Desta ignóbil Segunda-feira, 13

TsiprasPor feitio de ofício, sou muito apegado a factos. Sem factos, não há Processo. Mas… por Ser Humano sou muito apegado às ganas e, sólidas vezes, deixo que se me imiscuam na razão. Porque o mundo das Mulheres e dos Homens foi mil vezes construído e desconstruído por esse apelo da vontade. Contra o facto de uma pedra semi-enterrada e inamovível se ergueu um homem que a desenterrou e a empurrou ladeira abaixo. E eis a roda.

Escrevi o texto que se segue em 17 de Novembro de 2013. Crente de que um só Homem pode mudar o seu mundo. E mudar o mundo seria (é, será) a soma de todas essas mudanças. Crente era e crente me mantenho. Seria e será. Nunca menosprezei o inimigo, embora muitas vezes tenha dado esse parecer. Era um facto meu. É um facto meu.

Sempre temi esta ignóbil Segunda-feira, 13. Sei do que a Alemanha é capaz. Já o soube vezes demais. E ontem, em directo de vida, soube-o de novo. E, apesar de, avisado avisar, sinto-me, não escondo, como que escoiceado na carne e nos ossos. Mas a essência sobrevive intacta; e a carne e os ossos recompõem-se. Se doeu, ver a vileza em acção? Doeu muito e não saio o mesmo. Saio mais forte. O que aconteceu nesta madrugada deu-nos a razão que não queríamos ter. Não é plural majestático, isto — guardo para mim o que é; não que seja algo de transcendente, mas porque não calha aqui.

O Portugal de que falo abaixo é a Grécia de Dezembro passado. E a Grécia de Dezembro passado é o Portugal de hoje. Por mais desbloqueios que sejam desbloqueados. Aliás, precisamente por causa dos bloqueios desbloqueados. Que vergonhosa pelintrice, essa do desbloqueio. Imagino que, para um serviçal avençado, tamanho feito seja honorífico. Mais uma merdalhinha tatuada naquele peito a soldo.

Mas p´rá frente, que atrás vem gente.

Esta foi a madrugada espelho-negro da de Sophia. A madrugada que eu temia. O dia seguinte e consequente, parcial e sujo. Onde eles se revelaram, emergindo da putrefação e do ignóbil grunhir de corredor.

Hoje, sabemos da europa que não é. E o nome da besta aparece inteiro. Não é o auto-proclamado Rudolf Hess (no texto abaixo explico a inusitada referência). Falo daquele que anda sem pernas (estou numa de linguagem esotérica). wolfgang schäuble, filho devoto de eva e adolf. O resto são pinguins.

Hoje, finalmente, sabemos tudo. Foi uma madrugada limpa, não no sentido benigno; limpa de transparente. Tudo se vê, agora, que a vileza destapou as vergonhas.

E isso é bom. O inimigo ganhou pátria e ganhou líder. E faria – já fez, aliás –, as delícias de Hollywood. Um tronquinho numa cadeirinha, com rodas por baixo. heil, schäuble

Não quero entrar em demasiados pormenores, que estou agora calmo e o texto já vai longo, sem contar com o outro que se segue. Quero agradecer a Alexis Tsipras e a Yanis Varoufakis a transparência com que nos revelaram os contornos do IV Reich. Sei que nenhum deles lerá estas palavras, mas quero mesmo demarcar-me de quem chama traidor a Tsipras. Tsipras foi quem forçou este assumir de posições claras no tabuleiro universal. Ele e o seu imenso povo que espero não o abandone.

Eu, valha isso o que vale (e hoje de nada vale), mantenho-me inteiro e limpo a seu lado. E se um dia tiver que ser, partilharei a mesma trincheira. Se um dia me sentir verdadeiramente traído, estou pronto para o assumir. Com as consequências que isso tenha. Remetido esteja eu a estas palavras tecladas ou não.

