Do meu voto útil no Bloco

Voto Útil

Enquanto o paf anda de crucifixo na mão a tentar sacar os leitores que perdeu, o PS dedica os últimos dias de campanha a tentar convencer as gentes que é mesmo esquerda, contra todas as aparências.

Não me esqueço do ar paternalista do Costa, no debate em que foi cilindrado pela Catarina Martins. Se dúvidas tivesse (que não já não tinha, graças aos últimos quatro anos), ficaram ali resolvidas. Tinha-me prometido que só voltaria a estes assuntos em último caso. Pois bem, estamos em pleno “último caso”. Quem optou por votar PS resolveu (coisa que não discuto, não recrimino e entendo) repristinar a falácia do “voto útil”.

Assim sendo, está aberta a porta que me (auto-)impedia de escrever sobre este tema. Não me passou nunca pela cabeça não apelar ao voto na Joana Mortágua em Setúbal, no José Manuel Pureza em Coimbra, na Mariana Mortágua e do Pedro Filipe Soares em Lisboa, na Catarina Martins no Porto. Não era essa a questão. Não é essa a porta de que falo, que talvez estivesse melhor fechada.

A porta que se me abriu não é, pois, esta, certo de que não há homem ou mulher de esquerda que imagine um parlamento sem esta gente. Mas se é de voto útil que querem falar, vamos a isso.

Não voto condicionado por um sistema eleitoral cujo método de “selecção” pretende reduzir a zero o meu voto. Votar útil não é votar PS “por exclusão dos outros que são tão bons, mas”, embora também conceda que haja mulheres e homens de esquerda que votam PS como primeira opção; e não como alternativa subjugada ao sistema.

Se a porra do sistema eleitoral e das gentes precisarem de um abanão do tamanho de “esta porra que nos governa ganhar de novo”… pois que seja. E cá estaremos. Os de sempre, os que ousam ser cidadãos mais do que em dia de eleições.

Não me minimizo à esperança de o Costa conseguir convencer o aparelho a dizer sim ao desafio que a Catarina Martins lhe lançou — a hipótese de um acordo de governo pós-eleitoral. Mesmo porque o Costa jamais conseguirá convencer o aparelho disso; quem lhe dera convencer os “seguristas” de que ele, Costa, é o melhor para o PS. Basta atentar nas declarações dum tal eurico brilhante dias, “Teria gostado mais de Seguro candidato a primeiro-ministro” [A latere, ainda hoje estou para perceber como um vazio tamanho, como esse seguro reverso da medalha do coelho, consegue ter seguidores; só o tacho pode explicar]. Este tipo, brilhante de nome, vai ser certamente deputado. Ele e aquele imenso meio de bancada parlamentar não-falante, feito de presidentes de federações-cacique, de candidatos a presidentes de Câmara derrotados. A nata da nata da merda. Verbos de encher que nem verbos são. Só enchem cadeiras e carregam no botão que (e quando) o rei manda. Tal como acontece no paf.

Não, não vou dar para esse peditório. Nem vou deixar de apelar ao voto nessoutra gente muito útil à esquerda, mas que na hora do voto passa para segundo plano. Como se a respectiva eleição fosse certa e segura. Não o é. Não tão segura como a do zé manel dos anzóis, tio do primo do avô que tem o PS na mão, e que vai em lugar não-sei-quantos por Lisboa ou pelo Porto.

A minha ideia era esperar calmamente, atacar o que nos corroeu neste últimos quatro anos. Era e mantém-se; quero que isto que escrevo seja a excepção. Sucede que o Costa pediu ao PCP e ao BE para pararem de atacar o PS. Haja vegonha, porra. Que para falta dela basta quem lá está.

Se o Costa pretendia uma esquerda unida à sua volta devia começar por fazer política de esquerda, devia ter começado por aceitar dialogar com o Bloco (a CDU continua estupidamente arredia a isto) antes das eleições, afastar a vilanagem que corrompe o partido. Aí a música seria outra.

