Me llaman calle

Da próxima vez que queiram insultar uma mulher não lhe chamem puta. Melhor, da próxima vez que queiram insultar uma mulher, não o façam. O insulto é sempre gratuito; assente em pés de barro. Se eu digo que esta mulher, aquele homem é um estupor sem consciência ou vergonha nunca o faço (e aqui apelo à excepção que faz a regra por que me dito) sem a certeza (ainda que subjectiva) de que efectivamente o é. Insulto é outra coisa, e aqui me desapego de conceitos jurídicos.

Sim, é certo. Também eu já disse “grande puta”, também eu já vociferei contra aquele “grandessíssimo filho-da-puta”. Erro meu. Como quem diz, “até amanhã se Deus quiser”. Não creio nesse Deus, de maiúscula imperativa, mas creio em muitos que nele acreditam. Não creio nesse, dizia; tenho os meus e sou ateu. Graças a deus, passe o lugar-comum.

Na verdade pouco disto queria dizer, ao olhar e ouvir e sentir esta do Manu Chao​. Mas uma palavra puxa a outra. Acima de tudo, não chamem putas às mulheres que por imperativos [palavra fraca] de vida, fraqueza ou tentação vendem orgasmos não beijados. Mulher nenhuma (e apelo de novo à regra da excepção à dita) abre as pernas a um estranho, sem um motivo válido. Mutatis mutandis para os homens. Ainda que — falava do motivo — aparentemente inválido, visto desta torre de marfim onde nos erguemos. E quem sou eu para falar disto?

Eu explico. Ou tento. A cena é que vivo neste mundo de putas, estes homens e mulheres que vendem a alma, a mãe e o filho por um erguer de pés. Este governo é a prova de que puta é palavra de dicionário com [“batatas fritas e um pouco de ketchup Heinz, claro!”, peço desculpa, mas enquanto eu ia acudir aos meus deveres de pai, duas meninas acharam por bem tentar adivinhar o que nem eu sei; o que vinha a seguir ao “com…”; aqui fica para memória futura e vergonha e riso delas] –; dizia, Este governo é a prova de que puta é palavra de dicionário que urge não ser desaproveitada [afinal não usei o “com”].

Mas não a usem dessa forma, à palavra puta, nem com esta gente nossa que não vende a alma. E, obviamente, defendo que a prostituição dos carinhos e dos sétimos céus (tão delicodoce que hoje me encontro) de quem não os encontra doutra forma (choque e pavor, o que disse e o que direi) devia ter um tratamento não marginal. Não sei se fui claro para quem me lê, não sei quantas regras sociais atropelei, mas pouco me interessa isso.

Reservem a palavra puta para as putas que nos trouxeram a este abismo. E era isto. Não procurem nexo neste texto. Escrevi-o para pensar, não para que mo discutam. E como prova disso (olhó paradoxo fresquinho) vou publicá-lo.

Chamam-lhes rua, mas não se vendem! Não se PaFam.

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