E a minha Grécia? Está triste, muito triste. Usada e abusada em laboratório. Mas vai sobreviver. Já não tenho a certeza da História que rola como sempre rolou. Lembro-me agora daquele pasteleiro que, durante a Tomada da Bastilha, parou para assistir. E, tomada a Bastilha, continuou a vender os pastéis, aos novos fregueses.

Haverá sempre pasteleiros, haverá sempre bloqueados desbloqueadores, haverá sempre dildos, haverá sempre homens que se vendem e homens que compram homens que se vendem.

E talvez ainda haja heróis. Talvez Tsipras não se fique. Talvez a França se lembre que esteve para ser apenas Vichy, État Français, Provinvia Teutónica. Talvez o Podemos ainda possa. Creiam-me; foi esse o principal temor do encadeirado neo-führer. Mijar no poste europeu e afastar pelo cheiro quem quer, quem ousa e quem pode.

Adiante. Entre a certeza da morte certa e o talvez do parágrafo que antecede, aposto contra o imperialismo em cruise control. Aposto na Mulher e no Homem, contra esta selvajaria dos que caíram do lado errado da árvore.

Entre a crueza do que agora é, aposto na roda que foi pedra. Será poesia minha, mas não liriquismo bacoco. Enfrento a imposição desta cobarde madrugada com a minha única e inexpugnável certeza.

Sou pai de um Homem.

E fico-me por aqui, que o essencial já está dito. O resto escrevi-o há dois anos. E segue para quem queira ler ou reler.

Hasta.

Quando partimos da parte para definir o todo corremos o risco de generalizar; e quando generalizamos cometemos injustiças, porque necessariamente excluímos ou incluímos no todo algo que, por Princípio, mereceria ser considerado à parte. E tratado como tal.

Inventei esta espécie de trava-línguas de má colheita para avisar que, ao dizer o que vou dizer, necessariamente cometerei injustiças. Porque nem todos os alemães são iguais (adiante explicarei o propósito disto). Mas são injustiças medidas, calculadas, submetidas a uma espécie de Princípio da Concordância Prática.

Normalmente, este Princípio é usado quando se verifica o confronto de dois Direitos e um tem de prevalecer sobre o outro – veja-se a questão da Liberdade de Imprensa versus o Direito à reserva sobre a Intimidade da Vida Privada; até que ponto é legítimo um jornalista revelar factos da vida privada de quem quer que seja?

A resposta tem de ser dada caso a caso. Será legítimo um jornalista dizer que o vice-Primeiro Ministro é homossexual? Obviamente que não. E se esse mesmo político for o líder de um partido que tem como uma das bandeiras a luta contra o casamento entre homossexuais? Aí a coisa complica-se. Mas a resposta, para mim, continua a ser não. E podíamos ir por aí adiante com esse vice-Primeiro Ministro. Ou então mudar de assunto.

(…)

Em suma, Concordância Prática de Direitos é isso mesmo. Colocá-los, na prática, em concurso e, perante a impossibilidade de ambos se exercerem na plenitude, verificar qual deve prevalecer. Olhando, com bom-senso, os deves e os haveres. Os ganhos e os perderes.

Apliquemos agora este mesmo Princípio, ainda que violentado, à tentacular Alemanha de agora. Será possível legitimar a injustiça em que se traduz a violenta generalização de afirmar que todos os alemães são iguais? E qual a importância de tão ingrata tarefa?

Vamos a factos.

A Alemanha entre 1914 e 1945 tentou por duas vezes dominar a Europa e, em medidas diferentes, praticamente a reduziu a escombros (em termos físicos, económicos, políticos e sociais). Sendo que de ambas as vezes o domínio da Europa seria o trampolim para o domínio do mundo. Esta questão aparece para além do explícito quando propagandeado pelo ideal nazi. Um império de mil anos, imutável e perfeito à imagem da “raça alemã” (o que quer que isso seja). Não me vou alongar em questões como o “misticismo nazi”, que é por muitos visto como a trave mestra do “ideal ariano”; mistura de esoterismo, fanatismo, megalomania, homofobia, racismo, anti-semitismo, xenofobia e demais maleitas congéneres. Basta dizer que a ideia assenta no facto de o nazismo ser a religião e o führer o deus.

