Eu, Cigano, me confesso!

Antes de mais, este artigo começa por falar de bola e acaba comigo a pedir desculpa por ser branco. Dito isto, vamos lá conversar.

Da bola. Não vi o jogo de ontem, mas vi o resumo. Li os comentários. E é inevitável falar do Quaresma. Lembro-me dele no Sporting, lembro-me dele no Porto a provocar o Sporting. Lembro-me das suas passagens mais ou menos bem-sucedidas no estrangeiro. Confesso que tive de ir ver onde raio jogava o homem, hoje. E agora esqueçam lá a bola.

Será que o Quaresma reaprendeu hoje a jogar à bola? Ou foi, no entretanto, pura e simplesmente atropelado pelo racismo que vos/nos atropela? Cigano orgulhoso de o ser. “Assumiu-se cigano”, na vida e na bola. Agora reparem… “assumiu-se cigano”. Estas palavras são brancas. E não são minhas. “Assumiu-se cigano”, como se tal fosse um crime. Ele limitou-se a ser.

Gostaram do cigano a dar pontapés na bola? Deu jeito, não foi?

“Os ciganos são todos iguais?” Tanto como os brancos. Os pretos. Os amarelos. Somos todos iguais. E felizmente diferentes. Distingue-nos a cor – ao olhar -, e a cultura – no Ser. E é precisamente nessa diferença que devemos encontrar uma mais-valia. É a diferença que nos faz iguais. 

Esse “os ciganos são todos iguais“, dito e agido assim, é o maior contributo para assim seja. Vamos então lá fazer contas, pela bitola de “os ciganos são todos iguais”. Quando um “branco”, cavalheiro dessa raça superior, faz merda, “os brancos são todos iguais”? Não, é apenas um filho da puta. A superior “raça branca” mantem-se incólume. Afinal, que merda tenho eu a ver com o que fazem os outros gajos que nasceram da mesma cor que eu?

Aqui há tempos, entraram-me no escritório um pai e um filho. O pai, disse-me, depois de alguma conversa: “dr, sei que sou cigano, mas peço-lhe que acredite em nós”.

Só quem me conhece sabe que é possível o que de seguida digo. Se fosse amarelo às bolinhas azuis, eu teria dado pela coisa, mas só depois de ele dizer que era cigano dei pelo “fenómeno”. Ele e o filho eram ciganos. Eu tinha dois ciganos no meu gabinete e tremi…

Tremi, sim. Porque lhe tinha passado pela cabeça que eu podia estar a medi-lo por essa régua. Afinal, “os brancos são todos iguais”. Dei-lhe, obviamente, um conselho. Que não voltasse a desculpar-se por ser cigano. E ele insistiu, “dr, mas eu sou cigano”. O resto que lhe disse, com o respeito que lhe devo, não vem aqui à conversa.

Já expulsei dos espaços onde me exerci e exerço Advogado (“os advogados são todos iguais”?), ao longo destas duas décadas, alguns seres. Calhou serem todos brancos.

Sabem como são os “brancos”, “todos iguais”.  Tenho de me despachar, que ainda tenho de continuar a malhar noutra coisa, que na verdade me chamou para este texto. E enquanto escrevo assim, “à cigano”, penso no “relativismo cultural e nos direitos humanos”, a que daqui a instantes voltarei a dedicar-me.

Para terminar, todas as formas de racismo são excludentes. Enquanto os ciganos forem “ciganos”, antes de serem o que são, para além da cultura (e que portentosa é, a cultura cigana), continuarão a ser “ciganos”. E a pagar por ser “ciganos”.  Não tenho vergonha de ser branco, apesar de toda a merda que os brancos fazem. É tão absurdo, sim. Mas é propositado, o que disse.

Todos os homens marginalizados pela sociedade se refugiam na margem para onde a sociedade os empurra. E depois vai tipo pescadinha de rabo na boca. Quanto menos, menos.

Imaginem se o ditame “os brancos são todos iguais” virasse essa lei, essa “lei” que a sociedade aplica aos ciganos. Ainda acabávamos todos como consultores da Mota Engil ou da Arrow Global.

Não sei se me fiz entender. Tive alguns contactos com ciganos e, como se não bastasse, sou advogado. Não me desculpem, por favor. Afinal, este texto foi uma ciganada. Vou tomar uma aspirina e amanhã acordo “branco”. Ou não! No, entretanto, sou como no título. E aqui me confesso.

Já que que aqui chegaram, oiçam as Lágrimas Negras (raios partam nas legendas). Mas com cuidado, que nem o Bebo Valdés nem o El Cigala cumprem os requisitos. Não são brancos. E cheira-me que o Cigala é, credo…, cigano.

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