Ainda não foi a este líder do PS que saíram os tomates de ousar exercer-se como o que um PS de esquerda deve ser. Ainda que contra 30% do partido que encabeça. E não podendo tanto, ir a votos na mesma, e perder de forma escancarada. Se assim tivesse de ser. Estas eleições são as mais importantes, sim. Depois das próximas.

Razão tem aquela mulher que ontem fez o favor de calar o jorge coelho, esse líder aparelhista. “Sofremos de síndroma de Estocolmo”. No final, algo que as televisões resolveram não passar, para dar a ideia que se tratava de uma louca que tinha irrompido campanha adentro, ela apelou ao voto no PS. E fê-lo com a certeza e denodo que não vejo nem nos líderes nem em muitos dos demais votantes neste PS.

Sofremos de síndroma de Estocolmo, sim, e afeiçoámo-nos aos nossos captores. Já vivi isso, sofri disso na pele (embora mais por ignorância do que por devoção); votei em gente indizível, mas a cada momento disse de onde vinha, antes de encetar novo caminho. Hoje, e neste hoje incluo a luta de parcos oito anos, sei exactamente o que pretendo. Cumprir o artigo 2.º da nossa Constituição, e contribuir para que devolvam o Estado de Direito Democrático ao Povo. Se este tarde cá cheguei me desculpa? Não, certamente. Mas serei eu a julgar-me a cada dia.

Ciente das minhas imperfeições, no meio de tanta perfeição, ouso apenas exercer-me Cidadão. Na rua, aqui, em todo o lado por onde passe. E por isso voto no Bloco, assim como poderia votar na CDU (coisa que farei quando esta se resolver abrir a outras esquerdas) e escrever estas mesmas palavras.

Sou visceralmente de esquerda, demorei a chegar a esta razão e não arredo dela. Não termino sem agradecer ao Livre, capital e arrabaldes da esquerda caviar, ter-se expurgado do Bloco, doutra forma não poderia votar como votarei. Doutra forma não haveria quem há; basta atentar no facto de a Mariana Mortágua ter ido substituir a pequena (e não me refiro ao tamanho) Ana Drago. Não tivesse o desgraçado daniel oliveira ir pastar e talvez não houvesse Catarina Martins.

Esta foi, até Domingo, a última vez que falo de esquerdas. A não ser que ache necessário fazê-lo de novo.

Dia 4 de Outubro adormecerei em paz, pronto para o que for; não negando o aparente paradoxo de querer que naquela tela apareça a cara do Costa como vencedor com maioria relativa. Aí veremos o quão de esquerda é este PS. Mas esta guerra, não descansai, ainda mal começou, que o inditoso presidente desta república doente não deixará de fazer o possível para ter um Bloco Central com mais ou menos cds.

Ainda mais uma coisa, que quero mesmo ser claro. Se num sistema eleitoral universal onde cada voto valesse um voto e pelo meu não voto no ps ganhasse o paf? Seria tramado, mas viveria com isso. Bem melhor do quem cobardemente não vota, porque “são todos iguais”. Bem melhor do que quem vota porque “ele fala tão bem”, embora não o perceba. E dá cá mas é um avental. Bem melhor do quem arrisca um Bloco Central, em pleno século XXI com troika a liderar. Que o fmi fechou portas apenas para tuga ver. Ainda por cá está e estará. Esse e os do (mal-)Tratado.

Urge ter vozes que a combatam. Esquecer o que almocei ontem é aceitável, esquecer a Grécia é criminoso. E não há paradoxo nisto, creiam. Tsipras abriu caminho (não sei se o fechou; ao dele) e dali retirou a esquerda lições.

Era só. Peço desculpa por tanta palavra, mas não tive tempo nem cabeça para escrever menos. Dia 4 de Outubro não se acaba a esperança, nem se resolvem todas as maleitas. A luta, naturalmente, continua.

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