A questão é, pois, elementar. Em cerca de 30 anos, a Alemanha (vou aqui ser simplista e chamar-lhe apenas Alemanha; na verdade há mais do que uma Alemanha) foi a génesis das duas grandes guerras convencionais à escala global. Durante a II Guerra Mundial, já com os aliados portas adentro, os alemães (e aqui vem a primeira generalização) ficaram com Hitler até ao fim. Já Hitler se tinha reduzido à sua primeira essência de cobarde, encafuando-se num buraco e terminado com a infeliz nascida que mudou a rota do planeta, e continuavam os alemães a lutar por esse desatino genocida de um louco com voz de rádio.

Mais factos.

Século XXI; eis de novo a Alemanha como potência económica mundial. E eis de novo a Alemanha, reunificada desde 1989, com ganas de dominar o mundo. Há, desta feita, uma nada ténue diferença para as vezes anteriores. É que em 2013 a Alemanha está efectivamente a comandar os destinos, no terreno, de pelo menos três países; Chipre, Grécia e Portugal. E com ganas de o alcançar em tantos quanto possa, o que rapidamente conseguirá, se os homens de bem e sem preço marcado na testa não se mexerem. Espanha, Itália, França, Holanda. E caídos estes, os restantes vêm com o troco. Omito propositadamente a Irlanda, porque não passou de um ensaio. Um teste à Inglaterra. E a Inglaterra é (são), por razões históricas, económicas e geográficas, “outros quinhentos”.

Ainda mais factos.

E agora vou apenas limitar-me ao que não oferece dúvida. Ao que nos toca, embora na Grécia as coisas não sejam muito diferentes. Desde que permitimos, empurrados pelo actual Governo, a entrada da troika em Portugal, quantas vidas se perderam? Entre suicídios, doença, fome, frio; ou “apenas dor e mágoa”. Quantos morreram antes de tempo e quantos não chegaram a nascer? Quantos emigraram? Quantos não imigraram?

Mas há algo que devo esclarecer, sob pena de estas palavras perderem aqui o sentido. Estarei, de forma abusiva, a confundir a troika com a Alemanha? E os infames mercados e as agências de rating?; e bildenberg e o Goldman Sachs? Obviamente, nem tudo isto é Alemanha, basta atentar no declarado ódio visceral que Merkel tem ao Goldman Sachs. Quanto ao triunvirato “Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional” estamos conversados. Os dois primeiros são notoriamente marionetas da Alemanha e o FMI é uma espécie de sempre-em-pé onde haja tostão para extorquir. Alemanha, pois. Os mercados, as agências de rating, bildenberg e o Goldman Sachs, não sendo dominados pela Alemanha − que apenas terá algum poder partilhado nos três primeiros e alguns agentes infiltrados no último −, não vão muito além da agiotagem em grande escala, sem pretensões de ocupar efectivamente o terreno. E a Alemanha, com brio e vocação, aproveita o que mais lhe interessa, a médio e longo prazo. A germanização da Europa. Um império de mil anos, imutável e perfeito.

E, com esta conjugação de factores, teremos em breve um Portugal que manterá o nome como mera referência geográfica. O Algarve e parte do Litoral Alentejano serão uma espécie de Flórida europeia, onde os boches virão morrer no descanso do führer. No resto do país, uma China a custo zero. Trabalho escravo. Construir aqui, espetar a etiqueta “Made in Germany” (ao “made in” não podem eles fugir) e vender para o resto do mundo.

Apliquemos agora a esta loucura, quiçá minha, o tal Princípio da Concordância Prática, ainda que necessariamente adulterado.

