De mim e dos meus

Prefiro as bestas ostensivas àqueles que se preocupam mais em dar-se bem com deus e com o diabo. Dos primeiros sei sempre com o que conto, e entro a pés juntos, se preciso for; aos segundos, dependendo da gravidade da situação e de tudo o que a rodeia, dou ou não uma segunda oportunidade. Por uma questão de sanidade minha, e de justiça, não enfio três vezes a pata na mesma poça.

Não gosto de pessoas que compram pessoas, mas ainda gosto menos de pessoas que voluntariamente se vendem. Abomino aqueles que, à falta de argumentos, abandonam intempestivamente uma conversa privada ou um debate público de ideias.

Assumo tudo o que digo e tudo o que faço. E peço desculpa, quando sinto que errei (muitas vezes não dando a mim próprio o benefício da dúvida).

Que não estranhe muito quem de mim não leva palavra. É porque, decididamente, não a merece.

E não, não sou dono da razão, tenho imensos defeitos e não almejo a perfeição. Sou o meu primeiro juiz, nem sempre o último, mas definitivamente o mais exigente. E, a latere, estou cansado de gentes que ainda não se despiram do bicho salazarento que as obriga a ser os bufos de cada regime, de cada estado e de cada Estado.

Falo e oiço, engano-me e acerto, reconheço sempre os meus erros, quando os assimilo como tal. Sei o chão que piso e rejo-me essencialmente por duas agendas: a minha consciência e a pontapeada Constituição da República Portuguesa. Esta porque é justa, na essência, e porque está a ser vilmente atacada por este Estado não-democrático.

Aceitarei ser julgado (e acatarei a pena) disciplinar, civil e criminalmente, enquanto reconhecer às instituições uma réstia de legitimidade democrática. Assim não sendo, serei julgado na mesma, farei por me defender e, não acatando a pena, submeter-me-ei a ela. Qualquer que ela seja.

Não há paradoxo nisto. Este sou eu e prometo mudar e não mudar, assim a consciência mo dite. Aliás, mudo quase todos os dias, que para mudar basta acordar no dia seguinte. E estamos inapelavelmente mudados, um dia mais velhos, pelo menos.

Quanto à essência? É esta. E não haverá condenação que a mude. Demorei demasiado tempo a reconhecê-la, a chegar a ela; errei demasiado, enganei-me além do meu admissível. E, espero, continuarei a errar, sinal que estou vivo; não estar vivo de respirar, refiro-me a outro estar. Não quero é errar de novo daquele tamanho dos erros do passado. Enganos me enganarão, mas eu não posso enganar-me; a mim, ao que sou. Para isso basta não me trair, nem inventar desculpas para trair o que sou, mascarando a traição de desculpa de ocasião. Não que alguma vez o tenha feito deliberadamente, indo ao beija-mão ao cacique da situação. Mas, como acima disse, sou tramado, como juiz de mim.

E, claro, a luta continua. Com a promessa de não fazer espada do meu umbigo. Todos precisamos de pão na mesa, é certo. Mas não darei a comer ao meu filho pão com sangue. É que, cada vez que se recorre ao cacique, estamos a esfaquear o mérito de outros. E se o cacique for uma besta, que faz por nos apagar apenas porque sim? Mais um motivo para não lhe rastejar aos pés.

Dê o mundo as voltas que der, a Justiça vai prevalecer. E, por aqui, o pão continuará fresco, impoluto. E não, não é ingenuidade. É a tal da consciência; também a de ter duas mãos, duas pernas e uma cabeça.

Cobro pela partilha da minha ciência, mas jamais venderei a minha consciência, sendo certo que esta ganha reforços, armas e armaduras quando parimos.

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