As medidas do referendo na Grécia

Sem Título

Olha, estes dois jovens desconhecidos [Paul Krugman e Joseph Stiglitz, vide infra o artigo do Público] são, tal como Tsipras e Varoufakis, uns extremistas inconsequentes, desconhecedores da verdadeira dimensão de tudo isto. Só um souvenir destes dias: Tsipras foi eleito para combater a “verdadeira dimensão de tudo isto”.

O programa de Governo do Syriza passa por derrubar o capitalismo selvagem, cego às pessoas; esse mesmo capitalismo que nos corroeu e destruiu o país, ao ponto de estarmos “bem de números” (estamos?) e mal de pessoas (as que sobraram, depois da sangria do mito urbano).

Portugal, o eterno bom aluno, não é a Grécia. Com isso concordo, mas acrescento um “infelizmente”. Agora vou ali banhar-me num cofre cheio de moeda fresca, que hoje esteve um dia gélido, com medidas de velocidade do vento inferiores a vinte e três quilos de sabores na escala lehman brothers. A frase que antecede, intrinsecamente desconexa, foi inspirada na lavagem que nos andam a dar a mamar há quatro anos. E que nós mamamos, de biberão e sorriso em riste. Antes que me esqueça, “lavagem” as in “lavagem cerebral” mas também “comida para porcos”.

Voltando à Grécia, neste momento o “sim” a mais do mesmo lidera as sondagens. Não é fácil votar “não” em pleno corralito hetero-induzido (ainda que o que ora se está a passar nada tenha a ver com o corralito argentino). Não sei até que ponto Tsipras carece de uma vitória do “não” para dizer não aos credores. O Syriza ganhou as eleições com 38%. Um valor semelhante, em referendo, levanta uma questão curiosa e não despicienda. A da legitimidade.

Com 38%, Tsipras tem ou não “legitimidade” para ir abanar o rabinho aos credores? Não que ele algum dia o faça, mas fica a questão a que Tsipras saberá responder. E, estou certo, responderá, com a mestria de sempre. Essa é, pois, a primeira fasquia – 38%. Tudo o que vá além disso é lucro e dará a Tsipras uma capacidade negocial extra. E uma vitória do “sim” não equivale a uma abertura cega aos desejos canibais dos credores, encabeçados pela não-eleita (pelo povo) Lagarde (que se encontra em campanha para renovação do mandato). Relembro que o acordo esteve quase a ser alcançado antes do fmi ter decidido botar palavra.

De resto, há que não esquecer o que os media ocidentais zelosamente esconderam. A Rússia convidou a Grécia para os BRICS. Para quem era um dos PIIGS, não está mal, não.

Há varias coisas deliciosamente certas. A Grécia pôs a Europa a dançar o Sirtaki. O dia D também ainda não é Domingo. E a procissão continua no adro. Estou seguro de que Tsipras continuará a exercer Democracia. A pergunta em referendo não é: “devemos ou não abrir as pernas aos credores?”. O resultado do referendo tem várias medidas, e Tsipras saberá lê-las. E cumpri-las. É o único eleito mandatado para isso. 
Aguardemos.

Os economistas Paul Krugman e Joseph Stiglitz, ambos distinguidos com o prémio Nobel, defenderam nesta segunda-feira que os gregos devem votar “Não” no referendo, considerando que, sem mais medidas de austeridade, podem ter esperança no futuro.

No artigo de opinião de hoje no The New York Times, Paul Krugman escreve que “a Grécia deve votar ‘Não’ e o Governo grego deve estar preparado, se necessário, para sair do euro”, argumentando que é verdade que o executivo grego “estava a gastar acima das suas possibilidades no final dos anos 2000” mas que, “desde então, cortou repetidamente a despesa e aumentou impostos”.

“O emprego público caiu mais de 25% e as pensões (que eram de facto demasiado generosas) têm sido cortadas abruptamente. Se a isto se somarem todas as medidas de austeridade, fizeram mais do que o suficiente para eliminar o défice e passarem a ter um amplo excedente”, nota Krugman.

A explicação para que a correcção não se tenha verificado na Grécia é que “a economia grega colapsou, muito devido às muitas medidas de austeridade, que afundaram as receitas” do Estado, defende o economista norte-americano, acrescentando que este colapso “esteve muito ligado ao euro, que amarrou a Grécia num colete-de-forças económico”.

Krugman aponta três razões para que os gregos votem “Não” no referendo: “Após cinco anos [de duras medidas de austeridade], a Grécia está pior do que nunca”, “o tão temido caos gerado por um ‘Grexit’ [saída da Grécia da zona euro] já aconteceu”, ou seja, os bancos estão fechados e foram impostos controlos de capital e, finalmente, “ceder ao ultimato da troika iria representar o abandono final de qualquer pretensão de independência grega”.

O Nobel da Economia de 2008 deixa mesmo um apelo aos gregos: “Não se deixem levar pelos que dizem que os oficiais da troika são apenas tecnocratas a explicar aos gregos ignorantes o que tem de ser feito. Estes pretensos tecnocratas são, de facto, fantasistas, que desconsideraram tudo o que sabemos sobre macroeconomia e estiveram sempre errados. Isto não é sobre análise, é sobre poder — o poder dos credores para dispararem sobre a economia grega, que vai persistir enquanto a saída do euro for considerada impensável”.

Para Krugman, “é tempo de pôr fim” a esta visão de que sair do euro é impensável ou então “a Grécia vai confrontar-se com uma austeridade interminável e com uma depressão sem solução e sem fim”.

Também Joseph Stiglitz, que foi distinguido com o Prémio Nobel da Economia em 2001, assina hoje um artigo de opinião no jornal britânico The Guardian, intitulado Como eu votaria no referendo grego.

Stiglitz reconhece que “nenhuma alternativa, aprovação ou rejeição dos termos da troika, vai ser fácil e ambas implicam riscos” e sublinha que, se ganhar o “Sim”, isso vai significar “uma depressão quase sem fim”.

“Talvez um país empobrecido — que vendeu todos os seus activos e cujos jovens brilhantes emigraram — possa finalmente conseguir um perdão da dívida. Talvez transformando-se numa economia de rendimentos médios, a Grécia possa finalmente aceder à assistência do Banco Mundial. Tudo isto pode acontecer, na próxima década ou talvez na década a seguir a essa”, resume o economista ao retratar o futuro da Grécia, caso os gregos aceitem as condições que os credores internacionais estão a pedir.

Já num cenário em que os gregos votam “Não” no referendo de 5 de Julho, Stiglitz considera que isso, “pelo menos, ia abrir a possibilidade de a Grécia, com a sua forte tradição democrática, ter a oportunidade de decidir o seu destino por si”.

“Os gregos podem ganhar a oportunidade de desenhar um futuro que, ainda que não seja tão próspero como no passado é, de longe, mais esperançoso do que a tortura sem consciência do presente”, reitera o economista.

A crise que opõe o Governo grego aos credores internacionais — Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu — assumiu um rumo inédito depois de o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ter anunciado, na sexta-feira à noite, a convocação de um referendo sobre o programa apresentado pelos credores para desbloquear a ajuda financeira ao país. No sábado, o Eurogrupo recusou-se a prolongar o programa de assistência financeira à Grécia, que termina nesta terça-feira, dia 30.

A Grécia, que enfrenta problemas de liquidez, arrisca-se a entrar em incumprimento, tendo de pagar até terça-feira à noite mais de 1,5 mil milhões de euros ao FMI.

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