A noite não caiu

Este artigo, publicado no Público, levanta uma série de questões. E, reich após reich, patada após patada, dou por certo o quão errada foi a mudança de orientação das potências aliadas. A cada crime cabe a pena justa. Nem sempre. Os alemães foram tratados como meninos traquinas. Tão só. E ainda tiveram direito ao rabinho lavado com água de rosas. Nuremberga foi um largar de bodes expiatórios. E “Ich bin ein Berliner” a porra. Não está o povo Grego a sofrer pelos erros de quem os comandou?; o que inclui as piratarias dos microfones alemães implantados em plena Ágora? Já com os boches, como sempre, no pasa nada.

Não subscrevo todo o artigo; desde logo não foi Hanna Arendt a primeira (nem de longe) a ter compreendido que “a aparentemente mais banal pessoa pode cometer as maiores barbaridades”. Mas adiante. Pois poderá, sim. A mais banal das pessoas. Sucede que o iii reich ultrapassou tudo isso. Não haveria hitler sem aquele povo. Aquele povo. Aquele mesmo povo que trinta anos antes tinha ousado algo semelhante (mutatis mutandis). Não haveria II Grande Guerra sem I Grande Guerra. E não haveria isto a que, medindo as palavras, chamo de iv reich, se houvesse mais memória, menos perdão, menos saliva. O artigo a que me refiro segue de seguida. Foi escrito por Fernando d’Oliveira Neves e chama-se “A noite caiu”. No que nos toca, a noite não caiu sobre quem devia.

Vi há dias A Noite Cairá, um documentário que recupera imagens de um filme feito, logo a seguir à guerra, por Sidney Bernstein e editado por Alfred Hitchcock, com as primeiras imagens obtidas pelos operadores do Exército inglês quando da libertação dos primeiros campos de concentração nazis. O filme visava confrontar os alemães com o insuportável horror dessas desumanas imagens. Entretanto, as potências aliadas mudaram de orientação. Preferiram recuperar um clima de confiança para reconstrução do pós-guerra, pelo que o filme nunca foi mostrado e aquelas imagens foram relegadas aos arquivos, só agora sendo reveladas ao público. Ultrapassam tudo o que tinha visto sobre a crueldade humana.

Não há modo de descrever o horror das imagens que o filme mostra. Nem é possível adjectivar o choque e repugnância que causam. Os próprios sobreviventes da libertação dos campos que são entrevistados no documentário não conseguem conter a emoção que ainda hoje, justificadamente, lhes causa a desgraça com que se depararam.

Vi o filme num silêncio mudo e gélido. A capacidade de impiedade humana vai muito além do que queria pensar, além de tudo o que pudesse imaginar. Holocausto é realmente a palavra adequada para descrever aquela repugnante chacina.

Diversas vezes ouvi, ou li, o comentário de que os campos nazis desumanizavam as vítimas. Quem sai desumanizado das imagens d’ A Noite Cairá são os algozes e as populações vizinhas aos campos, pela indiferença, se não conivência, com que aceitavam aquele hediondo crime e dele se aproveitavam, como ali se ilustra. As vítimas, pelo contrário, saem sacralizadas, como canonizados automaticamente, para usar uma imagem católica.

Que isto tinha sucedido pela mão de um dos povos que deu à civilização ocidental algumas das mais sublimes obras do pensamento, da arte e da cultura é difícil de compreender e dá que pensar. Desde logo que o lobo não está nos outros, está em nós. Que, como Hanna Arendt compreendeu, a aparentemente mais banal pessoa pode cometer as maiores barbaridades.

O único modo de resgatar o intolerável sacrifício das vítimas é o de fazer prevalecer o humanismo sem discriminações étnicas ou religiosas que, sobretudo depois da Segunda Guerra, queremos como apanágio dos valores ocidentais.

Quando na própria Europa renascem os nacionalismos, a xenofobia, o racismo, o anti-semitismo e surgem discursos de alto para baixo para os “outros”, com a arrogância de se deter conjunturalmente a força e o poder, quando se manipula aquela inqualificável carnificina para promover políticas opostas a esses valores, seria oportuno que a visão daquelas imagens fosse mais difundida, desde logo junto dos responsáveis políticos.

Alguém disse que o problema do Holocausto é ter acontecido. Está aí. Como o Gulag, a Revolução Cultural, o Pol Pot, o Rwanda. Nada pode apagá-los. Não os podemos esquecer. De igual modo, devemos reconhecer a crueldade gratuita do Estado Islâmico, não como um resquício da Idade Média, antes como uma contemporaneidade gritante e inquietante.  

Vi há dias A Noite Cairá, um documentário que recupera imagens de um filme feito, logo a seguir à guerra, por Sidney Bernstein e editado por Alfred Hitchcock, com as primeiras imagens obtidas pelos operadores do Exército inglês quando da libertação dos primeiros campos de concentração nazis. O filme visava confrontar os alemães com o insuportável horror dessas desumanas imagens. Entretanto, as potências aliadas mudaram de orientação. Preferiram recuperar um clima de confiança para reconstrução do pós-guerra, pelo que o filme nunca foi mostrado e aquelas imagens foram relegadas aos arquivos, só agora sendo reveladas ao público. Ultrapassam tudo o que tinha visto sobre a crueldade humana.

Não há modo de descrever o horror das imagens que o filme mostra. Nem é possível adjectivar o choque e repugnância que causam. Os próprios sobreviventes da libertação dos campos que são entrevistados no documentário não conseguem conter a emoção que ainda hoje, justificadamente, lhes causa a desgraça com que se depararam.

Vi o filme num silêncio mudo e gélido. A capacidade de impiedade humana vai muito além do que queria pensar, além de tudo o que pudesse imaginar. Holocausto é realmente a palavra adequada para descrever aquela repugnante chacina.

Diversas vezes ouvi, ou li, o comentário de que os campos nazis desumanizavam as vítimas. Quem sai desumanizado das imagens d’ A Noite Cairá são os algozes e as populações vizinhas aos campos, pela indiferença, se não conivência, com que aceitavam aquele hediondo crime e dele se aproveitavam, como ali se ilustra. As vítimas, pelo contrário, saem sacralizadas, como canonizados automaticamente, para usar uma imagem católica.

Que isto tinha sucedido pela mão de um dos povos que deu à civilização ocidental algumas das mais sublimes obras do pensamento, da arte e da cultura é difícil de compreender e dá que pensar. Desde logo que o lobo não está nos outros, está em nós. Que, como Hanna Arendt compreendeu, a aparentemente mais banal pessoa pode cometer as maiores barbaridades.

O único modo de resgatar o intolerável sacrifício das vítimas é o de fazer prevalecer o humanismo sem discriminações étnicas ou religiosas que, sobretudo depois da Segunda Guerra, queremos como apanágio dos valores ocidentais.

Quando na própria Europa renascem os nacionalismos, a xenofobia, o racismo, o anti-semitismo e surgem discursos de alto para baixo para os “outros”, com a arrogância de se deter conjunturalmente a força e o poder, quando se manipula aquela inqualificável carnificina para promover políticas opostas a esses valores, seria oportuno que a visão daquelas imagens fosse mais difundida, desde logo junto dos responsáveis políticos.

Alguém disse que o problema do Holocausto é ter acontecido. Está aí. Como o Gulag, a Revolução Cultural, o Pol Pot, o Rwanda. Nada pode apagá-los. Não os podemos esquecer. De igual modo, devemos reconhecer a crueldade gratuita do Estado Islâmico, não como um resquício da Idade Média, antes como uma contemporaneidade gritante e inquietante.  

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