Não fui escrito por Cervantes

mafalda

Hoje, as manchetes vomitavam. Vivemos num país onde aquela figurinha é o braço direito daqueloutra figurinha. E dou por mim a dar por mim. A dar por mim no meio disto. E a pensar que já não me aborrece peva aqueles tipos que dizem “eu sempre votei isto” ou “eu sou disto”.

Especialistas em bola, assim cultivados; é natural que pontapeiem a urna; que olhem os partidos como clubes de baliza aberta. Que votem naquele canalha porque aquele canalha vos oferece emprego ao cão e ao periquito. Afinal, há é que encher a barriguinha do dia, mesmo que isso implique dar o cu e cinco tostões. E a seguir muda-se de cartão. Concedo que, aí, a bola leva melhor.

Mas já não me aborrece. Já não ligo. Não há ligação possível. Eu estou errado. Vós, cinza-dor, sois a razão. O passado, o presente e o futuro. E o velho do restelo ganhou a contenda. As caravelas não partirão. Partir-se-ão. No cais.

E tu cais, e levas contigo o país.

Aborrece-me um pouco – só um pouco — que façam da urna de voto o nosso caixão. Não me incomoda este vosso suicídio colectivo. Incomoda-me é que me matem. Chateia-me, pá. Ser morto, a cada eleição, pela vossa ausência, ou não presença, ou simples presença do vosso umbigo…

Chateia-me, porra! Chateia-me de morte. Não gosto de morrer.

Quando morrer que seja de morte matada, sim. Na luta, de olhos meus nos olhos do meu matador. Mas não me sujeito mais a esse vosso cianeto sufragista. Não serei um dano colateral da vossa ignomínia.

Honrarei Abril até ao fim, mas cravarei na flor os espinhos que lhe faltaram.

Povinho de merda. Quem sou eu para lutar contra as vossas barrigas encostadas ao balcão? Quem me manda perder tempo com tão triste gente? Mesquinhos, medíocres, egoístas, chupistas, tachistas.

Aqui me demito.

Preocupam-me bem mais aqueles que se preocupam, aqueles que não se agacham. Não me demito de mim nem dos meus. Fosse eu Noé e levava-os todos para a Grécia.

E a vós, tristeza, para as desertas. Tirava é de lá as Cagarras, que não têm culpa desse vosso cavaco.

Não há emenda para este erro de casting feito país. Ide ler Eça, Ramalho, Antero. Ide ler Unamuno. Ide, cambada de dâmasos. Estais lá todos. Mil anos mais velhos. Mas iguais. Mil anos mais novos, mas iguais.

Ide ler… Paródia. Já era bom que lessem.

O meu país não é a terra onde nasci. Serei Grego, serei Basco, serei Catalão; Castelhano, até. Irlandês me confesso. Sou onde estão os meus iguais. Sou tudo menos isto.

E, acima de tudo, sou Pai. Assim me rejo. Assim agirei. Não sou é isto. Não posso ser isto. Por uma questão de dignidade e de coerência. Porque o caminho não se faz de joelhos.

Sois um vómito. E mereceis cada ignomínia que vos calha na sorte. Mas eu não pagarei mais a vossa rifa.

Não fui escrito por Cervantes.

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