Sporting, Jorge Luis Borges e Kujata, o touro

alfred_hitchcock.kion-mgm (1)Vamos lá então falar de bola. Se eu estivesse a ver isto de fora, acharia justa a vitória do Benfica, que de alguma forma representou a derrota da arrogância (e aqui há que relativizar, que arrogância é coisa que não falta na bola). O Sporting é incomparavelmente superior mas perdeu pela boca. O Benfica ganhou no momento em que o Rui Vitória deixou de dar troco ao Jorge Jesus, que é um excelente treinador mas que percebe tanto de mind games como eu de lagares de azeite. Lembro-me de uma declaração em que este (JJ) disse que se quisesse reduzia aquele (RV) a isto (e fez um gesto com os dedos a significar pequenino). Quase me apetece perguntar, não quis ou afinal não era tanto assim?

O Sporting é um clube curioso, estranho, diferente. Não fomos campeões por causa do treinador que é a única razão que nos fez poder ser campeões. Se eu estivesse a ver isto de fora, acharia justa a vitória do Benfica. Como não consigo ver isto de fora, não acho. Considero. Considero justíssima a vitória do Benfica. É que por mais razões que encontre para dizer da justiça que seria ter o Sporting campeão, e apesar de serem tantas, ainda assim houve um clube que as conseguiu superar todas. Percebem que quanto mais razões encontramos para dizer da grandeza de um clube que fica em segundo lugar, mais se engrandece quem terminou em primeiro, certo? Parabéns ao Benfica, portanto. Hoje tentem não deixar o Marquês no estado deplorável em que o abandonaram no ano passado. Saber ganhar é bem mais difícil do que saber perder, mas tudo se reduz a uma palavra. Dignidade. Sejam dignos, foi essa dignidade, personificada por Rui Vitória, que vos deu o campeonato.

Mais uma coisa, “ser” do Sporting será sempre uma honra, não um fado. Se os clubes fossem livros, o Sporting seria um Jorge Luis Borges e este capítulo (conjunto de anos, no caso) corresponde a’ “O Livro dos Seres Imaginários”. O actual presidente do Sporting entra directamente para o bestiário borgiano, como uma espécie de fruto do amor pérfido entre o Darth Vader (a voz, pá, a voz ou lá que raio é aquilo) e Kujata, o touro “com quatro mil olhos, quatro mil orelhas, quatro mil narizes, quatro mil bocas, quatro mil línguas e quatro mil pés. Para locomover-se de um olho a outro ou de uma orelha a outra, bastam quinhentos anos”.

Para o ano, não nos escapa. Ou daqui a quinhentos anos. Eis o Sporting. Quem mais poderia perder este campeonato desta forma épica? Lembram-se do 7-1? E a seguir vem sempre aquela frase: “mas o Benfica foi campeão”. Lembram-se de 2016? E a seguir virá sempre aquela frase: “mas o Benfica foi campeão”. Há vencedores assim, que por mais merecedores, não passam de notas de rodapé.

Nota: feitas as contas, é só bola. Nada mais.

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