De nós, dos números e deste Domingo (com uma ajuda do meu filho)

Francisco: o meu pai explicou-me o que acabei de ler, percebi o mais importante. Eu preciso de comer comida, não percebi bem o que é comer números. E não sabia que havia pessoas que não iam votar. Também não sabia o que era um abismo.

Hoje, muitas mães, muitos pais passam fome para dar aos filhos ao menos um prato de sopa. Hoje, muitas mães, muitos pais nem isso conseguem. Hoje, muitas mães, muitos pais, muitos filhos comerão números. Os números com que este governo de kapos ao serviço do eixo Berlim-Bruxelas nos pontapeia e aos quais nos reduz. Nem ao menos uma sopinha de letras [aqui, o Francisco olhou-me e perguntou se era canja]. Olhem para o país, caramba. Olhem para a Saúde (e a destruição do SNS), para a Justiça (reduzida a cacos), para a Educação (os programas e-escola e e-escolinhas foram ontem oficialmente enterrados). Olhem, caramba. Limitem-se a olhar. E, depois, Domingo percam (ganhem) cinco minutos e votem. Eles não são todos iguais. Desde logo porque eles são a nossa imagem. O reflexo do nosso voto. Eles (os que alcançam o poder) só são todos iguais quando a abstenção ganha as eleições, quando há poucos a quem prestar contas.

Portugal está a beira do abismo. Do nosso voto depende recuar ou avançar. Porque por enquanto ainda temos essa liberdade que tantas vidas custou. A de votar.

E, sim, podemos mudar o país. Basta ousar ser mais do que os números a que estes quatro anos nos reduziram. Basta ser gente. Nós podemos. Tal como aquele primeiro homem pôde erguer-se e empurrar ladeira abaixo aquela pedra de arestas limadas pelo tempo.

Inventou a roda.

A abstenção não é desistir d’eles. É desistir de nós, dos nossos filhos.

Nota: é certo que falo com o meu filho sobre o que é ser Cidadão e também é certo que ele apreendeu o essencial do texto (corrigiu-me duas gralhas e uma palavra repetida) que lhe dei a ler (com muitas explicações, que não empurrões, pelo meio). Depois, pedi-lhe apenas que comentasse. As palavras dele são as palavras dele. Efectivamente, não lhe soube explicar o que são os números de que falo. Nem eu os entendo. Nem eu entendo como nos deixámos reduzir a esse nada. Não ousem pensar que o instrumentalizei. Isto foi, é parte da nossa (minha e da mãe) contribuição para o ajudar a ser um Homem-Bom. De resto, e por isso mesmo, mantenho a minha máxima. A profissão do meu filho é ser criança e brincar. Mas não o menorizo, que ele tem aqueles olhos enormes que brilham tanto. Prontos para voar; espero que não para fora de um Portugal sem soluções.

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2 thoughts on “De nós, dos números e deste Domingo (com uma ajuda do meu filho)

  1. Neste momento estou com os olhos molhados:comovi-me. Não sei porquê tenho um misto de sorriso nos lábios, mas os olhos, esses, estão cheios de lagrimas. Comovi-me. É, é isso. Boa noite. Um beijo para o seu filho.

    Enviado do meu iPad

    No dia 02/10/2015, às 22:54, “Eu, Canhoto” escreveu:

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