Sócrates, as agendas, os calendários e as coincidências

Aquando da última revisão da medida de coacção, Sócrates recusou a prisão domiciliária com pulseira electrónica. No lugar dele, eu teria feito o mesmo.

No que respeita à questão do perigo de perturbação do inquérito, nada distingue aquela prisão domiciliária, que Sócrates rejeitou, da medida que ora lhe foi aplicada, prisão domiciliária sem pulseira electrónica, mas obviamente vigiada pelas autoridades.

Por outras palavras, do ponto de vista da salvaguarda do inquérito não há qualquer diferença, sendo que o arguido fica, num e noutro caso, impossibilitado de sair de casa.

Voltando à recusa de Sócrates em ser anilhado, direito que lhe assiste, não há razão processual para o juiz não o ter sujeito, há três meses, à medida que ora lhe aplicou.

No entanto, manteve-o na prisão.

Qual a razão? A mesma que leva os cães a lamber os tomates. Porque pode. Isto numa análise “benigna” da acção do juiz. Noutro tipo de análise, menos focada no umbigo do juiz, teria de falar em agendas e tempos de as folhear.

E é isto, e reitero que me encontro a léguas de distância de qualquer interesse no caso ou no arguido. Move-me o Direito e a Justiça.

Gostava apenas que o que leva aquele juiz a decidir neste ou naquele sentido, com este ou com outro arguido, fosse a Justiça. Porém, o homem acabou de provar, mais uma vez, que não é apenas isso que o move.

Digo mais uma vez, porque devo tomar em consideração que ricardo salgado esteve um ano em liberdade, sem esquecer que o papel arde a 233 graus Celsius, Fahrenheit 451; trezentos e sessenta e cinco dias por ano.  E que passado o ano, teve de imediato o que Sócrates só pode ter após nove meses de gaiola.

Ainda mais uma coisa; neste processo, salvo erro, o juiz tem cumprido ao dia os prazos de revisão das medida de coacção. Nada o impede de fazer antes, é certo. Mas dia 9 de Setembro (que seria o dia da revisão), António Costa debate com passos coelho. Não cabe a um juiz ponderar isso. A Justiça usa venda não por ser cega, mas para não olhar além do processo e dos sujeitos processuais.

De resto, não deixa de ser curioso o facto de todas as revisões da medida de coacção de Sócrates terem, até agora, batido certo com a agenda política. Com isto não quero significar que Sócrates é um preso político. Nem tampouco que o Tribunal é mais do que um mero instrumento de interesses alheios ao processo. Isto começou quando começou e tem tido a evolução que tem tido. Podia ter começado antes ou depois, mas “quase parece” que alguém escolheu aquele dia, e não outro, para dar início à parte mediática do processo.

E não, não contradigo o parágrafo anterior. É que daqui a 9 de Setembro, António Costa (em cujo partido não votarei) levará com cinco dias de jornalistas à porta de Sócrates. E, do ponto de vista político, isso será muito mais útil à “coligação” do que se a medida fosse revista no dia do debate.

Termino este desabafo, uma vez que falei em Sócrates, usando a forma que a comunicação social me ensinou ser a certa, sempre que se fala deste caso. Não vá alguém não saber.

“José Sócrates foi detido a 21 de novembro de 2014, no aeroporto de Lisboa, no âmbito da Operação Marquês”.

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One thought on “Sócrates, as agendas, os calendários e as coincidências

  1. Mas para onde é que nós caminhamos? Não vale a pena ser irónico. O caso, neste momento é político. E em todos os momentos é revanxista. Não se podem tirar privilégios a certas classes. Tadinhos!…

    Enviado do meu iPad

    No dia 04/09/2015, às 22:26, “Eu, Canhoto” escreveu:

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