças. E esta cena do Euro 2016 tenho-a levado como encaro a bola: é só bola. De repente, reparo que há mais de 500 jogadores no torneio. E que, à falta de outras estrelas, tudo quanto mexe resolveu começar a desancar no Ronaldo. É dose. Mas com os outros posso eu bem, aborrece-me é a atitude tuga. “Manda esse gajo para casa, o engenheiro devia mas era ter trazido o Zé Manel!”.

Desde logo, é absurdo esta de “à falta de outras estrelas”, assim como é absurdo estar a comparar o comportamento do Ronaldo com o do Messi, no outro torneio além-mar. Ambos já provaram a respectiva excelência a dar pontapés na bola. Apenas o Ronaldo, por mais defeitos que tenha (ao contrário da perfeição que invade os treinadores de bancada), provou que tem vida para além da bola. Já não é mais aquele menino deslumbrado; de lá para cá, manteve a vontade de vencer, ganha estuporados rios de dinheiro (já lá vou), mas não é exactamente um ratinho de laboratório (acho imensa piada quando comparam El Pibe ao Messi; ambos eram os melhores, ambos eram argentinos… e a semelhança acaba aí).

Voltando ao Ronaldo. Não serão as declarações menos felizes, após o jogo com a Islândia, que me farão mudar de ideias. Aliás, neste último jogo, depois do empate contra a Áustria, ainda teve cabeça para deixar/ajudar um rapaz “invadir” o campo (e nem vos falo do medo que me tolheu – calhou ser branco, ou nem meio passo tinha dado) para tirar uma selfie. Não é só bom futebol que o Cristiano tem feito (o que faz com o dinheiro é cena dele e vossa, a parte onde eu entro não se resume a um jogador de futebol).

A bola e os homens que a ela se resumem (e não falo dos jogadores) já o mandam para casa. Interessa é que ele ponha a bola lá dentro, pouco interessa o facto de ter o mundo inteiro a olhar-lhe cada pegada. Pouco interessa o que ele fez, até agora, desde que foi para Manchester. E foi tão pouco. Foi, não foi?

Façamos um exercício. Vocês na vossa profissão. O mundo a olhar-vos cada gesto, tipo Truman Show, com a diferença que vocês sabem que o mundo vos olha. Cada gesto. Irritante, não é? Desconcentra qualquer um. E o grande engano é quando pensamos que o homem virou uma espécie de deus, apenas porque é dos melhores no que faz. O tipo, assevero, é humano. Estou certo que ninguém mais do que o Cristiano sabe que aos 30 anos e depois de tudo ter conquistado, ainda é criticado a cada instante mal conseguido. Do “Grande Ronaldo” ao “vai para casa, filho-da-puta, que no Real Madrid não tinhas falhado esse penalty”… vai um poste.

Mas ele ganha para não falhar? Ele ganha mais num segundo do que eu num ano? Epá, esse filme é da vossa realização. Ou sereis hipócritas ao ponto de dar para o peditório e depois criticar o peditório para o qual deram? Este estado do futebol é o reflexo do vosso cu, trezentos e sessenta e cinco dias sentado no sofá. É o estado do Estado em estado de sítio capitalista.  A vossa “droga”, e há tantas, todas tão melhores. Um livro, um filme e, pasmem, um jogo de futebol. 

E, por isso, me afastei da bola, a que agora tento retornar com humor (este texto é uma excepção), lembrando-me sempre que é só bola. Se acaso escolheram resumir-se, e à vossa vida, a uma chincha pontapeada por vinte e dois matulões, o problema é mesmo grave sim. E não é do Ronaldo. 

É só bola, pá! E por isso adorei ver a Rússia levar três do País de Gales. E por isso, acaso Portugal seja eliminado, eu manter-me-ei em jogo. E vocês também, que há uma vida para viver. Todos os dias até ao último. O melhor jogador que vi durante este europeu foi o da imagem. Na verdade, o meu filho não gosta de bola (garanto que não fui eu que lho ditei), mas o futebol é isto. Um menino e uma bola. O resto são autos-de-fé. Se passou além disto, a culpa não é do Ronaldo.

É só bola, pá! E certamente que quem pensa o contrário merece que todas as bolas do Ronaldo batam no poste. E quem é o poste das vossas vidas? Ora aí está…

Não, não sou perfeito. Vade retro. Este foi um desabafo. Aguardo os vossos, não anónimos, mas em forma de gente. Perfeitos sois vós. E disso ninguém tem culpa. Nem o sofá do título.

Nota: Este “vocês” não é ninguém, seria patético se alguém enfiasse tamanha carapuça.

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