O Naufrágio da Humanidade, o Silva e a Vida

Perseguidos, roubados e humilhados: na fronteira do desespero [Expresso]

Começo por pedir que leiam a reportagem do Expresso, acima linkada. Antes ou depois, do que de seguida vou dizer. É preciso é que a leiam. É longa e dolorosa. Poderia indicar outras palavras, escritas noutras línguas; tantas têm chovido, depois do mal feito, de forma ácida e abundante. Demorou a que a ilustração da morte virasse moda.

E agora eu.

Para que a Humanidade naufragasse, seria necessário que houvesse Humanidade. Quando escrevi a última vez sobre este “naufrágio”, quando partilhei as imagens deste “naufrágio”, logo ali, enterrei bem fundo na minha mente a ideia, o conceito de Humanidade. Se o final do século passado lhe abriu a cova, este século tem porfiado, a uma velocidade estonteante, pela inutilidade da palavra que nunca teve significado, a não ser no impoluto papel. Chegámos, em forma de parasita, há cinco segundos a este planeta. Inventámos formas de conforto. O fogo, a roda, e fomos à Lua. Não merecemos esse Ser Humanos, com todo o apêndice filosófico, sociológico, biológico, antropológico e outros lógicos de que nos rodeámos para nos justificar como tal. Destruímos o Planeta e destruímo-nos a nós. Somos uma forma definitiva de parasitismo.

Em 1997, escrevi umas coisas, a que então resolvi dar forma una. Pouco tinha a ver com isto. Mas lembrei-me dele, entremeado naquele rol de palavras, e resolvi trazê-lo ao meu olhar de hoje. Arrumá-lo. Olhá-lo daqui, deste abismo onde nos trouxemos. Este abismo de onde nem sequer cair conseguimos. Planto-o aqui, de seguida. Não sei exactamente o que farei, no meio de tanta dor. Tenho ganas de lutar pela vida da Vida de que falo no texto. Mas amanhã saberei mais. Assim como ontem sabia menos.

Voltamos ao Silva, o mais novo, o único sobrevivente do clã. Munido do Dinheiro, resolveu fazer uma experiência, como ele lhe chamava, botânico-sócio-antropológica. Construir, em pleno deserto, uma estufa de vidro.

O que fez.

Nessa estufa, obedecendo ao “state of the art”, no que a estufas respeita, o Silva plantou uma espécie de cada árvore que conhecia, uma oliveira, uma nespereira, uma macieira, uma bananeira, uma laranjeira e, até, uma árvore-do-pão (das que dão pão, mesmo). Depois semeou flores, flores de todas as cores e cheiros.

Fez um belo trabalho, o Silva. A estufa estava linda, com um depósito de água que lhe dava, a ele e às plantas, para um mês, e que ele próprio reenchia, a cuspo.

Pensando na polinização das plantas, diz-se essencial para a respectiva reprodução, o Silva colocou, dentro da estufa, dez espécies diferentes das melhores abelhas que havia. Das melhores que havia, assim mesmo.

E assim foi, uma estufa no deserto, um tanque de água, não-sei-quantas árvores e flores, dez espécies de abelhas. Temperatura ambiente: a ideal.

Depois de criar o seu paraíso no deserto, qual deus, o Silva morreu, ao volante do seu jipe. Parece que foi uma falha nos travões. Morreu entroncando numa árvore. No último estertor, diz quem viu, gritou: “não sabia que havia aqui uma árvore ilegal”.

A estufa lá ficou abandonada.

As flores e as árvores morreram quase todas.

Salvaram-se as que se adaptaram à nova realidade. Sem água, lançaram raízes a uma soltura negra que por ali havia debaixo de terra, e de que se passaram a alimentar; e deixaram crescer dentes. Uma ou outra, das originais, resistiam a beber e comer daquilo. Foram mordidas até à raiz.

As abelhas pretas às riscas amarelas deixaram de fazer pelo mel e hierarquizaram-se na captação de fel, que vendiam umas às outras e outras às umas. Inventaram o capital. A palavra e o coiso. Aguçaram os ferrões e, justamente, transformaram-se nas senhoras da estufa, matando-se com denodo, entre alianças agora e agora já não. As vencedoras usavam ao pescoço os cadáveres das abelhas amarelas às riscas pretas. E assim se locomoviam, dentro daquela enorme estufa, do tamanho de um grão de areia.

Zoom out

Vidros partidos, cheiros nauseabundos. Todos os vivos faziam pela morte. E regras, muitas regras. Havia tantas como cada interesse. Para evitar o torto e ordenar o que era direito. E assim viviam, naquela paz bélica.

Zoom in

Árvores, flores e abelhas deixaram crescer cus e sentaram-se. Em bancos. E depois os bancos sentaram-se nelas, que a estufa roda.

Até que um dia…

Até que um dia, algo por ali passou. Diz que foi o fantasma do Silva. Mas é tese sem lógica, que o Silva quis ordenar aquilo que desordenado não estava e tinha ordem natural. Era o diabo, o Silva.

Outros, e essa a tese que prevaleceu, dizem que foi a Vida, que começava a temer que a estufa do Silva a levasse.

Foi a Vida que por ali passou.

Entrou e perguntou pelas regras. Logo lhe caíram milhares delas aos pés, para que as observasse e despachasse favoravelmente. Repetiu a pergunta, desta vez explicando-se. Onde está o Direito? E lá vieram as abelhas pretas às riscas amarelas, em enxame, montadas nas outras, amarelas às riscas pretas (com desdém, apelidadas de povo pelas outras). Cada uma, das reconhecidas pela estufa, deixava cair o que achava ser direito. Aos pés da Vida.

A Vida percebeu que não a percebiam. Sentiu-se desfalecer. Aqueles mortos não a entendiam.

Perguntou, então, pela Justiça.

Ouviu-se silêncio. Ainda a convocaram para uma reunião, onde não faltariam dentes grátis, ferrões ou daquela diarreia negra

A Vida quis saber.

Inspirou.

Expirou.

E a estufa deixou de ser, com tudo o que levava dentro.

E a Vida Respirou.

Seguiu caminho entre a natureza que ela havia criado e que a havia criado a ela. Ia pensativa, a Vida, questionando-se onde havia errado. Como era possível que, entre tanta Vida, o Silva tivesse visto um deserto e criada uma prisão?

Ergueu o braço a uma das muitas árvores do caminho e o fruto caiu-lhe na mão. Levou-o à boca e saboreou-o.

Alto disse: Foi por pouco, foi por pouco que não me mataram.

E depois berrou: quantas mais estufas aguentarei?

A Vida.

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