De um lado temos uma nação próspera, organizada como nenhuma outra, que pé ante pé se foi recuperando, também graças a um Mundo que lhe garantiu rédea solta e lhe tirou o açaime. Uma nação que vive numa Democracia interna bem mais saudável do que a nossa (suprema ironia). Um país repleto de fervorosos cidadãos, que exercem cidadania efectiva.

Do outro lado, temos todos os factos atrás elencados. Aquilo que, sem arriscar, chamo de IV Reich. Por mera curiosidade − ou nem por isso −, diga-se que esta expressão, IV Reich, foi usada pela primeira vez por Rudolf Hess, já depois do Julgamento de Nuremberga, quando grunhiu algo como “eu serei o führer do IV Reich”. Não calhou. Mas a verdade é que calhou o sacana morrer tarde, já com 93 anos, em 1987. Teorias acerca das causas da sua morte não faltam, mas a maís razoável, atendendo ao facto de o bicho estar cego e praticamente não se conseguir mexer, é que tenha mesmo sido assassinado e o suicídio “versão oficial” não passar de uma emenda bem pior que o soneto. Adiante.

Ser-me-á, perante tais factos, legítimo cometer a injustiça de enfiar todos os alemães no mesmo saco e olhá-los por igual, porque não há tempo para fazer distinções? Ver em cada alemão um inimigo só porque é alemão? Por natureza (minha) diria que não, que mais vale ousar a injustiça de deixar em liberdade mil culpados, do que a maior injustiça de prender um inocente. [e agora entrem os violinos]

E se em vez do Euro, a arma fosse de guerra convencional? E se em condições “ideais” cada alemão fosse agora chamado de volta às trincheiras?; chamado de volta ao viver e matar hitleriano? Os netos da Alemanha genocida estariam aí para as curvas? Se sempre estiveram (ainda não passaram 100 anos sobre a Primeira Guerra Mundial), se economicamente estão… Se para um alemão de classe média viver ao estilo “Deutschland,Deutschland über alles” é necessário chacinar de fome, de frio e de doença dez portugueses (eufemismo, bem sei; serão mais), se a Merkel acabou de ser reeleita, que conclusões posso tirar?

Eis-nos, pois, em pleno matar ou morrer de um IV Reich, bem mais “eficaz” do que os anteriores.

Será injusto tomar a parte pelo todo? Mas e se a parte andar perto do todo? Se for o quase todo? E eis a Justiça de não generalizar versus a Justiça de perder tempo a escolher. E digo perder tempo porque os alemães já provaram (demasiadas vidas matadas) que, quando somados (quando em matilha), perdem a individualidade em favor de um “ideal” de conquista que lhes corre na massa do sangue. A Historia não mente e insiste em não errar. O problema dos homens é precisamente terem memória curta. A reunificação da Alemanha equivaleu, metaforicamente, à união da fome com a vontade de comer. Quem come é sempre a Alemanha, os devorados somos nós; os outros.

“A História é uma velhota que se repete sem cessar” [Eça de Queirós, in Cartas de Inglaterra] e a verdade é que a Alemanha já nos disse − gritou, ameaçou, matou −, por demasiadas vezes, que não cabe nela.

Arriscai por Justiça não ser injustos (é perigoso e longo o caminho de separar tão pouco trigo de tanto joio). Eu arriscarei, também por Justiça, sopesar a injustiça que a História me grita com a injustiça de ser “Justo”. Ainda que os alemães não sejam todos iguais, os resultados da Alemanha aplicada no terreno são sempre os mesmos. No que me toca, antes morrer de pé e berrar de dor do que rastejar às ordens de um kapo que no momento tem assento em São Bento e em Belém.

É possível alterar este fado? Claro que sim! Levanta-te, descruza os braços, ergue os punhos e muda o teu mundo. Se cada um mudar para melhor o seu mundo, o mundo muda (e sim, continuo a acreditar; vivo ao som de violinos, se isso vos fizer felizes; mas sei que um dia alguém inventou a roda, e muitas rodas se seguiram e outras tantas se seguirão.)

E a velhota pára de se repetir.

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