Bem-hajas, Tsipras

Caso se confirme a demissão de Tsipras [confirmada], será esta a primeira-ministra interina até às eleições de 13 ou 20 de Setembro. Entretanto, aqui fica o meu saldo provisório desta passagem de Tsipras pelo poder.

Destruiu todas as esperanças do povo grego, ao dizer sim depois de o povo ter tido coragem de dizer não aos credores. Faltou-lhe Varoufakis que era o único com tomates para enfrentar a troika; e, pasme-se, era o único que jamais iria para aquela semana de negociações sem um grexit na manga. Tsipras diz que não tinha mandato para tanto; obviamente que tinha. Estava implícito no resultado do referendo. Não teve foi tomates.

Destruiu o que tanto tempo tinha levado a construir: uma esquerda unida. O Syriza vai obviamente dividir-se em dois ou três partidos; os originais. E mais, deu uma enorme machadada em toda a esquerda europeia, a começar pelo Podemos. Referindo o óbvio, Tsipras deu um trunfo enorme à tropa troikista. Agora eles podem apontar e dizer ao povo: vêem no que dão as aventuras da esquerda? Por cá o vil coelho já o disse; rajoy também já usou o mesmo argumento contra o Podemos.

Mas nem tudo foi mau. Ao fazer como fez, Tsipras mostrou como não se faz. Esteve bem em tudo, menos nos momentos decisivos. Devia ter usado o resultado do referendo e não ter tremido perante o dito, virando-o do avesso. Estou convencido que Tsipras esperava uma vitória do Sim; Varoufakis já o deu a entender e nem seria preciso. E explicou detalhadamente (com actos e omissões), à Esquerda, como funcionam os negociadores europeus. Não negoceiam, chantageiam; e estão prontos para ir até às últimas consequências, especialmente se Espanha e Portugal têm eleições à porta. Se a Alemanha cedesse, perdia de caras os seus microfones ibéricos. Como raio se vai negociar, sabendo tudo isto, sem um Plano B? Só Tsipras saberá. Mas eu aposto na impreparação dedicada e na falta de experiência. O que faltou? Faltou Varoufakis.

Cabe à Esquerda europeia aprender com tudo isto (aconselho vivamente Iglesias a recuperar o Monedero; sem ele o Podemos perde metade do poder de fogo). A “direita” não aprendeu nada, apenas riu e gozou.

Não posso terminar sem desejar o impossível. O regresso de Varoufakis. Ele é demasiado importante para se remeter à Universidade. Ele, ao contrário de Tsipras, sempre falou numa Europa e não apenas na Grécia. Ele mostrou que é possível desejar e concretizar o aparente impossível. Por isso, posso dizer que este meu desejo, apesar de impossível, é concretizável. Não há aqui qualquer paradoxo ou contradição. Se tudo teria sido diferente com Varoufakis ao leme? Não sei. Mas quero muito saber. Ainda quero muito saber.

E a Esquerda não morreu. Malhou de cabeça mas vai-se erguer mais forte. Eu enganei-me muito mas aprendi também muito com este sonho grego. Por isso não deixo de agradecer a Tsipras. Sem ironias.

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