Nós somos a linha vermelha: do meu medo de ter medo e uma ou outra aclaração

E se de repente escrevesses um post que ultrapassa as duas cinco mil partilhas no facebook? E se, no mesmo instantâneo, por mensagem e em comentários, as pessoas te desatassem a agradecer a coragem? Há necessariamente conclusões a tirar; ao meu ritmo. Mas avanço já com duas, em forma de certeza.

Não é de coragem que se trata, assevero. É quase o contrário; é medo. Medo de ter medo. Medo de dar por mim, calado, no meio dum imenso rebanho de silêncio. Nos dias que correm, silêncio confunde-se com sofá, tacho e compadrio. Estamos, de novo, naquele tempo do tempo em que urge não calar, sob pena de consentir. Consentir na devassa do Ser Humano, emudecer perante a destruição do Planeta.

Para o bem e para o mal, estes dias ficarão na História das Mulheres e dos Homens.

Mudar o mundo não é tarefa impossível. Cada um tem o seu mundo. E é esse mundo, invadido por interesses vis, que se muda. Se cada um, no seu viver, assim fizer, é certo que o mundo muda. Apontar o dedo, sem medo. O pior que nos pode acontecer é uma impossibilidade. Esse pior já nos aconteceu. Já é presente, sem embrulho e com laço em forma de nó de forca.

Cada um tem o dever de não se deixar açaimar. Não somos nós os cães raivosos; e há que assumir de uma vez por todas que o estado disto não é da marca que nos vendem. Não fomos nós que vivemos acima das nossas possibilidades. Os bancos representam a quase totalidade da dívida soberana do país. Essa mesma, que nós pagamos a juros de morte. E digo morte, porque é de morte que se trata. De morte e de esvaziamento. De gentes e de futuro.

Se nada for feito, Portugal transforma-se naquilo que o infame SSchäuble nos destinou. Uma colónia alemã, reduzida a 6 milhões de indígenas para servirem a Alemanha e seus satélites. O que o III Reich não logrou, este IV está prestes a atingir. O que não começarmos a resolver agora – ontem –, será a herança que deixaremos aos nossos filhos. E atentai bem na velocidade a que corre a ignomínia. O que ontem tínhamos por certo, hoje parece impossível recuperar. O que ontem era inaceitável, hoje parece certo.

Parafreasendo (de forma algo abusiva) José Manuel Pureza, no seu recente ensaionós somos a linha vermelha. Essa que não se pisa, essa que não se ultrapassa. Essa que foi conquista de séculos. Essa que, por cá, foi também uma das conquistas de Abril. E tanta dor, tanta vida que nos custou chegar a Grândola. Mas chegamos ao dia de Sophia. “O dia inicial inteiro e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo”. O mesmo que desbaratámos, como cúmplices, em menos de uma década.

Essa linha vermelha vem sendo pisada dia após dia, sim. Porque eles, os vis a soldo do capital maculado de sangue e dor, não olharão a meios para a continuar a pontapear para canto o futuro dos nossos filhos. E não é um canto bonito de se ver. Nem de se ouvir. Para já, ouvem-se silêncios gritados. E os campos de concentração vão voltando. A Grécia é, hoje por hoje, um campo de concentração em forma de país. O capital não só venceu como trucidou, espezinhou, humilhou. Medicou austeridade por vingança. Receitou mortos. E por cá houve quem se risse, quem exultasse. Alguém se esqueceu que “também vivemos na rua dos pobres”, como bem lembrou Rui Moreira (não me lembrava do autor da frase; agradeço à Ilda Figueiredo ter-me avivado a memória). Mas o futuro voltará a este tema. Tivesse Portugal metade das ganas dos Gregos e não estaríamos neste estuporado e estuprado aqui. Mais uma vez, aguardaremos pelos bons ventos e casamentos que, creio, virão de Espanha. Ou então não.

Não carecemos de heróis, apenas de ousar existir. A política tem de entrar na vida de cada um. Não falo na politiquinha de corredor; não é esse vira-o-disco-e-toca-o-mesmo.  Essa coisa umbiguista  e autofágica, pensada a quatro anos.

Falo apenas em existir. Vivemos tempos em que existir é uma ousadia. Não falo na política partidária, que essa é mera consequência. Necessária ou não, depende de cada um. Ousar existir, antónimo daquilo com que José Gil, e bem, nos referenciou. Tens medo de que, pá? Já perdeste tudo. Resta-te a dignidade. Ter medo do medo é uma boa receita.

Como sempre, alonguei-me. Falei, lá atrás, em duas certezas. A outra é a de que não deixarei cair o tema do post que antecede este. E por hoje é só. Depois de uma qualquer meia-noite, quando a abóbora se transformar, se verá.

Ousem existir, que não custa assim tanto. Basta erguer a cabeça, com a certeza de que nada devemos, a não ser a nós e aos nossos filhos.  

Aclaração de interesses: Dia 4 de Outubro votarei Bloco de Esquerda, partido em que não milito. Em 2016, votarei em Sampaio da Nóvoa para Presidente da nossa República. Tenho imensas saudades de ter um Presidente da República que não seja uma espécie de Supra-Primeiro-Ministro. Disse Aclaração porque gosto de coisas claras, e não estou para me aborrecer com contraditórios a comentários patetas. No entanto, o que sou e o que quero não se resumem a este parágrafo quase despiciendo. O que tinha para dizer, era aquele resto todo lá para  cima. Existam, pela nossa saúde. E, a propósito de formas de existir, ficam os links para o Ouvir & Falar e para a pegada. Cya.

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