Era Lisboa e eu andava de 36

Aqui há vinte e poucos anos, já com Herberto silente. Eremita de nós. Enviámos-lhe uma carta. Queríamos fazer teatro com as suas palavras. Aquelas onde ele diz que se quisesse enlouquecia. E lá foi a carta. E lá veio a resposta, de passos em volta. Que sim, mas só se não cobrássemos bilhetes. Escrita à mão, em letra de ordem. E afastei-me do projecto. Porque li na carta “não me façam isso às palavras”.

Era Lisboa.

Tenho a memória, quase doutra vida, que o encenador era um idiota. Ou então o idiota era eu. Ele queria ser profissional, eu queria ser amador. Não perdi o amor, não faço ideia se ele algum dia ganhou profissão. Fui à estreia. Nos lugares dos amadores estavam outros. Não sei se amavam, mas não usavam ar de quem faz daquilo profissão. Lembro-me de ter sorrido, numa sala ali para os lados do quarteto. Deve ter corrido bem, que nunca mais a coisa se repetiu. Alguém me disse que me imaginava naquele papel, que era o meu. Era graxa.

Eu não me imaginava, que entre tanto treino de garganta e de bem respirar, nem tinha havido tempo para apreender o texto. Aliás, nem me lembro se tinha texto ou se só me passeava no palco. Não foi ali que aprendi a projectar a voz. Terá chegado mais tarde, que abomino microfones. Também não foi ali que percebi o Herberto. Tudo isto não para dizer aquilo que agora me lembrei.

Aqui há vinte e seis anos era Lisboa. E foi Lisboa que durante cinco anos vivi. Aquela, não outra. Fiz a minha parte, Lisboa fez a dela, desde aquela caminhada princípio de tudo. De Santa Apolónia à cabina telefónica que estava ali fronteira à casa dos bicos. Mãe, cheguei. E em todos os mil dias que se seguiram. Fiz a minha parte. Mãe, já cá estou.  Agora já não nos reconhecemos. Lisboa e eu. Mãe, parti, voltei.

Voltei algumas vezes a essa terra que foi minha, mas não me habituei a andar nela. Falta-me o trânsito que outrora corria na minha direcção. Na faixa do lado, parada de tão cheia. E eu lá ia, de 36, a correr livre, em faixa deserta, Comprava o jornal cedo, tão cedo que as letras ainda se ajeitavam nas notícias. Subia ao 3.º andar do 229 e adormecia. No dia seguinte, que era o mesmo, lá pegava no jornal, e passava os olhos pelas gordas, já compostas em seus espartilhos. Comia alguma coisa e lá ia à minha vida. Que raros dias não passavam por chegar de 36 ao quiosque de sempre. Um dia cheguei atrasado um dia, que fui de boleia e o carro atolou-se num lamaçal. Com uma pedra de tonelada e meia à frente. Foi o diabo, mas lá cheguei ao 229. E nunca mais fui senão de 36.

Feito o que havia para fazer, no tempo que tinha para o fazer, voltei à Estrela e à Gardunha. E vinha doutor. com gravata e tudo. Um dia, regressei a Lisboa. E perdi-me no trânsito, e ela viu-me de gravata. Jurámos afastamento eterno. E de há duas décadas para cá, vou a uma terra estranha quando tem de ser. Se não o puder evitar. O meu amor por Lisboa exige-Lhe respeito. Mas tenho saudades muitas daquela minha Lisboa que no tempo foi. E deixei a gravata de lado. Fico satisfeito por a minha memória não me permitir guardar mais do que uma confusão difusa de imagens. Mistura-se o tempo daquele tempo, com muitas caras cheias de nomes e coisas. As árvores e as casas, essas, estão mais ou menos no mesmo sítio. Só não sei, nem quero saber, se no fundo daquele beco, à direita de quem desce do Bairro Alto para o Incógnito ainda lá está aquela casa. Entrava-se pelo beco adentro e lá estava ela, impante, mas fora de sítio. E por isso impante. E ainda hoje a espreito, de pés e mãos nas grades do portão. E depois vou a correr para uma cachupa que por ali havia, já perto de onde não se sabe.

Voltei algumas vezes àquelas coordenadas. Mas nunca mais vi Lisboa. Essa, a minha, está lá atrás, guardada nesta confusão que é existir. E já existi doutra maneira, que não esta. Por isso não me falem doutra Lisboa nem do vosso existir nela. Imagino que continue linda. E sei que Lisboa teve filhos. Eu tenho um. E tê-lo-ei, por mais que passe e aconteça. Sem 36, na mão e na contramão. Vivemos de frente para Estrela, com a Gardunha a rodear-nos. O mais belo dos cercos, entre duas serras, com o meu filho a ser menino entre elas.

E hoje, como há muito não fazia, escrevi à desgarrada. Terei aprendido a dizer assim, no cantinho da rosa, casa de fado vadio onde eram proibidos os beijos, mas não o branco a martelo, que vinha com dores de cabeça. Era mesmo ao fundo da rua da mesma flor. De quem vinha do avião, que cheirava a mijo de gato.

Esta é a minha Lisboa. E esta é a minha vida. Naquela fui feliz e aprendi parte de ser homem. Nesta sou homem, entre-serras. Parte deste homem, bom ou mau, útil ou inútil, aprendeu entre apanhar e perder o 36.

Aqui, de frente para a Estrela, a minha cabeça não estremece. Só às vezes, como agora. Quando não calha a estremecer tanto. Como agora. E estou quase certo que o Herberto Helder estava na Tabacaria olhada de perto pelo Álvaro de Campos. Devia ser o Esteves, que entretanto ganhou metafísica e agora diz que sonha sobre os tremendos ossos dos pés. Sei lá. Algo assim.

Tenho muitas saudades de Lisboa, por isso não volto a ela.

Álvaro de Campos: «O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?) / Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica. / (O dono da Tabacaria chegou à porta.) /Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me. / Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo / Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.»

Herberto Helder: «Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. / Eu procuro dizer como tudo é outra coisa./ Falo, penso. / Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.»

Mil letrados me desmentirão, com palavras de certeza científica, mas para mim o Esteves da Tabacaria é o Herberto. Percebeu quem estava à janela e deu cabo do poema. E inventou os seus, tão bons como os do que o olhava e acenava da janela.

Gosto do Esteves. Com ou sem metafísica.

Adeus ó Lisboa!, e o universo reconstruiu-se-me com ideal e esperança. Olá Francisco. Sabes, filho? Era Lisboa. Com e sem metafísica.

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